A água da chuva

A água da chuva molhou a varanda. Não a da mulher. Ela não tinha varanda. Na casa dela a chuva molhava direto a terra escura do jardim. Sentada no curto espaço além da soleira, de canelas esticadas num banquinho, lia um livro de contos, toda ela fresca e segmentar como o ar ao redor; como a saída de um ambiente abafado para um ar frio e noturno. Também naquela hora era noite. A lâmpada fraca que possuía já lhe cansava os olhos, e em pouco tempo ela se deitaria.
O céu não tinha estrelas. Mas, quando a chuva cessou, ela viu que deixara uma nebulosidade alaranjada e escura, como se o mundo, fora de órbita, tivesse ido parar num buraco negro silencioso. Nós, mais solitários do que nunca. O pensamento rendeu-lhe um rombo enorme no peito; terrível sentimento de impotência que a meia idade vez ou outra lhe trazia. Já ia correr a ligar para cada um dos filhos, a fim de certificar-se de que ainda viviam. 
Antes de levantar-se, porém, a água da chuva havia molhado a varanda. A dos vizinhos. Viu, por cima do muro que separava as casas, uma luz acender-se e duas ou três vozes que saíram, rompendo o coágulo da chuva, do jardim, do livro, do cansaço. Invadida pelas vozes, elas lhe pareciam tão suficientes que lhe seria natural se não tivessem corpo, e fossem apenas sonoridades oscilantes e pessoais. Foi fácil imaginar. Ela não conhecia os vizinhos. Naquela rua ninguém conhecia ninguém. Apesar disso, sentiu-se a maior espectadora de suas vidas, além deles mesmos.
Alguém soou. Uma das vozes, grave e cheia, escorregou na varanda molhada. Caiu. Não. Outra voz, esganiçada e histérica, sustentou-lhe, parecendo que cairia também. 
A ela ocorreu que os vizinhos eram as vozes mais felizes do mundo. Ocorreu-lhe mais, na verdade; que existiam as horas mais felizes do mundo. Naquela exata hora, que esperava ansiosa do lado de fora, os vizinhos saíram e viveram. Tais horas ela também de vez em quando vivia. Algumas coisas ao redor indicavam a proximidade da hora e, se quisesse, podia identificar. Espreguiçou-se e entrou. Os filhos viviam, sim, sabia. Ligou, assim mesmo.