PhDs podem ser empresários no Brasil?

Quando se trabalha com inovação tecnológica, é importante focar todos os esforços em resultados, isto é, qualquer empresa para se manter no mercado competitivo deve inovar com o objetivo de vender seus produtos e serviços. Muitas vezes, ocorre uma confusão grave do significado de inovação tecnológica para o mercado, principalmente pelos líderes com alta titulação nas pequenas empresas de base tecnológica. Muitos mestres e doutores com pouca experiência em desenvolvimento tecnológico, pois apenas trabalharam em seus mestrados e doutorados (pesquisa básica e aplicada), têm dificuldade de entender que a justificativa e a metodologia que os levaram a realizar seus trabalhos de pós-graduação, praticamente não consideraram, a necessidade de solucionar diretamente problemas reais encontrados em nossa sociedade. Por isto precisam complementar seus estudos com conhecimentos de negócios, empreendedorismo e gestão.

“Precisamos passar do mundo de Francis Bacon, que afirmava no século 17 que o conhecimento é poder, para o de Adam Smith, que cem anos depois escreveu que o conhecimento pode ser transformado em riqueza.” Carlos H. Brito Cruz — Diretor da FAPESP

Quando este profissional já se encontra dentro de uma empresa em fase inicial, ele rapidamente deve entender que necessita gerar soluções viáveis para os clientes que permitam, por exemplo, economizar seus custos operacionais, agregar valor aos seus produtos e serviços, melhorar sua competitividade, etc. Não existe espaço para a inovação sem retorno financeiro, haja vista que o investimento realizado com esta inovação deve ser recuperado (ROI — Return Of Investiment) com a sua comercialização, e posteriormente, gerar lucros. Inovação é produzir dinheiro novo por meio de novas técnicas, sistemas, processos ou produtos que antes não eram utilizados para um determinado fim específico. Se não cria valor não é inovação, é apenas novidade, e novidade é irrelevante para os negócios.

A inovação eficiente significa que não basta somente inovar tecnicamente, o que pode a princípio, render respeito e muitos fãs para empresa (aparecer na mídia, etc); é necessário render divisas e lucros. É importante que o empreendedor se torne um empresário e inove para vender no mercado e não, por um certo prestígio pessoal. A inovação em si não gera o crescimento da empresa, a correta administração e negociação dessa inovação, sim. Por exemplo, entrar no mercado competitivo a tempo e com preço adequado é vital para o sucesso do empreendimento. Se isto significar licenciar a ideia para um fabricante ou distribuidor externos, é importante fazê-lo. Além disso, toda inovação que se entende ser fundamental para o crescimento da empresa merece a dedicação de seus líderes. Se a criação não parece importante para os líderes estrategistas da empresa, não será importante para mais ninguém.

No Brasil, existe um problema grave que é o imediatismo de possíveis investidores com capital. Isto acaba dificultando investimentos financeiros em pequenas empresas de base tecnológica no médio e longo prazo. Ainda para os investidores brasileiros é mais fácil aplicar o dinheiro em títulos do governo federal que rendem juros mais altos, do que arriscar investir em pequenas empresas de tecnologia nacionais que atuam em mercados ainda pouco explorados com produtos e serviços com alto risco tecnológico. Diante desse fato, torna-se cada vez mais raro o surgimento dos pequenos empreendedores na área de tecnologia com foco na inovação disruptiva.

Esta grande dificuldade para os empresários de pequenas empresas de tecnologia relacionada à perspectiva de lucro em um curto período de tempo que muitos investidores brasileiros possuem, dificulta a captação de recursos em fundos de investimentos (capital de risco). Diante desse fato, o empreendedor, se vê com poucas oportunidades para obter dinheiro para alavancar o seu negócio. Falta-lhe crédito! Mesmo junto aos bancos públicos (BNDES, Bancos regionais de desenvolvimento, etc) as exigências e as garantias necessárias para realizar o empréstimo não consideram o risco tecnológico, tornado inviável para o pequeno empresário. E a busca de investidores para a fase de validação do negócio ainda tem pouco apelo junto aos grupos de “Seed Money” no Brasil. Em outros países a figura do “Angel” privado foi o caminho encontrado para alavancar as oportunidades de negócios disruptivas.

Diante disso temos um dilema em nosso País, o que vem primeiro? o “Angel” ou um caso de sucesso de pequena empresa disruptiva?

Sem dúvida pensar fora da caixa é um desafio quando sua rotina diária acaba não ajudando a se tornar um estrategista da área de inovação. Neste ponto o CNPq iniciou alguns anos atrás um trabalho de separar a pesquisa básica da pesquisa aplicada já na universidade. São as bolsas de iniciação científica (PIBIC) e iniciação tecnológica (PIBITI). Contudo existe um processo de amadurecimento dos projetos dentro das universidades, principalmente as públicas. Neste sentido, foi montado uma proposta de checklist para auxiliar a identificar os tipos de projetos. O checklist pode ser encontrado no site researchgate.net.

Este trabalho já inicia na base (alunos de graduação), a transformação dos futuros mestres e doutores que desejam enveredar pelo universo das startups e pequenas empresas de base tecnológica. Para aqueles que já estão formados e estão na busca pelo sucesso empresarial não existe fórmula mágica. Precisa correr atrás da formação em gestão, negócios e empreendedorismo (seja autodidata ou fazendo cursos de médio e curta duração). Interagir fortemente com o mercado que deseja atuar(participar de feiras, realizar entrevistas, estudar os hábitos dos clientes, etc) e se cercar de pessoas que acreditam em você e no seu propósito!

Sucesso a todos!