Comecemos.

A gente faz de tudo pra fugir. Eu faço de tudo pra fugir. Coloquei durante todo esse tempo toda a poeira pra baixo do tapete na tentativa de não me enxergar. A falta dela faz com que cada hora mais eu me olhe no espelho e descubra no meu rosto e na minha alma um buraco diferente. Um buraco que eu nunca quis fechar, pelo contrário, quis abrir ainda mais e jogar todas as misérias pra dentro dele.

Como eu fui ingênua de achar que ele não viria.

A falta dela me faz querer culpá-la por ela não estar aqui. Me faz ter raiva pelo fato de ela ter vindo, e ido embora depois de todos os dias. A falta dela realmente me faz me enxergar, e me faz perguntar: de onde eu tirei que ela me salvaria?

Ela é a salvação dela, eu tenho mais é que buscar a minha.

A falta dela me deixou com raiva ao perceber que a sociedade me impôs que eu teria que ser dona de tudo e todos. E que se eu não fosse isso tava errado, era sinal de que eu ia tá sendo babaca pro mundo. A culpa não é dela.

A falta dela me fez ver em mim o que me faltava, e me falta muita coisa. A falta dela expôs meu medo, e meu medo não é pouco. A falta dela deixou a insegurança sem o mínimo de vergonha de aparecer, e agora ela aparece todos os dias. Mas insegurança nela? Ou em mim?

A falta dela me mostrou que eu não sou gentil, nem comigo nem com os outros. Que eu cobro desde o bom até o ruim, e que me acho na obrigação disso, de cobrar tudo.

Eu sou só mais uma mulher de 22 anos anos. Eu tenho medos e anseios criados pelas tecnologias malditas que tentam nos prender cada dia mais. Que nos deixam esperando cada dia mais e que nos distanciam daquilo que realmente vai levar a gente pra algum lugar: nós mesmos.

Eu não sou refém da falta que ela me faz. Eu sou refém da cegueira, de não querer ver em mim tantas outras possibilidades que estão à minha volta. A falta dela me faz ver todo o meu olhar direcionado somente pro lado negro, pro lado escuro, pro lado podre. A culpa não é dela. A culpa é do meu olhar que se acostumou.

E por que sou acostumada? Quem disse que não posso desacostumar?

O sol lá fora brilha, e eu fico querendo que a falta dela me amargue, quando na realidade poderia me iluminar ainda mais.

A falta dela me faz ter saudade de mim. De mim que eu nunca encontrei. De mim que eu nunca tive coragem de olhar no fundo dos olhos. De mim que eu escondi durante todo esse tempo e agora simplesmente acho que é obrigação de terceiros cuidar. Eu sou obrigação minha. Eu e tudo o que a falta dela me fez ver.

Eu sou forte e fraca, mas preciso estar de olhos bem abertos e aceitando tudo o que sou eu, e tudo o que a falta dela me mostrar.

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