Kobane, Rojava e a luta das mulheres curdas

Kobani é uma cidade independente curda, parte do Curdistão Sírio ou Curdistão do Oeste, também chamado de Rojava (oeste em curdo). Outras sete cidades também fazem parte de Rojava, localizada na fronteira entre Síria e Turquia. Kobani se encontra desde setembro sob forte ataque dos jihadistas do EI (Estado Islâmico), contra o qual guerrilheiros do YPG (Unidades de Defesa do Povo) vêm travando heróica resistência.

O YPG foi fundado em 2004 pelo PYD (Partido da União Democrática), ligado ao PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), e iniciou sua ação armada durante a guerra civil síria em 2011. No dia 19 de julho de 2012 conseguiu libertar Kobani das tropas de Assad e nos cinco dias seguintes libertou as demais cidades. O YPG é um exército guerrilheiro de maioria curda, mas tem em suas fileiras outras nacionalidades, e até combatentes cristãos. Se organiza de forma democrática, com eleição de seus líderes. Mas um dos maiores destaques é a brigada de mulheres do YPG, a YPJ (Unidade de Defesa das Mulheres), que conta com cerca de sete mil guerrilheiras. A cada dia, novas combatentes se graduam e ingressam nas unidades do exército guerrilheiro, organizam com outras mulheres comitês de defesa e têm sido essenciais na defesa de Kobani contra a tentativa de invasão do Estado Islâmico.

No dia 16 de setembro desse ano, o Estado Islâmico deu início a uma ofensiva contra a cidade de Kobani. Em quatro de outubro, após vários dias de intenso confronto, os jihadistas do EI já haviam tomado de assalto mais de 300 vilas curdas, causando uma onda de refugiados que já atinge a casa de 300 mil pessoas — a maioria delas assentadas no lado turco da fronteira.

Contudo, o que se esperava por muitos, que seria uma batalha rápida e a queda garantida de Kobani e de toda Rojava, vem se tornando um dos maiores reveses ao EI e seus jihadistas. O YPG vem defendendo palmo a palmo a cidade curda e diversos são os relatos de combatividade, liderança e heroísmo das combatentes do YPJ. Nem os bombardeios ianques causam tanto temor aos jihadistas do EI quanto as balas das combatentes curdas, já que eles acreditam que caem em desgraça e vão para o inferno se forem mortos por uma mulher.

Narin Afrin (Mayssa Abdo), 40 anos, que junto com Mahmud Barjodan comanda o YPG, é descrita como uma mulher culta, inteligente e serena segundo Mustafa Ebdi, ativista natural de Kobani que vive em Londres. Afrin “se importa com o estado mental de seus soldados e se interessa por suas vidas”, relatou à AFP. Narin Afrin, que adotou esse nome em homenagem a sua cidade natal, declarou recentemente em rede social: “Vamos lutar até a última bala para proteger os civis. É uma luta por todos nós, uma luta pela liberdade”.

Outro exemplo impressionante é o de Arin Mirkan (Dilar Gencxemis), uma heroína de guerra, 20 anos, mãe de duas crianças. No dia 5 de outubro, a comandante do YPJ se viu isolada e cercada por jihadistas do EI e, quando sua munição acabou, para não se entregar aos verdugos que certamente a torturariam até a morte, a guerrilheira lançou mão do último recurso: envolvendo seu corpo com explosivos, Arin se sacrificou, levando consigo ao menos 23 soldados inimigos.

PARA A MÍDIA E A OPINIÃO PÚBLICA
Nota lançada dia 8 de outubro pela Unidade de Defesa das Mulheres — YPJ

Comando de Efrin Canton

Kobani continua resistindo passados 24 dias, sem perder em nada sua tenacidade. Todo o mundo esperava pela queda de Kobani em dois ou três dias, mas ela se recusa à rendição. Enquanto seus defensores fazem história, ela vem se tornando exemplo de heroísmo para todo mundo. No momento em que mulheres são hostilizadas pela organização terrorista conhecida como ISIS (Estado Islâmico), as balas disparadas por nossas mulheres lhes dão medo de que eles encontrem a si mesmos no inferno, ao invés de no paraíso que lhes é prometido.

O que foi expresso hoje pela camarada Arin é o espírito do sacrifício pela liberdade. Para o mundo e principalmente para o ISIS saber: nós renovamos nosso compromisso de sermos dignas da essência do ato de nossa companheira e camarada Arin Mirkan. Nós nos vingaremos dessa organização em toda parte, desenvolvendo nosso sistema de defesa, educando nossas mulheres. A organização ISIS não pode ser definida por quaisquer termos e está longe da humanidade.

Vamos vingar as mulheres que foram vendidas como escravas nos mercados da organização ISIS. A nossa vingança não será apenas balas, mas pelos rostos sorridentes de nossas mulheres, nós juramos que faremos um inferno na terra para o ISIS. Assim como nós saudamos a resistência de Kobani, esta é a nossa promessa ao nosso povo e à nossa companheira e camarada Arin, e a cada um de nossos camaradas que foram martirizados heroicamente em Kobani.

Exortamos a todas as mulheres e as convidamos a participar conscientemente dessa luta nas fileiras das nossas Unidades de Defesa da Mulher (YPJ).

Do lado da Turquia

O numero crescente de exilados e o descontentamento do povo curdo do lado turco vem causando problemas cada vez maiores para o Estado reacionário da Turquia. Depois de passados dois anos de acordo de paz com o PKK, os ânimos se acirram. Vários protestos ocorrem na fronteira, em diversas cidades e vilas, inclusive na capital do país. Elevam-se o número de mortos nos confrontos com as forças repressivas do Estado.

Suruc é cidade na Turquia mais próxima de Kobani e, junto com as vilas a sua volta, abriga a maior parte dos refugiados. Com uma população de 60 mil pessoas — maioria curda –, recebeu não só fraternalmente seus vizinhos como inúmeras vezes seus habitantes entraram em confronto com oficiais turcos quando esses tentaram fechar a fronteira e impedir que os habitantes de Kobani buscassem abrigo. Desde a cidade e vilas é possível ver a fumaça que se levanta dos combates travados no enclave curdo. Em áreas mais próximas as pessoas conseguem fotografar com seus celulares a movimentação dos combatentes do YPG e os jihadistas do EI.

Em Diyarbakır, cidade a sudoeste da Turquia, 10 pessoas morreram em meio aos protestos. Ainda foi registrado também confronto violento entre curdos turcos e apoiadores do EI. Em todo país, o número de mortos passa de 30, incluindo seis policiais, centenas de pessoas feridas e mais de mil presos. Ankara e Istambul também tiveram fortes protestos contra o governo e em favor dos curdos em Kobani, ônibus foram incendiados e lojas de grifes e fastfood foram depredadas.

Fonte: A Nova Democracia