They call me cry baby

Desde pequena, eu sempre fui muito chorona e esse é o momento que você vai pensar “Ah, mas toda criança é chorona”. Sim, mas, no meu caso, eu sempre fui demais. Tanto que as pessoas nem sentiam mais pena de mim quando minhas crises de choro começavam, elas só se irritavam e perguntavam “Mas por que essa menina já está chorando novamente?!”. A maioria dos meus colegas de classe zombava de mim por causa disso e nem minha família parecia aguentar mais. Minha bisavó costumava dizer que eu ficaria seca de tanto chorar por tudo e toda hora, meus pais respondiam que passaria com o tempo. Mas não passou. Na verdade, só piorou.

Todas as minhas maiores emoções se manifestam através do choro. Choro quando estou com raiva, choro quando estou triste e decepcionada, choro quando estou frustrada.. uma infinidade de variações. Quando eu percebi que estava amando uma menina pela primeira vez, eu chorei. Eu tenho vontade de chorar até quando não existe razão aparente. Já aceitei que é uma característica que vou carregar comigo por tempo indeterminado, quase como as minhas alergias que pareciam que nunca iriam sumir na minha infância, mas que, quase milagrosamente, sumiram um certo dia. Eu nunca esperei ansiosamente para que isso acontecesse, já tinha me acostumado com a ideia de até morrer com elas me atormentando. É a mesma coisa com as crises de choro. Eu não espero mais que elas vão embora algum dia, principalmente porque minhas angústias só se tornam mais pesadas com o tempo.

Mas era de se esperar. É quase impossível ser uma adolescente estável e saudável quando não se é hétera. Me assumir para a minha mãe não foi uma das melhores experiências, e duvido que vá ser melhor quando meus colegas e minha vizinhança descobrirem, eventualmente. Quando eu finalmente entendi o que era, comecei a me afastar da maioria dos meus grupinhos de amigos. Os discursos de ódio deles começaram a me atingir de uma forma que eu nunca havia percebido que me atingiam antes. Antigamente, eu riria junto com eles logo após de um soltar alguma piada ofensiva sobre gays ou lésbicas. Ultimamente, o nó na minha garganta só fica mais justo quando ouço tais coisas, mesmo que de longe dos grupos. Ninguém entende o que está acontecendo comigo e eu fico cada vez mais aflita por não poder tirar o peso das costas. Está se tornando cada vez mais difícil conseguir segurar minhas vontades de chorar em público. Recentemente, uma professora me flagrou chorando e, percebendo que eu já estava há bastante tempo vulnerável, fez a pergunta detestável: “É por causa de algum namoradinho?”. Aquilo me deu mais vontade de chorar, só que de raiva. Quem dera viver nesse universo paralelo em que as únicas aflições de uma menina são desilusões com coisas bobas como garotos, né.

Às vezes, me pego desesperada pensando sobre como as coisas mudariam por causa de uma simples sexualidade. Como as pessoas que me conhecem desde pequena começariam a me ver de outra forma, o que elas falariam, o que elas pensariam.. Sempre tive um grande apreço por ser invisível, por permanecer sempre nos cantos, por nunca ser o centro das atenções, e com essa “novidade” tudo isso mudaria. Sempre gostei de permanecer limpa e intacta nas mentes das pessoas, por mais que nunca tenha sido. Eu me sinto como um peixinho fora d’água, como se não existisse lugar no mundo para mim. Tenho medo do que está por vir e queria ter uma breve visão do futuro para saber se tudo que estou passando agora vale a pena. Se vale a pena esperar para ver.

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