Surto Criativo (ou sobre Camelos e Hércules)

A Ventania
Nov 2 · 4 min read

“Não, isso não. Está uma grande merda. Preciso de algo revolucionário.”

A luz a cima da poltrona iluminava o assento C2. Havia escolhido o mais perto do corredor. Não por comodidade, muito pelo contrário. Se ficasse no meio poderia ser atendido por duas aeromoças. Seria cavalheiro com a mais bonita, grosso com a mais feia. Tudo bem, numa primeira classe é difícil achar uma aeromoça feia. A menos bonita então. E se fosse homem? Não tivera saco pra criar essa hipótese. Apenas amava a brincadeira da dualidade. Nunca saberiam quem era ele realmente.

Sentava na C2, pois odiava a simetria. As pontas eram periféricas demais. E o centro? Muito central. Queria algo estranho. A fileira dois era perfeita, assim como a quatro. Mas, sem dúvidas, não gostamos do número quatro. Acabou que pegou um aeromoço em seu corredor. Paciência. Decidiu fingir que era mudo.

A luminária vomitava em cima da pilha de papéis e das duas canetas pretas sobre a mesinha. Também iluminava a taça de vinho Malbec pela metade no canto. Se estava meio cheia ou meio vazia? Estava apenas meio na sua visão.

Procurava algo, qualquer coisa interessante para seu romance. Viajara de Paris a Berlin, de Berlin a Riga, de Riga (claro, passando por Moscow) a Pequim. Tivera então uma ideia revolucionária (a qual procurava nesse momento no claustro do maldito cheiro de avião) enquanto aspirava o ar chinês: “Já sei!” — exaltou-se sozinho e na companhia de uma prostituta oriental em seu quarto no coração da cidade — “Vou para Malaysia”. A lasciva menina não compreendeu o que se passava quando ele fez sua mala e correu para o aeroporto mais próximo, deixando quantia acordada por uma hora de desejo e uma gorjeta equivalente à passagem de ônibus. Levava apenas um guarda-chuva e uma taça de vinho nas mãos. Do lado de fora, amanhecia o dia mais lindo em meses em Pequim. Pena ele ser totalmente coberto pela poluição.

Chegando a Kuala Lumpur, trancafiou-se no hotel mais próximo. Fez questão de não ver nada no caminho até lá ou na aterrissagem do avião. Não sairia do quarto até o dia da partida. Decidiu escrever um romance ambientado nas verdejantes florestas da Malaysia, as quais nunca havia visitado, e baseado nas tradições locais, as quais desconhecia completamente.

Foram dois árduos dias de palavras e palavras e jazz e vinho e palavras. E cigarro. Estava tudo muito ruim. Menos o jazz. Escolheu o Mingus, porque esse não o decepcionava.

A luminária ainda iluminava, solitária naquela região do avião, as palavras sem ritmo e sabor. Retornava à Pequim após dois dias da mais pura falta de criatividade. O voo MH310 lhe soara interessante pelo nome. Malaysian Airways. Um tanto quanto exótico.

Não esperava que esse voo mudasse sua vida, logicamente, mas queria algo diferente. Infelizmente, na primeira meia hora já havia sido devorado pelo tédio. Sentado em sua poltrona ereta a 90°, bebia o Mingus e escutava o vinho. Amava o baixista, amava suas composições e, principalmente, amava como sua música era capaz de isolá-lo daquele clima aeroviário fedido e autoritário.

De repente, uma vontade súbita típica de um deprimido homem pós-moderno invadiu suas veias. Precisava de um cigarro. Sabia que era contra as regras fumar ali dentro. Uma pena que regras foram feitas para aquelas pessoas que precisam de linhas para escrever ou de guarda-chuva para apreciar a chuva. Uma pena maior, não era uma dessas.

Trancou-se no banheiro. Apoiou a taça ao lado da pia e pôs o som no máximo. Era o solo do Wayne Shorter.

Retirou um maço e um isqueiro de um bolso sorrateiro. Tinha escondido muito bem. Afinal, sempre tem aquela chance do avião cair ou ser sequestrado. Sabia que sua vida não era nem um pouco valiosa, mas cumprira o bastante para merecer um enorme prêmio de consolação antes do fim: um último cigarro do seu velho companheiro de duas corcovas. Abriu o maço e deparou-se com um aviso na porta. Estava em inglês. Odiava os ianques, os ingleses e, porque não, os australianos. Sua maior decepção foi quando descobriu que o jazz não fora inventado na Alemanha. Não o culpo. Não me entenda mal. Não gosto de generalizar povos (e também não gosto de usar tantos “nãos” em tão poucas frases), mas cada um pode ter sua opinião. Ignorou o aviso explícito de não fumar.

O vinho era cúmplice daquela cena de amor. Mordiscava os lábios de seu jovem cigarro. Beijou-o carinhosamente para degustar de cada trago daquele Soma moderno. A porta, de repente, começou a tremer.

“Droga”. Sabiam que ele estava ali prestes a corromper aquelas leis infames. O que uma fumacinha poderia ter de tão mal? O avião não cairia por causa disso.

A porta dançava cada vez mais. Ameaçava se romper a cada instante. Batiam nela com força sobrenatural.

Num ímpeto raivoso e com muitas saudades da tranquilidade tão fugaz que se esvaía rapidamente pela privada, deu um primeiro trago. Jovens brisas sagradas de puras toxinas rastejaram pela sua alma, deram-lhe a força de um Hércules pronto para montar em seu Camelo e visitar o mestre Mingus no céu, o qual sentava a direita de Miles, o Todo Poderoso.

A porta de repente parou de rebolar. A luz apagou-se. Subitamente, teve uma ideia brilhante para seu novo romance. A inspiração, contudo, desmaiou quando sua cabeça espancou a parede. Desmoronou com o fade-out do solo de saxofone. O vinho derramou-se sobre sua camisa branca, grudada ao corpo, jogado ao chão sobre as guimbas de cigarro. Enquanto montava no seu Camelo, o alarme do banheiro gritava e o resto da tripulação tentava entender como podia haver terremotos no céu.

    A Ventania

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    Coletânea pessoal de contos e observações sobre uma dissimulada realidade