Quando ando com Maria

Maria fez um ano um dia desses. Quando ela fizer o segundo aniversário, vou continuar achando que o primeiro foi um dia desses.

Há pouco tempo, eu só levava Maria no colo aos lugares, mostrava umas besteiras e ela achava bem legal. Agora, Maria me leva pela mão e me mostra as coisas. Olha isso: Maria descobre as suas próprias coisas e mostra cada uma. Eu fico com a mera tarefa de tomar conta do caminho; besteiras como evitar que ela caia e, se não der, erguê-la para que prossiga.

Maria toma umas 50 quedas por dia, umas bobas e outras desesperadoras. Todos perdem o juízo, e ela nem aí; dor física não mexe muito com aquela criança. Porém, ao sentir-se minimamente ignorada ou contrariada, Maria abre o berreiro e é difícil fazer parar. Tem, aliás, o choramingo mais irritante do mundo, e faz bom uso dele.

Embora às vezes pareça muito com o caos, Maria é, na verdade, a ordem ao caos. Nós, ao redor dela, acabamos quase sempre perdidos diante desse código a decifrar. E eu só espero que ela tenha paciência. Porque eu quero sempre poder andar com Maria.

Sei que a coisa do ficar presa ao “um dia desses” não dá para evitar. Mas eu realmente mal posso esperar para que Maria comece a, não falar, mas dizer. Fico besta imaginando o bocado que ela vem guardando e eu, sempre mais besta, descobrindo tudo o que eu nem fazia ideia.

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