Avenida Hippie #4

Bloco B, fila um, barraca 23

Elton de Souza está na Feira Hippie há 15 anos por meio de um programa da Prefeitura de Belo Horizonte que cede barracas à instituições de caridade. O trabalho social de Elton consiste em ensinar pais de crianças carentes a fazer artesanato com material reciclável. Quando se acidentou em 1989 e perdeu uma das pernas, Elton não conseguia se aposentar e aproveitou seus conhecimentos em solda para se sustentar por meio do artesanato de peças de metal, ofício que aprendeu sozinho e que permitiu dar asas a sua criatividade.

“Eu faço do sacro ao profano. Pediu, pagou, eu faço!”

Antes de entrar para a Feira, o artista enfrentava a fiscalização atrás da Igreja São José, região central de Belo Horizonte, primeiro local que encontrou para vender suas criações. “Eu punha as peças em cima do meu carro, comercializava lá e todo domingo era uma briga com a fiscalização. Na época eu não tinha licença para trabalhar onde eu estava. Como eu já tinha o álibi de não possuir uma perna, ser portador de deficiência, eu usava muito isso como argumento: “olha, eu preciso trabalhar”. Fui conversando e me lembro de um final de ano, aquela época de estar mais apertado, a fiscalização em cima que não me deixava trabalhar, eu brigando, enfrentando fiscal, polícia, para eles não recolherem meus trabalhos, e passou uma dona que ficou assistindo àquele negócio todo. Ela me falou desse programa da Prefeitura e me trouxe pra cá. Hoje, para eu estar na Feira, devo muito a ela, porque foi ela que me introduziu aqui”, conta.

Do lado de fora para o lado de dentro da Feira, Elton recebeu vários incentivos das pessoas. Diziam que agora ele ganharia dinheiro mais rapidamente e que até poderia ficar rico, mas não foi bem assim. Durantes seus três primeiros domingos com expositor, Elton não vendeu uma peça e chegou até a pensar em retornar para o seu antigo ponto na Igreja São José e brigar com a fiscalização, pois do lado de fora ele já tinha clientela fixa. Além da questão financeira, ele afirma que já foi alvo de descriminação na Feira por fazer parte do percentual de barracas destinado a projetos sociais, “no início foi bem complicado, as pessoas nos viam como marginalizados, excluídos da sociedade que a Prefeitura colocou aqui dentro” , explica.

Atualmente, Elton vive apenas da comercialização de suas peças de artesanato na Feira de Arte e Artesanato da Avenida Afonso Pena e enxerga o dinheiro como consequência do ofício que exerce com prazer. Casos não faltam em sua trajetória como artista.

Você se lembra da primeira peça que confeccionou?

Eu trabalhava com móveis, a minha primeira linha foi nessa área de artesanato. Uma cliente apareceu com um Dom Quixote que ela pagou caríssimo, era de um artista plástico do Rio de Janeiro e pediu para eu reproduzi-lo. Eu fiz um que ficou mais bonito que o do artista plástico, segundo ela. Na época, eu lembro como se fosse hoje, eu cobrei setenta reais e ela achou um absurdo, achou caríssimo, não vendi para ela, e como eu continuei fazendo móveis, deixei essa peça dentro do meu carro e um dia fui vender esse carro e achei a peça debaixo do banco.

Fiquei muito invocado de a ter largado dentro dele e a pus em cima do carro para ver se vendia tudo junto. Apareceu um cara, eu vi que ele não estava interessado no meu carro, só olhava para esse Dom Quixote. Ele perguntou se estava à venda, eu falei que estava e que era caro, então ele perguntou “quanto que é?”, eu falei que era 480 reais. Ele falou “é meu!”, enfiou a mão na carteira e me pagou os 480 reais que a cliente não queria pagar 70, aí eu pensei “nossa, Dom Quixote dá dinheiro”. Fui e comecei a fazer Dom Quixote! (risos). Fiz Dom Quixote com mais de quatro metros de altura pra um artista plástico assinar e entrei nesse ramo assim, através desse Dom Quixote.

Como surgiram as outras ideias? Agora você tem profissões e outras esculturas.

Na verdade, depois que eu comecei a fazer o Dom Quixote, cada um foi pedindo uma coisa. Veio gente pedindo um São Francisco, veio uma pessoa que perguntou se fazia profissões, eu fui fazendo. Hoje, depois que parei dentro da Feira, faço só peça comercial, pra mim foi até ruim porque eu perdi aquele negócio de estar criando peça nova. Você leva um dia pra desenvolver uma peça, aí chega aqui tenta vender por 120, a pessoa acha caro, então aquela peça eu não faço mais.

Como você produz e quais são os materiais utilizados?

Uma das razões para eu usar esse espaço na Feira é eu ter um grupo de produção. Hoje nós somos três pessoas, eu ensinei mais duas e a gente desenvolve as peças. Eu trabalho com tudo que for sucata de metal.

Onde você coleta a sucata?

Eu tenho parceria com oficinas, crio em cima da sucata de moto, então qualquer lugar do planeta que tiver isso, eu tenho matéria prima em abundância. O negócio do reciclador é latinha de alumínio, eles não se preocupam com o ferro em si, o pesado, por questão de não ter valor no mercado. Hoje, o quilo de latinha é vendido a R$3,50 e o ferro por vinte centavos.

Qual foi a peça mais inusitada que te pediram para fazer?

Eu faço do sacro ao profano. Pediu, pagou, eu faço! (risos). A história mais bacana foi num dia em que minha mãe estava internada e meu celular tocou. Era uma cliente pedindo pra eu fazer uma peça de sacanagem. Quando vieram buscar, veio ela e a filha. Quando me pediram por telefone, eu imaginava uma mulher de 30 ou 40 anos, vida sexual bem ativa, aí chegou uma tiazinha de 80 anos com a filha de sessenta e tantos que falava “ah, minha mãe é sacana demais! Diz ela que isso aqui é ela e o namorado dela.”.

Assusta uma tiazinha te pedir uma peça de sacanagem, mas o importante é que ela estava feliz. Eu fiz. Pagando bem, que mal tem? (risos). É o que eu falo com todo mundo, às vezes aparece alguém me pedindo pra eu ensinar a fazer, aí eu pergunto pra quê a pessoa quer aprender, se ela me diz que é pra ganhar dinheiro eu falo pra ela fazer outra coisa.

Isso aqui me dá prazer, eu viajo o Brasil todo, conheço pessoas que fiz amizade através desse artesanato. O dinheiro foi consequência de tudo aquilo que foi produzido, do que eu vivo, eu não vivo preso no dinheiro, eu faço porque gosto de criar. Hoje pra mim o prazer está nisso, nas amizades que eu faço através disso.

Se eu sair daqui com mil ou com dez mil, é consequência do meu dia. Tem dia que você sai de casa com cinco mil de encomenda, e tem dia que você chega aqui com 30 mil de peça e não vende 10%. Eu falo com todo mundo, eu faço barrinha de ouro, o dia que vender é dinheiro. Hoje eu devo ter uns 50 mil de barrinhas de ouro produzidas, trabalho de terça a sábado independente do que está vendido ou não, eu tenho peça pronta, eu estou produzindo, isso é gratificante. O importante é gostar do que faz.

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