DOMANI

O velho Carlo se acomodou no sofá de vime, do lado de fora do restaurante. O móvel era posicionado em meio a arranjos de plantas chiques, colocado estrategicamente para que os frequentadores se sentassem em dias que precisassem esperar para entrar. Ou seja, todo dia aquele sofá era usado. Mas não àquela hora. Carlo olhou o relógio. Eram 3h12 da manhã.

O Domani ia até altas horas, e quase sempre lotado até pelo menos meia-noite. Em finais de semana, era garantido que o público chegaria tarde, com fome, louco pelas massas, após uma noite ocupada fazendo sabe-se lá o quê. Ali, na Bela Cintra, era certeza que o restaurante precisava só abrir as portas para receber dezenas de pessoas famintas todas as noites.

Carlo respirou fundo e acendeu um cigarro. Atrás dele, brilhava um painel de neon com o nome do restaurante: Domani. “Do-ma-ni, do-ma-ni”, repetia Carlo em sua voz mental, como se separar as sílabas com calma pudesse livrá-lo do mal estar que vinha sentindo desde o começo da noite. Carlo, com seus 60 e poucos anos, normalmente se sentia confortável com o terno e com os sapatos de bico que vestia quase sempre para trabalhar no Domani, mesmo nas noites de calor que vinham se tornando cada vez mais comuns em São Paulo. Mas naquela noite não. Naquela noite, havia algo que o incomodava, que o sufocava, e que ele esperava que fosse o terno pesado — mas no fundo, ele sabia: a sensação não era originada pelas roupas.

O velho respirou fundo e chupou o cigarro, engolindo a fumaça e tragando. Até o seu bom cigarro estava amargo naquela madrugada. Carlo, cazzo, onde é que você foi se meter?, e tragava mais um pouco. Não devia fumar naquela idade, sabia, mas qual o problema de se fazer isso aos 60 e poucos, se já fazia a vida inteira? Quase não tinha amigos mais velhos que o seu hábito de fumar, e pensar nisso era engraçado, o que distraía sua mente um pouquinho.

Carlo estava cansado. E não apenas porque tinha acabado de deixar o seu turno no Domani, que ele fazia por diversão, porque não precisava do dinheiro. Era mais para poder praticar o seu violão. Juntos, ele, o bom Enzo no violino e Pepe no acordeon já haviam tocado para mais casais do que ele podia se lembrar. Não gostava de tocar com Pepe, porém. Achava-o desafinado e fora do tempo. Mas os clientes não percebiam e era bom para os negócios, então, era o jeito. Carlo precisava praticar o seu violão. Era um dos traços que ainda mantinham alguma chama de humanidade acesa dentro dele, pensava, e agora tossia, porque a fumaça havia vindo mais quente do que esperava. O cigarro já estava no final? Blasfemou em protesto em sua mente.

O trio ia de mesa em mesa e nenhuma música era difícil demais para eles. Tocavam tudo do Peppino di Capri e Jimmy Fontana, os favoritos dos clientes mais tradicionais. Mas se alguém os desafiava, improvisavam também Gigliola Cinquetti e Ornella Vanoni. A maioria dos frequentadores era gente nova e imbecil e só queria ouvir Laura Pausini. A voz de Carlo era incrivelmente bonita, e ele sabia e tinha orgulho disso. Para ele, sua voz era tão boa que ofuscava o acordeon medíocre de Pepe. Sua cantoria não havia sido prejudicada em nada pelo cigarro ao longo dos anos. Ainda soava como o moleque que fazia serenatas para as namoradas nas janelas dos prédios baixos da Paes de Barros, na Mooca, e era chamado de vagabundo pelos quase sogros.

Domani, domani, domani…queria adiar sua tarefa para amanhã. Mas, assim que riu lembrando dos bons tempos de serenata, sentiu o toque da mão de Gigi Sanfelice em seu ombro. A porra do Gigi Sanfelice. Carlo, alto e magro, olhou para aquele homem baixo, calvo e gordo e sentiu nojo. Mas sorriu. Ele era o chefe, afinal de contas.

- Carlo…é a hora.

Tomar ordens de um homem que era o quê, 15, 20 anos mais novo que ele?, era revoltante, Carlo sabia. Ora, Carlo o havia pegado no colo, havia até cantado para ele dormir num passado cada vez mais distante. Era um grande amigo do pai de Gigi, o falecido Paolo Sanfelice, esse sim um chefe de respeito. De que adiantara tudo aquilo? Carlo seguira ordens de Don Paolo no passado e ali estava, do alto de seus 60 e tantos anos, ainda tomando ordens de um Sanfelice, dessa vez do herdeiro.

Carlo sorriu constrangido, olhou o relógio e depois voltou a fitar o gordo.

- Gigi…

- Eu sei, Carlo. Você não quer. Mas…é o Delfini.

- Justamente por ser o Delfini, Gigi.

Gigi tirou a mão do ombro de Carlo e se virou para a frente. Pegou um lenço de seu bolso e limpou a testa suada.

- Eu sei, Carlo. Você está aposentado. Nós…nós falamos sobre isso, hã? Mas é uma última vez, antes de você se aposentar. Precisa ser você. Você recebeu as passagens, não recebeu?

- Recebi, Gigi — disse o velho Carlo, resignado.

O gordo olhou para ele confiante e forçou uma risada.

- Vá lá. Não me decepcione.

- Mas…e o Domani? E o trio?

- Você não ensinou meu bambino à toa, hã? — sorriu novamente Gigi.

O velho Carlo se levantou e saiu andando, sem olhar para Gigi. Era uma última vez antes da aposentadoria, tudo bem. Mas ele não queria ter de sumir, não agora. As coisas estavam tão boas. Não sabia quando veria Gigi de novo e havia o risco de não mais vê-lo, como sempre há quando é preciso fazer algo do tipo. Mas ele sabia, sentiria mais falta do acordeon do Pepe do que de Gigi, esse filho da puta que o mandava para uma jornada que ele não queria naquela noite. E o bambino dele, coitado, jamais daria aos casais do Domani o que eles precisavam: uma boa voz cantando palavras que evocavam uma terra distante que, ele sabia, já nem existia mais. Talvez o que fizesse a diferença na cantoria de Carlo era justamente a ciência disso. Bem, fazer o quê.

Passou pelo valet, deu um tapinha nas costas dele. Seu jeito de se despedir. O homem riu, sem nem saber que Carlo estava indo para não voltar até vai saber quando. O velho entrou em seu carro preto de vidros fumê e partiu. Era 3h33, segundo o relógio do painel. O horário esquisito ativou alguma superstição em Carlo, que preferiu não pensar naquilo.

Sem nenhum trânsito, seria fácil chegar ao seu destino. Pegou a Rebouças, depois a Doutor Arnaldo e mesmo esta estava vazia, tranquila, quase como se empurrando o carro de Carlo, que no fundo não queria ir a parte alguma.

O carro entrou na Oscar Freire e o motorista lentamente freou, até chegar bem perto da Trattoria Delfini. Com o veículo parado, Carlo acendeu mais um cigarro e esperou pacientemente o último grupo de frequentadores, que se despediam uns dos outros na porta, ir embora. Já eram quase 4h, Dio cane. O bom era que, além dos clientes estarem deixando o lugar, dois ou três funcionários aproveitavam a onda e também estavam indo embora. Perfeito, pensou Carlo, o mais perfeito possível para uma situação de merda na qual ele não queria estar.

Desceu então do carro lentamente, ainda com o cigarro em mãos. Tocou a própria cintura e tateou seu celular e o cinto de couro espetacular que vestia. As luzes da Trattoria eram praticamente as únicas ainda acesas na Oscar Freire àquela hora. Na rua, quase nenhum transeunte, exceto o tradicional mendigo que ficava à frente dos restaurantes dali.

Carlo se aproximou do local, espiou e viu o Delfini, quase tão velho quanto o próprio Carlo, de costas numa das mesas, com um lápis na mão. Dentro da Trattoria, havia mais uma mocinha, a recepcionista, ou hostess, como a molecada de hoje em dia falava. A garota, que não tinha mais que 23 anos, estava ali, mexendo em seu celular, animada, esperando ser dispensada pelo patrão.

- Ciao — anunciou Carlo, entrando no local.

- Senhor — a recepcionista se assustou — Estamos fechando.

Delfini se virou, viu Carlo e sorriu de forma irônica.

- Psh, Mariana, pode deixar. Ele não veio aqui pra comer, né, Carlo.

Carlo sorriu, sem vontade.

- Você me conhece, Fausto.

A jovem voltou a se distrair com seu celular.

- Mais do que te conhecer, eu conheço o Gigi. Conheço como pensam os Sanfelice. Sei que vocês iam entender que o que é meu, é meu de direito. Você bebe o quê? Mariana, sirva nosso convidado.

- Eu não vim beber nada, Fausto.

Carlo mal terminou a frase, passou a mão na cintura de novo. Dessa vez, sacou a pistola. Um tiro na cabeça do Delfini, que nem pôde se mexer. Sujou de sangue os papéis da contabilidade que o dono da Trattoria analisava com cautela, momentos antes.

A recepcionista, que assistiu à cena toda chocada, ficou boquiaberta. Carlo começou a se afastar, mas antes abaixou a arma e olhou para ela, parando em sua frente.

- Mariana, é? Psh, Mariana. Você não viu nada.

Carlo se apressou em sair dali. Passou pelo mendigo e jogou uma moeda.

Entrou em seu carro, deu a partida e acelerou. Desandou a chorar. Maldito Gigi. Amaldiçoado seja Gigi, mil vezes.

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