São

“Aquela velha ali me irrita. Não sei bem o porquê, mas gostaria simplesmente que ela não existisse. Coisas pequenas assim têm me irritado, e cada vez menos sei justificá-las; como uma misantropia sólida que tenho de carregar, compreende? E percebo bem a tua cara; que procure tu o significado de ‘misantropia’. Faz alguma coisa da vida. Eu sei bem que aquela velha não tem culpa de nada. Posso vê-la com clareza despertando os ossos pela manhã, persignando-se uma metódica quantidade de vezes, em gestos quase compulsivos. Odeio gente velha; e só te digo isso, nesse tom moderado, porque aqui anda vazio e tu já está acostumado com minhas canalhices. Há qualquer coisa de asqueroso no modo como ela devora aquele pedaço de pão, e o montículo de queijo que resiste na altura do buço; quero removê-lo a pancadas. Sou assim tão mau por irritar-me com uma velha? É como se existisse uma idade a partir da qual tudo tem de ser tolerado num indivíduo, e todas as mazelas poupadas. Pois eu também quero ser tolerado aonde for. Quero ser engolido à secura de uma garganta obstruída, e causar indigestão em todos. Tu não acha que seria bom?”