Problematizações sobre A força do Querer de Glória Perez

Não é natural a continuidade entre a pessoa cis gênero e a heterossexualidade. Ao incluir em sua trama um homem trans gay, a novela de Glória Perez A Força do Querer esteve presente em 2017 para nos ajudar a entender que tal linha de continuidade está apenas no imaginário coletivo. Mas essa linha de continuidade é real?
Existem pessoas cis gênero héteros? Sim.
Existem pessoas cis gênero gays? Sim.
E por que também não podem existir pessoas trans gays?
Pois assim como temos pessoas CIS gênero assexuais, pan, bi, héteros, gays e lésbicas, da mesma forma existem pessoas TRANS assexuais, pan, bi, héteros, gays e lésbicas.
Mas por quê?
Porque identidade gênero cis, trans (ou trans não binária) e orientação sexual NÃO são a mesma coisa.
Contudo, a mesma novela que trata sobre identidade de gênero trans e travestilidade é a mesma novela na qual os mais altos cargos são exercidos por homens, na qual os homens são quem tem mais poder e dinheiro (o que não me espanta em nada, mas me deixa triste) representando e reproduzindo a mesma desigualdade de gênero da vida real.
Por falar em representatividade (ou não representatividade (?)), por que a interpretação da personagem Ivan por uma atriz cis gênero é em si um problema?

Não estou dizendo que seja proibido atores cis gênero interpretarem trans gênero. ENTRETANTO, se a questão é abrir caminho e tocar na questão da visibilidade dessa parcela da população (haja vista de que o Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo), gostaria de saber até onde é ou não coerente uma pessoa trans gênero interpretar uma pessoa cis gênero, uma pessoa branca interpretar uma pessoa de alguma etnia indígena ou uma pessoa negra ou o inverso. Assim sendo, deixo tal questão em aberto (porque a questão aqui é antes de tudo, identitária e requer uma análise mais acurada e eu não pretendo expandir isso aqui, agora).
Existem ainda outros preconceitos e/ou mitos/tabus sobre as questões de gêneros no plural que ao invés de serem quebrados são ainda reforçados, não só como exemplo o machismo dentro da trama, como também a rivalidade feminina estimulada como se fosse algo ‘’natural’’. Como se não fosse normal uma mulher seja cis ou trans gênero não ser amiga de uma outra mulher cis ou trans. Apesar de tudo isso, numa novela com tão grande impacto popular, mesmo com um passo tão pequeno em termos de representatividade, a questão da identidade de gênero trans ao menos ganhou um passo gigantesco em termos de V I S I B I L I D A D E e a tal linha de continuidade entre identidade de gênero cis E a heterossexualidade vai aos poucos deixando de estabelecer-se como normAtividade.

)
August/Monique Morgade

Written by

🌈 Blogueire, artiste, compositore e graduade em Letras pela UFRR. Expressa sua arte em: soundcloud.com/monique-morgada e lentesmonofocais.blogspot.com.br 🌈

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade