Choque de Cultura é Brasil!

Achou que eu não falaria sobre o Choque de Cultura? Achou errado, otário.

Desde que me conheço como gente tenho uma grande paixão pelo humor. A TV foi, sem sombra de dúvida, o local que tive mais contato e que alimentou ainda mais esse sentimento. Minha principal referência é o grupo de humor do Roberto Bolaños (Chaves, Chapolin, Chespirito…). Mas também bebi muito da fonte do humor nacional com a Escolinha do Professor Raimundo, Praça é Nossa, Zorra Total e Hermes e Renato, por exemplo. Lembro da reação ao escutar pela primeira vez “O Peru da Festa”, CD de piadas do Costinha. Devorei os cinco volumes no mesmo dia.

O humor brasileiro é caracterizado por bordões, personagens caricatos e piadas de bar. Embora sempre tivemos acompanhando o Estados Unidos com o humor de vírgula, aquele garantido apenas no texto e no timing, nós produzíamos coisas muito nossas e com uma identidade muito forte. Conseguíamos unir o que havia de melhor no mundo e nesse mix criar Chico Anysio, Ronald Golias, Nair Bello e tantos outros humoristas que se tornaram lendas.

Mas a TV Brasileira, nessas últimas duas décadas, tomou uma enxurrada de tendências que se aproximavam muito mais do humor dos Estados Unidos. A nossa saturação na falta de inovação em quadros quase seculares foi mais um ingrediente para criação desse ambiente fértil em programas de humor restritos a Stand Up e Talk Show. Chegou um momento que nossa televisão tentou bancar o Saturday Night Live versão Tupiniquim, o expoente máximo do formato norte americano de fazer humor. Mas como isso aqui é Brasil, citando Vin Diesel, felizmente não deu certo e o programa ficou pouco tempo no ar.

Neste sentido você pode achar que sou um conservador no humor como o Carlos Alberto de Nóbrega que ri das mesmas piadas, no mesmo banco e na mesma praça há cinquenta anos. Não, pelo contrário! Esses programas, para mim, também se esgotaram e é necessário repensar essa forma Maurício Sherman de produção. Por isso a necessidade de descentralizar a produção do humor da TV, principalmente da Globo, e construir na marra e com talento alternativas que tenham técnica sem perder a brasilidade como alicerce e é justamente aí que o Choque de Cultura, para mim, cumpre o seu papel.

A TV Quase, Daniel Furlan, Caito Mainer, Leandro Ramos, Raul Chequer e toda a equipe técnica produz — e não é de hoje — um humor que vai até do minimalista ao performático com grande maestria. Remanescente da última leva da MTV, Furlan adquiriu a experiência certa na hora certa em fazer humor numa TV no qual tudo era permitido já que a emissora estava falindo. Sem recursos então, me parece que essa equipe conseguiu fazer humor com o que tinha e retirar o máximo possível das suas referências e criatividade.

É impossível não rir com personagens como Rogerinho do Ingá e Julinho da Van assim como não perceber o timing certeiro do Renan e Maurílio. Achou que não teria bordão? Achou errado, otário! É um tapa na cara de muitos críticos realizar esse tipo de humor original, jovem e sem perder características tão brasileiras na forma de fazer humor. Humor americano como inovação estava me cansando e receber Choque de Cultura, Falha de Cobertura e derivados da TV Quase é um alento aos Adnet e Gentili da vida.

Like what you read? Give Augusto Perillo a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.