Avenida Hippie #10

Bloco F, fila dois, barraca um

Cria da Feira Hippie, Luciana Flávia Louzada ajuda sua mãe na barraca desde os 11 anos. Feira é coisa de família na vida de Luciana, herdou do pai que herdou da avó o posto na Avenida Afonso Pena. Os Louzada eram a sexta barraca da Feira de Arte e Artesanato da Avenida Afonso Pena, um dos precursores da Feira, segundo Luciana.

Eu comecei vindo criança. Minha mãe me trazia em uma caixa, igual a uma boneca. Eu dormia na caixa e fui crescendo aqui na Feira, andando por aí e a partir dos 11 anos eu já cuidava da barraca. Sou eu e mais dois irmãos, todo mundo vinha. Hoje um dos meus irmãos mora em Vitória, ele tem 31 anos, e tem o Lucas que vem todo domingo, ele tem 11 anos. Eu não venho mais, agora só apareço quando minha mãe precisa, me casei e moro em outra cidade.

Ainda sobre suas memórias de menina, a moça se lembra de algumas aventuras pela Avenida quando mais nova. “Eu aprendi a andar de patins aqui na Feira. A gente chegava duas horas da manhã e eu trazia meus patins pra cá, e como a avenida ficava vazia, eu andava na Afonso Pena de patins. Se eu contar, ninguém acredita! (risos). Sempre que eu vejo uns patins eu me lembro disso”, conta rindo.

Em 30 anos de Feira, Luciana percebe muitas mudanças, algumas negativas, como a queda do movimento . “Na minha época, não dava nem tempo de você ver o rosto do cliente de tanta gente que você tinha que atender ao mesmo tempo. Acabava que nem dava tempo do cliente conversar muito, contar uma história”, comenta. O número de clientes de outros estados também reduziu de acordo com a feirante, a isso ela atribui culpa à internet, já que as pessoas não precisam mais sair de casa para comprar o enxoval do bebê. Antes era tradição ir à Feira com as excursões para fazer esse tipo de aquisição.

Os produtos da barraca também mudaram ao longo do tempo, ela conta que antes era bastante comum o uso de cores no enxoval: rosa, amarelo, azul ou verde. Hoje, a tendência é o branco com detalhes em dourado ou prata. Apesar das mudanças, os clientes tradicionais permanecem, Luciana diz que é comum uma mesma família comprar os objetos decorativos do quarto do bebê para todos os filhos na barraca.

Com o passar dos anos, um sentimento cresceu com ela: orgulho dos pais. “Eu sinto muito orgulho, porque eles criaram eu e meu irmão e agora estão criando o Lucas só com a renda daqui da Feira. Eles são muito batalhadores, acordam bem cedo, e uma coisa engraçada é que as pessoas acham que a gente só trabalha aos domingos, mas não, nós trabalhamos a semana toda para vender no domingo. Então eu admiro muito meus pais, porque é uma profissão que exige empenho. Muitas pessoas desistiram ao longo dos anos, desses 30 em que estou aqui, porque não persistiram, já que nem todo domingo é bom. Tem que ter um planejamento financeiro, o dinheiro que você ganha na Feira não é certo todo mês”, explica.

Um fato curioso sobre a barraca, é a mudança de nome à medida que o casal tinha novos filhos. A barraca que um dia foi Luciana Baby, hoje é Lucas Baby.