Triângulo

por Augusto Menna Barreto

Marco colheu duas partes. Duas pétalas rubras, cansadas. Miguel escolheu entre duas rosas: uma cinza ou outra vermelha! Outros, alguns, já se apresentam em prontidão “as duas torres gêmeas”, a uma criatura física, terrena, estética e filosófica. Sempre tão ovelhas. Tão resignadas, outros — não tiveram ensejo e fundiram-se cruelmente ou piedosamente em uma enorme bola de fogo chispante. Doutros apenas deixavam-se cair em uma grande cratera filosófica, estética e existencial. Era tempo de falta de tempo: desejo e morte.

O amor abandonara-se; quase esclerosado, esquecido em algum canto escuro da vida: a sua dádiva: uma maçã, estava podre esmagada, cheia de vermes. Contudo, ele o amor, ainda tinha algum ímpeto. Eram indiferentes as escolhas de Miguel ou de Marco. Ou de Luca. Esclerosou-se, naquele tempo, todo o amor, os homens tornaram-se larvas entupidos de rivotril, prozac e cocaína. Dois pássaros pretos esperavam-se/espreitavam-se nos/entre homens, nuvens cheias de cinzas. Desejo e morte, grandes espasmos dos vencedores — não mais haveria “sim” e “não”? Era apenas uma maçã gosmenta e cinza, e aqueles pássaros que sobrepujavam a feitiça e cinzenta carcaça da humanidade. Não havia, mais credo nem físico, nem vozes. O desejo gritava louco ao amor: “tolo”, e o tolo gritava ao desejo: “fútil”. Contrariando-se, fundiam-se, por vezes. Bobos. A morte só recolhia, junto aos pássaros pretos, os restos, incrivelmente insignificantes e passageiros. Dos homens. Do Mundo. Ante de Marcos ou Miguel. Ou Luca. A morte podia sorrir, pois o tempo, unicórnio de três patas, surpreendia-lhes, a todos. Além deles. Com vida, morte, lágrimas e vozes, vozes, e vozes… A morte recolhia com seus pássaros negros os rostos incrivelmente passageiros insignificantes, e surpreendentemente, o pesar de tanta morte de vivos-mortos. Tantos os vivos-mortos aos meios dos mortos. Miguel e Marco sorriam-se, da morte, de si, e do unicórnio bobo de três patas — tempo cheio de vida-morte e secessão. Era sempre ele, o tempo, que abatia. Supremo. Onisciente. Ao subjugar, sub-juntar amor, feito de carniça semi-viva e muitas flores, vermelhas, rubras e cinzas. Luca, infantil, perdia-se em vã esperança glorificante. Ignorava, toscamente o tempo, que já lhe corroía as carnes. Mas agora, ali, Marco e Miguel, já não eram ovelhas tão vivas-mortas. Ousavam? Caiam prantos dentro de seus respectivos olhos, aquele brilho tonto? Amor ilusório. Lindo e poético, drogado, cheio de sobras e banhas. Marco e Miguel perdiam-se em divagações oníricas e utópicas, morriam-lhes das carnes para acreditar além das caixinhas. Aquele amor fora de caixinhas-classificações. Amor tonto e vivo. sem nome. Brilhantemente vivo. Que nem pareceria tão esquecido. O amor que talvez faria brotar daquelas lágrimas pretas de carvão ativado. O desejo, contudo, não os ignorava, ocupava-se de suas poses, de cigarro na boca, dava-lhes seus querer-lhes atarantados, e os acumulados de suas ganas, de suas mesquinharias e de seus luxos. Tolices. O Desejo era cínico, cansado e bêbado. Ao seu amor, o desejo ofereceu-lhes ofídio Luca. Pois bem, amor e desejo, viviciados, andavam juntos, ignoravam-se, arrancavam-se as carnes até os ossos, alheios entrelaçados a acariciar os seus rostos virados ao nada. Num êxtase longo e ignorado; irado, mas observado sempre pela magnânima morte. Observadora atenta e paciente de tanto e turvo acaso. Este, o acaso, fitava com ojeriza, júbilo e expectativas, e dominava a vida de Miguel e Marco (e talvez até de Luca — que parecia não ser capaz de sentir muito), já, pois que amor e desejo eram/são ilusões banais que se auto-destruiriam/êm inexoravelmente entrelaçadas.

Ilusões, minúsculas, banais, finitas em campos verdes ou nos mares fétidos de lamas — da vida — da merda — do nada, era apenas aquela fumaça cinza, e o unicórnio de três pés a correr-lhes as dores, as vozes, as flores, os tempos, os restos, as fezes, as chances — com ou sem dor, com ou sem culpa, desejo e amor enfiam morriam. Caiam-lhe as carnes decadentes. Todas as pétalas ao chão. A morte, triunfante e afável, democrática, cheia de lábia escondia-lhes a verdade mais dura: seu triunfo inevitável e gentil. O resto; desejo, amor, glória e tempo seriam apenas ilusões tontas. Belas, mas insignificantes diante do absurdo nada. Da absurdidade lívida da morte. do Pó. O unicórnio-tempo em que todos, de forma absurda, se ignoravam, principalmente Miguel — que gostava do rubro das gotinhas de sangue — existia apenas em representação. E era absurdo. O mundo, era-lhes o que era representado, para Marco, Luca, ou Miguel. Um triângulo monstruoso e absurdo. Mais, decidiram um dia. Triângulo ou não, terminaria o amor oníricamente prepotente. Tresloucavam-se três, pelos pelos e desejos, bêbados, cínicos e loucos. O desejo — fumante inveterado, a aspirar-lhes por pétalas rubras de tolo amor. Achavam triangulares que eram e podiam. Ser, e ter a vontade. Especialmente Luca, que perdia-se na vaidade, na ambição, e na glória. Mas. Porém. Esse triângulo não era nada. A morte ria-se toda dele, cansada, em sua eternidade plácida, fatigada e indiferente. O unicórnio continuava a correr inexistente — apenas representado. Aquela vontade de amor-desejo-glória do ângulo trilaterado fazia a plácida morte sorrir-se toda. A ovelhas faziam-na rir sempre. O fumante desejo apenas suava gosmento e o amor a despetalar-se histérico, sem querer perdia os cabelos/pétalas ou as palavras. Essa vontade de arrebatamento das ovelhinhas tolas fazia a indiferente a morte aborrecer-se um pouco de aguardar, às vezes, via logo três belos sarcófagos sujos coberto de rosas rubras, em um deserto sem representações e mágoas. Mas cheio de misteriosas sombras e farta e inesgotável poeira absurda. As insignificâncias e infantis amorosas de Marco, as ambições desejantes de Miguel e a futilidade vã de Luca — tão canalha, tão sorridente e agradável — pois sim os canalhas são sempre agradáveis. Seus brancos sêmens já não eram nada, nada criavam, nem sonhavam, nem em poesia nem mesmo magoa ou qualquer dor. Eram agora sêmen absurdo e idiota do nada. O vazio que invadia lento. O amor retirava-se sempre como aquela rosa antes rubra, já despedaçada. Ninguém mais ria, nem a morte, nem o desejo, muito menos o amor que até já perdera os dentes. Não havia mais nenhuma glória. O querer-viver era apenas um continuum longo e tolo. Marco solitário, em sua consciência mortuária, já se avistava com os ecos da morte. Miguel, bem mais ovelha e pueril, abraçava-se inconscientemente e tresloucadamente aos cinzas e ambicionados (desejosos e materiais — que bebiam, fumavam e se picavam sempre.) Miguel, coitado, fora apenas atropelado, em sua tola vaidade glorificada, por um — clariciano e absurdo — atropelamento insignificante: um fusca azul. O célere tempo, e para plácida caveira morte cuspiam-lhes agora os vícios, os egoísmos, os egotismos, que sarcásticos destruíam todas as carnes desse triângulo- que já, em vida, era tão fétido. Isso tudo, em absoluto, não importava. Desejo material, amor representativo, a glória vã, tornar-se-iam inexoravelmente apenas pó. Inútil. Cruel e tolo. Era isso o triângulo: o pó. O pó não remediaria o nada, apenas sustentaria apara o além, a miséria e a loucura vã de doutos vivos-em-vida. A terra, afinal povoava-se de vivos mortos. Eram poucos aqueles mortos-vivos para que a morte sorria, para inchar-lhes ainda em vida as rosas fulgurantes. Para estes poucos coruscantes, mesmo que com pouco tempo, seus odores permaneceriam para o além da aridez e para resgatar do pó e da não-vida. Algumas absurdas e pobres não-ovelhas. Os sujeitos, ovelhas ou não ovelhas, todavia, não eram a origem, o ensejo, a causa era apenas aquele pó impossível, do mesmo tipo que soprava em desertos e em almas. O amor, o desejo, e a insignificante verruga glória submetiam-se sempre, assim como todos os tolos vivos-mortos, Miguel, Marco e Luca o fariam, faziam, aos caprichos da morte e à corrida selvagem do tempo.