É possível um banco de dados nacional de cobertura de internet e telecomunicações?

Antes de descobrirmos se é possível, é fácil chegarmos no consenso de que é necessário. Enquanto escrevo, temos mais de 7.260 empresas autorizadas pela ANATEL por todo o país a oferecerem o serviço de internet. Para empresas que estão iniciando suas atividades, até atingirem os primeiros 5 mil clientes não é necessária a autorização da agência governamental para operar. No entanto, temos 80% do mercado concentrado em 6 empresas, sendo duas estrangeiras. Como poderia o usuário brasileiro saber se em seu domicílio ou em seu escritório há outros fornecedores de banda larga além dos nacionalmente conhecidos? Como se pode comprar algo que não se sabe que está à venda?

Destaque do sudeste no mapa https://simet.nic.br/mapas/

Diferente do mercado brasileiro onde mapas de cobertura são tratados como tabu pelos provedores de internet (ISP), fornecedores de trânsito IP (ITP) e as tradicionais empresas de telecomunicações (CSP), no exterior essa informação é divulgada sem constrangimento. Trago aqui alguns exemplos que são um testemunho do quanto nosso mercado está atrasado neste assunto.

  • O ITP Hurricane Eletric expõe em seu site oficial a lista completa de endereços onde tem cobertura em todos os continentes. E a cada novo endereço com cobertura, eles anunciam com clareza no perfil oficial do Twitter da empresa.
  • Dois CSPs que são também ITPs merecem destaque ao terem mapas-múndi elaborados e interativos, como a TI Sparkle (AS6762) e a GTT (AS3257). Note que ambos são celebrados Tier-1, sendo também grandes empresas de capital aberto e presença multi-continental.
  • O ISP da Baía de São Francisco Monkeybrains exibe sem constrangimento o mapa da área de cobertura de sua rede de fibra ótica e rádio-enlace. Trata-se de um provedor regional estadunidense e de capital fechado.

O que aponto aqui não é um caso isolado de nossa cultura empresarial. Não só a área de cobertura é tratada como sigilosa como os preços de produtos e serviços também os são. É muito comum não conseguir encontrar preços nos sites de ISPs brasileiros e empresas de outros ramos, mesmo que atuem com preços tabelados. Meu amigo Fernando Frediani em reflexão chegou a conclusão de que se trata de uma cultura criada nos tempos da hiperinflação e congelamento de preços: uma época que o preço dito ao telefone poderia mudar no tempo do cliente sair de casa e chegar no estabelecimento. Ou o preço que congelado mantinha o produto fora de estoque mas com uma boa conversa e um ágio, ele miraculosamente estava disponível para venda.

Então diante de uma cultura que a oferta do serviço é tratada como segredo industrial e o preço como sigiloso, como estimular ISPs, ITPs e CSPs a divulgarem seus mapas de cobertura, facilitar que o usuário brasileiro comprem serviços destas empresas, aumentando a oferta, a competição pelo cliente e reduzindo o preço? Proponho aqui dois caminhos.

O primeiro seria mostrar às empresas brasileiras e as estrangeiras que aqui atuam os exemplos internacionais de outras empresas que entenderam que em vez de sigilosa, esse tipo de informação é um valioso meio de oferta e venda. E estimular os departamentos de marketing a divulgarem estas informações de forma acessível, via internet, com campos para busca e mapas para leitura. Falando na língua do marketing, o ROI compensa: os ganhos com a divulgação da cobertura superam os eventuais riscos e malefícios.

Algumas empresas mais visionárias adeririam facilmente ao primeiro caminho mas uma adesão parcial à iniciativa não resolve o problema. Para as empresas que temem que estas informações além das vendas gerem malefícios, como vandalismo nos cabos, atrair punições tributárias indevidas, ou sofrer dumping de concorrentes, proponho outra solução: do banco de dados de cobertura armazenado e servido por uma entidade neutra.

Penso em uma organização juridicamente constituída e sem fins lucrativos que celebre um contrato com as empresas de internet e telecomunicações para receber delas as informações geográficas de cobertura e disponibilizar estes dados para consulta dos usuários, sem deixar de protegê-los com todo o sigilo necessário. Semelhante ao site de consulta de qual operadora é um número de telefone celular, esta organização disponibilizaria um site para que os usuários digitem seu CEP e obtenham uma relação das empresas que declararam ter cobertura nele. E caberá esta organização impedir abusos das duas partes envolvidas:

  • Impedir que empresas declarem abusivamente cobertura onde não possuem para aumentar indevidamente sua exposição comercial. Usuários poderão denunciar terem encontrado a empresa listada mas após contato comercial receberam a resposta que não havia cobertura.
  • Impedir que usuários consultem muitos CEPs e façam a raspagem (scrapping) do conteúdo expondo os dados do banco de sem atender os objetivos comerciais dos fornecedores de serviço que participam dele. Essa proteção pode ser obtida por CAPTCHAs ou autenticações de dois fatores.

As empresas que participarem do banco e tiverem sua oferta comercial exposta por ele farão uma contribuição mensal para custeio do desenvolvimento e manutenção da plataforma. Como são numerosas as empresas do ramo de internet e telecomunicações, possivelmente o custo será módico para cada participante.

Cheguei a cogitar quando tive a ideia pela primeira vez a propor ao NIC.br ou ao IDEC exercerem este tipo de papel. Já são ONGs constituídas, de elevada reputação em seus ramos de atuação mas suspeito que as empresas se sentiriam mais confortáveis e receptivas a uma organização de finalidade exclusiva. Por outro lado estas organizações já possuem missões árduas demais para cumprir.

Seja pelo estímulo aos departamentos de marketing das empresas do ramo a divulgarem seus mapas de cobertura ou seja na fundação de uma organização sem fins lucrativos para manter o sigilo e permitir a consulta destes dados, é possível sim criarmos um banco de dados nacional de cobertura de internet e telecomunicações desde que estas minhas propostas cheguem aos ouvidos e olhos dos usuários e do mercado. Nesse sentido, conto com você leitor não só em comentários de melhorias e contra-propostas mas principalmente na divulgação desta ideia a todos que possam interessar. Reunindo um quorum mínimo de interessados, é possível tornar essa proposta uma realidade.