Lucas Victor Aureliano
Nov 6 · 5 min read

A jornada de Carla Cavalari junto a educação inclusiva.

Carla Cavalari discursando na câmara dos vereadores.

“A minha filha foi taxada de preguiçosa o tempo todo”. Carla Cavalari, Representante do Conselho de Pais e Mães da 9° CRE, se indigna ao recordar de como sua filha deficiente, Giulia Cavalari, era tratada em um colégio privado em Campo Grande, Rio de Janeiro. A mãe ainda nos diz que, mesmo já tendo entregue os laudos médicos sobre as deficiências de Giulia, era convocada pelo centro educacional particular a todo instante, porque sua filha era taxada de ‘preguiçosa’.

Carla de Andrade Ribeiro Cavalari, cresceu brincando de queimada, pique bandeira e outros jogos comuns em pequenos apartamentos na Rua da Chita, em Bangu no Rio de Janeiro. A mulher que sonhava em ser jornalista, aos 34 anos viu sua vida virar de cabeça para baixo com o nascimento de sua primogênita, uma criança especial. Carla conta que não fazia ideia da condição da filha: “Até então, eu nem sabia que ela era especial por que os médicos não me disseram”. Foi logo após completar um ano que as dificuldades apareceram, e então iniciou-se os estudos da mãe sobre o assunto.

A minha primeira preocupação era do meu marido entender o que eu estava entendendo naquela situação” conta Carla sobre o cônjuge Ronaldo Cavalari, “Ele conversou com um profissional, e viu que a filha dele realmente era uma criança especial, ele começou a aceitar mas logo que aceitou, ele veio a óbito”.

Cavalari nos relata um episódio de sua saga com Giulia: “Até então o neurologista que cuidava dela falou para eu não ter muita esperança e nessa luta de fazer tratamento aqui, fazer tratamento ali, ela começou a progredir, ela começou a andar, começou a falar, a sair da fralda sozinha, então ali foi um presente de Deus, eu via que ela não dependia totalmente de mim.

Durante os inúmeros tratamentos que Carla levava sua filha, ela conhecia outras mães que tinham dificuldades, então a representante começou a ajudar essas mães por iniciativa própria, resolvendo os empasses de uma a uma. “Eu mesma procurava resolver os problemas de cada uma delas, eu não dizia onde elas tinham que ir, eu mesma fazia esse papel, botava no meu carro “vamos ali, vamos aqui” ou então se não fosse no carro, fosse na internet, eu fazia tudo e conseguia ajudar essas mães”.

Em 2009, Carla decide matricular suas filhas em um colégio próximo a sua casa, para que ficasse mais viável, mas neste colégio suas filhas enfrentaram diversos problemas, inclusive o preconceito. Então ela conhece Alexsandro Amorim, diretor da escola CIEP Darcy Ribeiro, este então convida as filhas de Carla a estudarem no colégio. “Ele falou: “Pode tirar do particular que eu a recebo e vou dar toda a estrutura que vocês precisam” e realmente ali foi aonde tudo caminhou”.

Amorim observou as ações e indagações de Carla de perto e com um gesto de carinho a indica para o cargo de Representante de Pais e Mães. De acordo com Carla as turmas de classe especial estavam para ter um fim, então criou-se o grupo de Pais e Mães para comparecerem a uma audiência pública na câmara dos vereadores, e no mesmo local a Secretária de Educação na época, Cláudia Costin enxerga o motivo das mães e retoma a decisão, abraçando a causa da educação inclusiva.

“Aquilo era um suicídio, era ruim demais, era ferir cada criança que precisava de ajuda a cada dia e ela enxergou, ela voltou atrás e abraçou.”

Após as eleições municipais de outubro de 2009, foi criado o Grupo de Trabalho de Pais Representantes da Educação Especial, dando a oportunidade para que os responsáveis de crianças especiais pudessem trabalhar em conjunto com o município para melhorias na educação especial. Um grupo de responsáveis de cada CRE iniciou os trabalhos com Claudia Costin e presenciou a troca das Secretárias de Educação, de Costin, Helena Bomany à Talma Suane. Carla relata que todas procuravam conhecer o trabalho do grupo e ajudar, mas foi Talma Suane que realmente se entregou e deu total apoio aos responsáveis. “Nós somos 22 representantes entre mães e pais e ali ela começou a escutar o desejo, a vontade de ajudar o município a trabalhar com nossos filhos, então foi onde a gente se tornou realmente conselho”.

No dia 25 de junho de 2018, institui-se o Conselho de Pais da Educação Especial eleito por cada comunidade escolar das respectivas 11 CREs. Os responsáveis podem levar suas propostas para melhoria da educação especial, e agora trabalham em prol da educação em um todo, envolvendo até o calendário escolar. Carla conta como é gratificante ajudar. “Tem dias que não tenho tempo nem para mim, mas é gratificante demais trabalhar todos os dias, se doar sem olhar a quem, saber que a gente somou com aquela família, que a gente produziu algo de muito bom na família que estava perdida e não sabia como começar, isso é gratificante”.

O Conselho vem coletando conquistas como a sala de recursos para crianças especiais, as salas com baixa visão, além dos estagiários e dos agentes de apoio. Este último foi uma conquista dos representantes que conversaram e apresentaram a proposta para o vereador Paulo Messina, com a premissa de ser um ajudante do professor. Carla expressa sua admiração pelo cargo e acredita que este deveria ser valorizado todos os dias: “Ele não veio somente para ajudar a criança especial incluída, ele veio para ajudar também o professor, porque o professor ganha quando não leciona somente a um aluno, ele tem ganhos com o agente de apoio”.

Carla exalta a educação pública, diz que muito pais optam pelo sistema público de ensino e um motivo é o trabalho dos órgãos que fomentam a desconstrução do preconceito. Cavalari diz que sua filha sofreu sim preconceito em um colégio privado e que ao ingressar na escola pública sua inclusão foi mais natural e trabalhada com todos os alunos. “A minha filha salivava muito, mesmo com todo o tratamento, e na escola onde ela entrou ninguém disse que ela era babona, as crianças pegavam a toalha, limpavam a Giulia e diziam “vem, Giulia, vamos brincar!”.

Carla explica que vê seu trabalho da mais bela forma: “Nós trabalhamos por puro amor, nós damos a nossa vida por puro amor e o amor de todos, não é um amor visionado naquele nosso filho, a gente é mãe de todos, a gente é pai de todos”. Carla que já foi candidata ao conselho tutelar em 2016, expressa que pretende cursar faculdade de direito, ela diz que agora ela luta por eles de uma forma carinhosa, mas que quer perseverar e lutar com base nas leis.

Sobre as futuras eleições Carla demonstra esperança e diz acreditar que se o próximo prefeito olhar para as crianças com os mesmos olhos dos profissionais, a educação inclusiva conquista muito mais, “Acredito que o próximo prefeito olhe para essas crianças com muito amor, muito carinho e dedicação, eu acho que a gente estoura, e a gente sai na frente de verdade, de tudo e de todos, a gente já avançou até aqui, a gente já conquistou o mundo”.

Carla acredita que o Estado anda atrás do Município com relação aos avanços com a educação inclusiva, a mãe, representante do conselho e aspirante a juíza pede: “O Município aprendeu e faz o seu dever mesmo com dificuldade, e hoje eu acredito e peço que o Estado olhe para essas crianças que conseguem fazer uma faculdade, com o mesmo olhar que o Município tem”.

Cecília de Andrade, cecíliadeandrade@icloud.com

Lucas Victor Aureliano, lucasvictor.jorn@gmail.com

Lucas Victor Aureliano

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