Força estranha

Algo dentro dele nunca se calara. Uma espécie de existência, que era mais presença do que matéria, vivera dentro de Edgar por toda uma vida, migrando da epiderme para as patelas e de lá para a úvula, e às vezes se instalava silenciosa numa parte sua que nunca batizaram, e que de alguma forma o definia. Sentia-a quando estava por vir, ao tocar nos objetos, ao esticar-se na cama, no gosto que a comida tomava. Nessa hora, o grito surdo da existência arrastava Edgar pelos cabelos aos lugares, tolerando tudo por muito pouco.

Arrastado pelos cabelos se metera naquele lugar; precisamente na cadeira de plástico sem braços no canto de uma mesa de pano manchado de gordura. Toda a sala parecia petrificada por um ranço engordurado, como uma tigela de óleo usado há muito. Sentia que a sua própria nuca exalava um odor desagradável, enquanto que todos os outros por ali espalhados cheiravam esplendidamente, deixando uma trilha de flores por onde passavam. Havia a necessidade de conviver esporadicamente, afinal; meter-se em meio de gente, brindar com os copos cheios até a borda, abraçar com um coração de encontro ao outro, atualizar-se sobre como as coisas iam. Mas a tal presença imaterial o pegara bem nas amígdalas naquela manhã, de modo que havia também esse desconforto. Visivelmente irritado, pouco foi cumprimentado, e já há muito tempo permanecia naquela cadeira, suando a bunda, devorando empadinhas.

Mas é da natureza de algumas coisas estarem sempre à espera. Alguns instantes forçam-se do corpo mais inerte, contorcem-se, endurecem e pesam até se fazerem notar, até ser impossível lhes negar a admissão. Foi o que aconteceu a Edgar, quando subiu ao palco uma moça de pernas muito magras e ossudas, com um microfone em punho, uma tela projetada atrás de si, e todo mundo viu que ela cantaria. Um urro histérico rimbombou pelas paredes vindo dos pulmões dos convidados, já meio bêbados; Edgar, paralisado, parecia sentir o coração firmemente apertado, quase como se ele mesmo estivesse pendendo naquele palco, esperando soltarem o playback.

Ele sentiu o reconhecimento nascer do fundo da memória, instalando-se no fundo de seus olhos, junto ao soar do baixo e à chegada e ida do violão logo depois. Não demorava. Ela começou Sangue Latino como se recitasse um poema, presa àquele pequeno espaço, subindo inteira para uma ida e vinda dos quadris que a partir de então a pontuaria durante todo o resto. Edgar sentiu o coração inflar-se aos poucos, mais livre, iluminando-o; os olhos brilhavam tanto que pareciam produzir um feixe de cordas invisíveis diretamente ao maxilar da moça que cantava, mantendo-a de queixo cada vez mais erguido. Ela se abriu inteira ao dizer “os ventos do Norte não movem moinhos…”, e dirigiu ao fundo da sala um olhar duro ao encolher-se gradualmente em “alma cativa…”

Uma metamorfose desconhecida tomou todas as coisas, mas não mais do que a Edgar, que sorria de pé sem se lembrar de quando levantara, e que ainda permanecia perdido nos movimentos instintivos da moça muito depois de ela já haver encerrado. A presença imaterial em Edgar parecia haver calado; mas não. Ele era o grito que vinha remoendo. Suspirou, satisfeito. Foi embora refletindo seriamente sobre, da próxima vez, oferecer-se para representar algo como, talvez, Força Estranha.