narrar-me
Quero escrever para quando você estiver cansado, para funcionar como uma verdade subentendida. O relato das minhas coisas mais mínimas, que deste modo passo para o fato da sua existência, sem realmente corrompê-la. Porque não há necessidade em contar como é quando saio de casa, quando a manhã é feroz, quando as narinas inflam e o peito estufa; não quero saber se você o quer. No entanto, a escuridão das pálpebras garante-me particularidades das quais a realidade me priva. Esperar, esperar, esperar… Nunca mover-se para o ato. Nunca acontecer… Pois embora lute contra isso ideologicamente, pensar na voz e no tom da voz em ondulações de jovem bom e vivo, faz-me estremecer e fechar os olhos com ainda mais força. O quanto se quer não basta. Ainda espero. O passo frio no asfalto, o ar meio morto, a esperança enferma. Assim arrastava-me no tempo. O nariz entupido, vermelho, patético; como esperar resultados. Minha cabeça vive nas telas de cinema, cogitando acontecimentos dramáticos, movimentos roteirizados, que pontuam tudo de maneira tão perfeita, que parece a certa. Como não foder a si mesmo? As vezes paro. Deixo-me aí, onde estiver, ainda mais alheia, se possível, e observo-me de fora. Conscientizo-me de determinada estupidez e juro ser melhor. Porque (perceba aí onde fracasso em tudo), ainda não me convenci de que sou em definitivo o que estou sendo agora. A praça já não era vazia. Os galhos das árvores cortavam a luz de um sol ainda tímido e sonolento, que espiava como andava a vida por detrás das nuvens densas e frias. Desço a rua, em direção a linha que traço enquanto ridicularizo (quem pode dizer que não o faz), concentrando-me em olhar para o alto, sempre para o alto, por tempo suficiente para que a consciência daquela grandeza me chegue ao peito impiedosa e arrebatadora, para me lembrar de que vivo, ainda vivi muito pouco e de que ainda há muito; só assim suporto o peso do cotidiano. Penso em quem diria que estou admitindo e recorrendo à Deus. Em verdade, nessas horas estou recorrendo a qualquer existência que seja maior do que eu. Nessas horas, vermelha e tomando fervura, não me basto; é preciso admitir esta verdade. Um caminhão parado na longa praça me faz parar. Pareceu-me muito maior do que realmente era e surpreendeu-me por recear a aproximação. Um homem em pé em cima do veículo parecia-me ainda maior, mesmo como um gigante, coberto pela sombra; o sol que brilhava melhor. Nunca vira as plantas e as grandes árvores da praça serem regadas. Uma mangueira como daquelas de bombeiro, apontava para o alto, fazendo cair sobre os jardins uma chuva localmente seletiva, com pingos que reluziam quase magicamente; a impressão de que não estava mais em terra. Ainda parada, sobressaltada, encantada com aquele acontecimento que regeria meu dia inteiro. Entretanto, maldita racionalidade para o lado errado: dei as costas para o que procurava, e voltei a seguir minha linha pífia. É que já me especializei nessa coisa de dar as costas; então não lamento tanto. Quero escrever para lembrar-me de quem estou sendo, lembrar-me das coisas que precisam ser feitas. As vezes imagino que toda a minha vida foi deixada para acontecer na véspera do final; sempre nos últimos instantes, quando tudo diz que não. Portanto, até o aperto no coração no auge do ato, mantenho-me concentrada em lembrar.
