Carta Sulista I

Não escute as vozes de tua paixão. A razão me diz seja o que é, entretanto eis a questão: saber quem sou e o que quero. O que não quero. Como se pode não escutar esta corrente elétrica e louca que me atravessa e me transfigura. Onde está minha e nossa liberdade? Onde está nossa verdade e nossa esperança?
Como criar destes fragmentos de real alguma porção de felicidade, bem estar e beatitude? Sei, sabemos que não podemos muito mais do que fazemos, a vida deve ser levada pela razão, entretanto é necessário aceitar e perceber que temos tão pouco contra nossa parte obscura e irracional de nós.
As coisas te transfiguram as aparências, porque se deixa ser o que se é; um fluxo físico-químico louco e onírico. Por isso, escuta-me.Tudo vai ser melhor, não há outra opção. Aceitamos o trágico da vida, aquilo que não podemos controlar, e façamos sempre o melhor que podíamos. Porque assim, se o amor nos conduz, para quem queremos e amamos, melhor estamos. E para os outros, bebe, nosso ódio mais puro e violento. Nosso furor, implacável e sem pesar. Por que ódio se paga com ódio, afeto com afeto, indiferença com indiferença, olhares com olhares, forças com forças, segredos com segredos.
Escute-te, perceba-te, e não te cale mais. Fala. O que importa é o que tem dentro. Teu mundo. O resto é exterior, onde nunca seremos livres — quando mergulhados no mundo da necessidade e da aparência.

Cala-te, pois, e pensa, deitado em tua cama, em meus olhos, em meu coração desdichado. Valoriza hoje e agora. Esquece toda dor, e lembra-te, a vida é demasiado curta, não há nenhuma recompensa, para além deste dia, e se tudo é inútil, bueno, porque no fim das contas somos todos livres, livres de todas essas mentidas: da moral que mortifica, de todo cristianismo tolo. Estamos prontos para aceitar o que somos — entre nossos fluxos químicos e nossas tentativas de razão.

09 de outubro de 2008

Guilhermo de Montserrat

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.