Linha Verde — Terminal Vila Madalena

Depois de ter subido as ladeiras da Av. Pompéia, atravessado a H. Penteado e cumprimentado aquele cara loiro dos cabelos cacheados que toca seu violão nos degraus da estação Vila Madalena passo apressado pelo poema “O Morcego” de Augusto dos Anjos, para enfim cruzar as catracas, pegar o metrô e descer na estação Consolação.

Pouca gente sabe que um dos meus passatempos preferidos além de ficar rabiscando em caderninhos aleatórios, é inventar histórias. Faço isso sempre que posso, principalmente em filas, supermercados, bancos, ônibus e metrôs. Uma maneira divertida de passar o tempo sem que eu precise estar refém desse pedaço de plástico cheio de tecnologia e tela sensível com milhares de cores que chamamos de celular.

Estava esperando o metrô, como já fiz incontáveis vezes. A linha verde é minha preferida lá de tudo você encontra, do jovem executivo com seu terno azul marinho exalando um perfume com notas de madeira e âmbar, do menino banguela de meia de monstrinhos e sua crocs verde aos senhorezinhos mais simpáticos. O metrô chegou, saiu um punhado de gente e entraram tantas outras. Sentei perto de um assento preferencial e um velhinho sentou logo ali. Vestia uma camisa amarelo claro e um colete verde musgo bem surrado. Ele foi o escolhido para mais uma de minhas histórias.

Tim, dom. Próxima estação Sumaré, desembarque pelo lado direito do trem.

Sr. Alessandro, 68 anos, italiano e viúvo. Chegou aqui no Brasil no período da imigração italiana em 1960 quando tinha 12 anos para ajudar o pai numa fazenda de café no interior paulista. Desde criança ainda na Itália tinha muita curiosidade nos temperos e panelas da cozinha da mãe. Os pais saíram do interior e vieram para capital. Então ele começou a trabalhar numa fábrica de sapatos e foi lá que conheceu a Dona Conceição, como ele dizia “a brasileira com os tornozelos e olhos mais bonitos de São Paulo” com quem veio a se casar depois de longos 6 anos de namoro.

Tim, dom. Próxima estação Clínicas, desembarque pelo lado direito do trem.

Casado, morando em uma casa simples com D. Conceição, tinham juntado dinheiro para realizarem um sonho antigo de ter uma padaria. Ele adorava fazer baguetes e ela não resistia à um sonho de doce de leite quentinho. Juntos tiveram dois filhos, Tereza e Matheus. Em uma noite fria de junho D. Conceição morreu de infarto, ele sabia que ela tinha uns problemas de coração e tomava uns remédios para pressão. Mas com muito esforço conseguiu criar os dois filhos sozinho, os clientes mais antigos sempre lembram com saudosismo das aventuras das crianças pelas mesas da Padaria Felicità. Não faltou carinho, não faltou sonho com recheio de doce de leite e alguns castigos. Hoje, Tereza é dona de uma floricultura ali perto do metrô das Clínicas e Matheus está se recuperando de um câncer no esôfago, era ele quem cuidava da padaria, junto com o pai. Percebo no senhorzinho um sorriso de ansiedade e as pernas tremendo, pode até ser parkinson, mas prefiro pensar que ele está ansioso e feliz porque Matheus saiu do hospital ontem e ele está indo na feira de orgânicos no Modelódromo do Ibirapuera comprar uns tomates fresquinhos pra fazer a sopa preferida do filho.

Tim, dom. Próxima estação Consolação, desembarque pelo lado esquerdo do trem.

Saí do metrô lamentando não ter dado um abraço no Sr. Alessandro e desejado uma boa recuperação para Matheus. Mas lembrei que essa história toda foi coisa da minha cabeça, que o senhorzinho era só mais um estranho na multidão, igual a mim e tantos outros com suas histórias anônimas nessa cidade grande. Subo as escadas rolantes e na minha frente parado um casal de mãos dadas, com trocas de olhares apaixonados… ops. Acho que vem vindo mais uma história…

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