Avenida Hippie #2

Gradis do Parque Municipal

Angelita Curi Cruz, 71 anos, sempre gostou de colorir e de desenhar. Hoje, artista plástica, expõe na Feira Hippie há 37 anos. Começou na Praça da Liberdade, criou dois filhos com a arte e ensinou o ofício a um deles, Eliane Pianetti, que aos 12 anos teve seu primeiro quadro vendido pela mãe na Feira.

Como surgiu seu interesse pela pintura?

Eu sempre gostei de pintura. Desde pequena eu tinha facilidade, gostava de colorir, de desenhar (risos). Quando eu estava com 18 anos, falei com meu pai que queria fazer Belas Artes, ele era professor e disse: “não minha filha, não faz Belas Artes que não dá dinheiro, vai ser professora”. Eu achei que ele estava com razão e fui fazer Letras. Fiz português, eu queria francês, mas não passei. Lecionei por onze anos e depois não aguentei.

Não teve jeito, apesar de ter seguido o caminho das letras, tinha uma pedra no caminho de Angelita. Na verdade, tinha um quadro. Em uma visita à casa de sua irmã, Angelita perguntou sobre uma pintura na parede, que segundo a dona da casa foi feita por uma conhecida. Angelita não perdeu tempo e perguntou sobre o local das aulas de pintura, começou a fazer os próprios quadros e em seguida a expô-los.

“Comecei a expor como clandestina na feira da Praça da Liberdade, depois nós lutamos, na época da Maristela Tristão, e conseguimos a carteira. Eles nos levaram para a Praça da Savassi, nos separaram da Feira, e na Savassi era terrível, o vento jogava os quadros no chão (risos), pra vender era uma dificuldade. Depois levaram a gente de volta para a Liberdade e em seguida trouxeram todo mundo pra cá.”.

A senhora tem ganhado a vida como artista mesmo?

Eu criei dois filhos sozinha, dei faculdade para a minha filha, faculdade de relações públicas, graças a Deus. Foi muita peleja, mas antigamente era mais fácil. Eu estava até pensando, hoje em dia, se fosse pra fazer o que eu fiz, eu não ia dar conta. Criar dois filhos sem a ajuda do marido. Agora, eu estou sozinha, meus filhos já se casaram, eu tô custando a dar conta de mim (risos). Tudo está bem mais caro.

Acabou que a arte foi o contrário do que seu pai disse.

Pois é, é porque quando a gente faz o que a gente gosta e o que a gente quer, o que a alma da gente precisa, eu acho mais simples, a gente se empenha. Eu comecei porque gostei de ver o quadro e eu queria fazer um, quando eu fiz o primeiro, que até tenho lá em casa guardado, em 1980, um mar, uma casinha, um coqueiro, eu achei aquilo lindo (risos).

A senhora ainda acha aquilo lindo?

Ah, acho! Tá lá em casa, não desfiz dele não, tá lá.

Tem alguma história da Feira que marcou a senhora?

Quando eu expus numa quinta-feira, quando comecei à noite, a gente não vendeu nada. Era eu, uma vizinha e uma parente da moça que eu vi o quadro e quis pintar. Nós começamos a expor à noite e sem carteira. Eu expunha na quinta e no domingo, aí quando eu fiz um quadro de um casarão e no fundo o mar e uma cerca, um coqueiro, eu pedi doze reais na época. Apareceu um senhor que disse “se a senhora fizer ele por dez, eu vou levar”, era um cara lá do Rio, aí eu falei “não, eu faço” (risos). Aquilo pra mim foi a maior alegria, eu vender um quadro da época, em 1980, que eu pedi doze e ele ofereceu dez, foi um estímulo para poder continuar. No primeiro dia que eu fui pra feira, eu não vendi nada, mas o que eu recebi de elogios, toda hora, “ai que lindo, ai que lindo”, aquilo faz a alegria da gente, motiva.

Em qual dia a senhora vendeu mais?

Há quatro, cinco anos, eu vendi mil reais em um domingo, vendi vários quadros. Na época eu estava construindo um lugar para alugar lá na minha casa, então aquilo ali foi uma alegria, vender mil reais em um dia! Eu fiquei muito feliz. Meus quadros não são caros, mas dão muito trabalho.

Vale a pena trabalhar com arte hoje?

Eu acho que desde que seja o sonho da pessoa vale a pena, tem muitos percalços, não é uma coisa fácil, mas é muito interessante.

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