Não sou puritana, só não dou pérolas aos porcos.
Desde que eu fiquei solteira pela primeira vez lá pelos meus vinte e poucos anos o feminismo, o empoderamento feminino e a liberação sexual me fizeram ser uma mulher independente, que sabia o que queria e que dava pra quem quisesse, quando quisesse e como quisesse.
Pelo menos era isso que eu pensava.
Passei alguns anos da minha vida pegando caras aleatórios na balada ou que conhecia pela internet (não tinha Tinder e afins na época, a coisa era um pouco mais roots no orkut e msn) me dedicando a ser aquela mulher moderna, bem resolvida sexualmente, que não tinha medo de dizer sim, que tinha a performance sexual digna de uma atriz pornô, e que com a depilação em dia estava sempre disponível para o sexo.
Só que eu nunca estava satisfeita. Achava que eu era “diferente”, que era a “sexuda” do rolê, que era especial e que os homens deveriam agradecer e me valorizar por eu ser tão “desencanada”. Um dia eu li uma crônica (infelizmente não consegui achar para colocar aqui de referência) que dizia que talvez nós mulheres nunca estávamos satisfeitas sexualmente e por isso estávamos cada vez mais insaciáveis e disponíveis. E isso me fez refletir muito, a ponto deu rever vários dos meus “encontros casuais” e perceber que no fim das contas eu tava fazendo a alegria dos homens que gozavam quase todas as vezes (na maioria delas sem se preocupar com meu prazer, e quando o faziam era da forma errada), me comiam sem precisar dum mínimo de esforço e respeito (alguns até saíam falando mal, pq né, mulher boa é a mulher sexualmente disponível, mas isso também é sinônimo de mulher que não se valoriza), percebi que estava arriscando minha saúde física (camisinhas, como todo mundo deveria saber, não são 100% eficazes e ainda podem estourar), minha saúde mental (pois é muito ruim falar com um aleatoriozinho com o qual você teve intimidade e ele te tratar mal pois jura que você quer casar e ter filhos só pq foi atenciosa) e a lista simplesmente não para.
Foi então que eu simplesmente parei de sentir atração por qualquer cara, percebi que andava com um monte de babaca de merda pq “o sexo era ‘bom’ e descompromissado e eu não precisava me envolver”, percebi que fui feita de idiota por um monte de mentiroso que mentiu só por costume, pois nem precisava.
Quando eu falo das minhas escolhas e abro diálogos sobre o assunto, sou prontamente chamada de puritana e escuto que liberdade sexual é sobre dizer sim também. Levando em consideração que nós mulheres sempre fomos ensinadas a dizer sim entre 4 paredes mas fingindo pra sociedade que dizemos não, percebendo que eu era muito menos criticada quando dizia vários sims do que hoje que assumo meus nãos, levando em consideração que nosso sim é SEMPRE respeitado pelo homem, e que é pra isso que a sociedade nos dá serventia afinal, passei a ver liberdade sexual muito mais como o direito de dizer não do que o direito de dizer sim. Enfatizando que “muito mais” não exclui a importância do direito de dizer sim.
“Ai, mas eu saio dando pra todo mundo e eu me sinto bem assim, não posso??” Claro que pode. Se você é tão feliz e satisfeita fazendo isso não vai ser uma reflexão mais profunda que vai te abalar, certo? O que não pode é não permitir questões. Será que isso é uma vontade genuína nossa ou é algo para o qual fomos educadas e ensinadas a vida toda até a escravidão ser tão completa que nos enganamos dizendo que gostamos? Será que o sexo heterossexual comum é tão vantajoso para nós mulheres? Será que não estamos apenas dando pérolas aos porcos?
