Eu Não Sou Geni

por Aurora Jamelo

Pode parecer devaneio dizer uma coisa dessas nessa altura dos acontecimentos. Esse curiosamente é um inesperado primeiro texto de 2019, que já aconteceu todo em apenas treze dias.

A vida me deu um caminho que eu nunca nem cogitei, ser atriz. Na verdade, ela veio aqui do meu ladinho, muito da debochada, e perguntou:

— Tu vai deixar isso assim, menina?
— Vou não, babe.

Comecei a estudar Teatro porque não estava vendo meu corpo sendo propriamente representado, em lugar nenhum, nem TV ou Teatro, muito menos Cinema. Até porque o único lugar mais verídico é invisibilizado.

A música Geni e o Zepelim, popularmente conhecida a partir de Chico Buarque, conta um caso na vida de Geni. Geni é uma Travesti, e reflete a história de tantas outras “Genis”, que por si, lutam todos os dias para se manterem vivas.

LUTAR PARA SE MANTER VIVA!

Geni, apesar de doce e bondosa moça, vive carregando as pedras que lhe deram.

Eu, Aurora da Silva Lopes, já fui apedrejada na rua. Não, não falo de poética ou metáfora, eram pedras mesmo. Não pude reagir, correr, gritar. Continuei andando até parar de sentir as pedras.

— Mas Aurora, se você já foi até apedrejada, por que você não é Geni?

Janeiro de Grandes Espetáculos de Censura

Começamos assim. A retirada por motivos de censura à um espetáculo de protagonismo Travesti, O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, causou burburinho na classe artística pernambucana.

Boicota ou não? Por que? Como?

Me vi nesse movimento mostrando, junta a amigos, amigas e aliades, como fazer um boicote bem feito.

Dia 10 de Janeiro de 2019, ás 17:30h se deu início a programação de um movimento de representatividade e grito de vozes femininas, trans, travestis e negras.

Me senti viva e logo invisibilizada.

Na manhã seguinte, a divulgação de um espetáculo intitulado Geni, da Bernache Cia de Teatro, dentro da programação do festival Janeiro de Grandes Espetáculos.

Não pode travesti, mas pode TransFake?

TRANSFAKE: Interpretação em cena (TV, Teatro e Cinema) de um corpo/vivência Trans e Travesti realizada por um Ator ou Atriz Cisgênero.

Conhecia o espetáculo por alto ou por nome, melhor dizendo, já teria acontecido outras vezes. Não me posicionei inicialmente por não conhecer a companhia, os atores e atrizes em cena e muito menos o roteiro de adaptação.

O que esperar de uma adaptação para o teatro? Eu mesma já pensei em roteirizar a música para cena.

Pois bem, aconteceu, dia 12 de Janeiro às 20:30h. E é por isso que eu não sou Geni.

Geni é interpretada por um ator Cisgênero, e caminha pelos acontecimentos cantados por Chico Buarque. Poeticidade, iluminação cênica e dramática e um coro jogando pedra na maldita.

“Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco”

Geni é abusada e estuprada por aquele de desceu do Zepelim. Segundo a Bernache, ela gostou, era isso que ela queria. Não, ela não se sentiu aliviada por isso ter acabado, ela tava ótima. Na verdade, ela até se deliciou com tudo isso.

“E tentou até sorrir”

Tentar sorrir? Eu tento sorrir quando sou abusada na rua, tento sorrir pra fingir que nada aconteceu, pra que ninguém me pergunte o que aconteceu. Mas Geni não.

Ao prefeito, Geni reivindica seus direitos. À plateia, Geni pergunta:

“O que vocês tem a reivindicar?”

Eu reivindico minha vida, mal representada, estereotipada e interpretada por uma pessoa que não sabe o que sinto.

“Eu sou Negro! Eu sou Gay! Sophia é Trans!”

Sim, Sophia é Trans, mas ela não precisa que ninguém diga isso por ela.

Sophia William foi um dos nomes destaques na construção do pensar das ações de boicote referentes a censura do festival. Após se posicionar abertamente colocando sua visão como atriz e pessoa trans, ela foi procurada pelos grupos adeptos ao boicote para pensar no verdadeiro propósito da ação.

Ela foi procurada porque ninguém sabe o que fazer depois. Porque ninguém conhece as necessidades dos corpos Trans e Travestis, artísticos ou não. Sabe porque não conhecem? Porque não nos veem, não nos ouvem. Mesmo que a gente esteja aqui, todo dia tentando viver socialmente e de vez em quando, tentando re-existir nos palcos. Eu poderia reproduzir um texto automaticamente de tantas vezes que eu já falei a mesma coisa. Ouviram?

A história continua. Segundo a Bernache, Geni foi morta pela própria mãe, dizia que “o filho” estava condenado. Depois Geni foi morta por todos aqueles que beijaram a sua mão. E morta, foi mais uma vez abusada.

A platéia riu.

No fim das contas, aplausos, agradecimentos e uma tentativa de se mostrar aliado. A direção agradece e comenta rasteiramente o caso de censura:

“Eu nem preciso falar nada porque vocês já viram representado aqui no palco.”

ONDE?

Não, eu não me vi, muito menos representada. Eu não sou a Geni que a Bernache tá mostrando pra vocês.

Eu sou Aurora Jamelo, Atriz, Transvesti e sou a Geni que existe, que sente, e que luta pra se manter viva. Que interpretou Glenda numa série de TV, que protagonizou Bruno num espetáculo de Teatro, que interpreta uma escritora sonhadora numa performance. Todas personagens travestis, que falam da minha história, de como foi, está sendo e de como sonha em ser.

Respeitem minha vivência. Respeitem a vivência das minhas e dos meus. Nós não vamos continuar invisibilizades. E se jogar pedra, nós vamos revidar.

Como? Te mostro como: https://www.instagram.com/p/Bk5VLkKB26O/

“Me arrepiei mais aqui do que em duas horas de peça.”

Esse é só o começo.