Ponte dos Espiões

Bridge of Spies (2015)

Steven Spielberg é um cineasta capaz de realizações genuinamente fantásticas. Pena que, às vezes, pareça esquecer-se disso.

Assinado por Matt Charmon e os irmãos Coen, o roteiro de Ponte dos Espiões acerta ao criticar o ufanismo e a parcialidade das instituições estadunidenses em plena Guerra Fria. Os excessos, inclusive, contrastam inteligentemente com burocratas cansados que, apesar de “espiões”, assoam narizes enquanto interrogados ou procuram dentaduras durante revistas do FBI — tudo longe do glamour ou terror contados nos noticiários e escolas. Destaque também para algumas linhas memoráveis de diálogo e o bom humor (afinal são os Coen!) do roteiro.

Nada disso, a propósito, funcionaria sem a competência da dupla Tom Hanks e Mark Rylance. O primeiro interpreta um personagem que, mesmo amistoso, jamais abandona o olhar perspicaz e o traduz numa pronúncia incisiva quando necessária. Já o segundo rouba praticamente cada cena de que faz parte numa composição sutil, precisa nos gestos e sotaque dúbios e curiosamente simpática.

E então chegamos a Spielberg.

O diretor capaz de abrir o filme com uma cena carregada de simbolismo (quando Abel enxerga-se no autorretrato e no espelho) e uma sequência de perseguição digna da melhor espionagem é o mesmo que abandona qualquer sutileza ao enquadrar todos — não um, dois ou três — os passageiros de um vagão encarando o protagonista ao mesmo tempo. Ou o que insiste em zooms nada discretos sempre que um personagem está para dizer uma grande linha. Ou ainda o que compõe longos travellings (quando a câmera, geralmente num trilho, desliza em vez de girar sobre seu eixo) que, até agora, não sabem sua função narrativa na cena.

Nesses momentos, Spielberg parece menos apostar em seu talento e mais investir numa forma de escancarar o que está — ou deveria estar — acontecendo para o espectador. Uma pena, pois, quando oscila a sua câmera, sobram apenas as excelentes direção de arte (destaque para a Alemanha Oriental) e fotografia contribuindo no quadro.

Em resumo, outro bom projeto do Spielberg produtor, porém distante dos melhores dias do Spielberg diretor.

Nota: 7/10