Avenida Hippie #12
Bloco J, fila oito, barraca três

“ Quando eu tinha 16/17 anos, veio uma coisa que virou o mundo de cabeça pra baixo, vocês não sentiram isso nem vão sentir nunca, porque só aconteceu uma vez: a catástrofe no mundo que foi os Beatles!”, introduz João de Deus Martinelli. Pinho, como é mais conhecido na Feira Hippie, é um dos fundadores da feira e associa seu surgimento aos movimentos beatnik, hippie e claro, aos Beatles.
A gente aqui no Brasil só conhecia bolero, Celestino, aí vem logo Beatles, pô! Foi uma tamancada, mudou o mundo. Depois veio o movimento hippie e o beatnik. Eu era jovem na época, “sem lenço sem documento”, não tinha pretensão de nada, não era que nem essa juventude de hoje que tem Whatsapp e Internet, a gente não tinha nada. Então, nos envolvemos naquele movimento Beatles, hippie e beatnik, Bob Marley, aquele troço todo.
Pinho conta que era hippie quando jovem, daqueles que “faziam artesanato, mas artesanato mesmo”, sem fivela, rebite ou costura, tudo feito à mão. A convite de Maristela Tristão, se juntou aos amigos Pinhal, Petrus, Jaime e Darlan para dar início à Feira Hippie de Belo Horizonte na Praça da Liberdade. Histórias não faltam, “ Eu tava na Praça da Liberdade uma vez, mexia com móveis, puff de couro, armário, cachepot, divisória, esses negócios, aí tinha um cara na barraca comprando, cabelão cacheado bem grande. Era o Lineu da Grande Família, na época eu tinha 18 anos. Ele tava lá olhando, querendo levar uns móveis para o Rio de Janeiro, de repente juntou um tanto de menina e eu pensando “hoje eu vou vender!”, mas ele desceu a Avenida João Pinheiro correndo com as meninas atrás (risos)”, relembra Pinho.
Antes de chegar aos calçados, Pinho trabalhava com móveis artesanais e os vendia para o exterior. Como o tempo de produção era extenso, as entregas acabavam acontecendo à noite, e Pinho levava a namorada — de tanto levá-la, acabou se tornando sua esposa. Entre a montagem de um móvel e outro, sobravam pedaços de couro, e o jovem viu ali a oportunidade de uma nova criação: sandálias feitas à mão. Em determinado ponto, os chinelos pirografados passaram a vender mais do que os puffs, e Pinho entrou de vez no universo da moda.
O artesão, que já fez sapatilhas para bailarinas da Broadway e calçados para o Grupo Corpo e para algumas produções da Rede Globo, lamenta a desvalorização do trabalho feito manualmente, mas observa que isso é consequência do processo de globalização e que ele não pode ser freado:
Hoje vem tudo pronto, antigamente não tinha nem couro, a gente pegava o couro cru e pintava, desenvolvia, trabalhava, não tinha a porção de enfeite que tem hoje, você tinha que fazer o enfeite. O Brasil era dividido assim: Jaú fazia calçados infantis, Franca sapatos de homem e Belo Horizonte moda, aqui era chamado “capital da moda”. Eu, Getúlio, a Arezzo, uma turma, a gente viajava para o Sul e fazia o maior sucesso com nossos calçados, porque lançávamos moda para o Brasil. O país inteiro vinha comprar aqui em Minas.
Hoje Franca tá copiando um tênis da China que a China copiou de uma fabriqueta americana que faz o tênis do Michael Jordan, que custa 300/400 conto. As grandes fábricas brasileiras de sapato masculino estão fazendo tênis pra China, quase Franca inteira está produzindo para a China. Então mudou, as coisas mudam.
Tá muito rápido, de repente você está em Belo Horizonte, que nem tinha Avenida Afonso Pena, e agora você tá na Afonso Pena. Daqui 30 anos os carros estão passando por cima, é muito rápido. O tempo é muito rápido. Eu, quando dava entrevista para aquelas televisões, até estrangeiro vinha olhar os hippies brasileiros, lá eu tinha 17 anos, nem sabia o que falar, não tinha nem história ainda e hoje eu tô aqui falando para vocês! (risos).
