O herói ou a Justiça?

Andre Azevedo da Fonseca
Jun 22 · 3 min read

Estamos chegando ao ponto em que o pessoal vai ter que escolher: ou salvam o Sergio Moro ou salvam a Lava-jato. Defender qualquer um dos dois significa, necessariamente, desqualificar a credibilidade o outro.

Em um país tão polarizado como o Brasil do século 21, poucas coisas são consensuais. Uma delas é o combate à corrupção. Dos isentões aos mais radicais ativistas à esquerda e à direita, ninguém defende a corrupção. O combate à corrupção é uma unanimidade inquestionável.

É verdade que muitos desses discursos são hipócritas: ora, quem não se lembra de políticos enrolados com a Justiça participando alegremente de manifestações de rua contra a corrupção? Mas quando são pegos com a boca na botija, o público é implacável.

Contudo, há diferenças no método.

Alguns pensam de forma institucional. Ou seja, o combate à corrupção deve ser realizado de forma impessoal através do aprimoramento das leis e da Justiça, de modo a garantir um julgamento civilizado. Com isso, o poder judiciário é fortalecido. Isso significa que, para combater a corrupção, é preciso criar e cultivar um organismo independente, isento e imparcial. Esses valores são indispensáveis para que a Justiça tenha credibilidade. Quando muitos deixam de confiar na Justiça, a civilidade se desmorona em barbárie.

Por outro lado, outros preferem o personalismo. Ou seja, em vez de buscar o fortalecimento das instituições, passam a cultuar personalidades, supondo que a ação individual e determinada de um homem ou de uma mulher é capaz de salvar a pátria. “O Estado sou eu”, disse o Rei-Sol. Ao substituir o zelo institucional pelo culto incondicional ao ídolo, tudo passa a ser permitido para combater o mal. Inclusive desrespeitar as leis que garantem a justiça. O herói sagrado pode tudo: inclusive arruinar a credibilidade do sistema judicial.

Por isso, quando alguém se dispõe a manipular a emoção do público através da encenação da figura de um herói salvador, todo o sistema é prejudicado. Essa simplificação, útil para projetos pessoais de poder, corrompe todo o sistema.

Moro esteve por muito tempo embriagado por aplausos incondicionais. Em vez de agir com discrição, optou pela soberba. A série de reportagens da Intercept demonstra que ele desonrou princípios fundamentais que garantem a credibilidade da Justiça. Não é à toa que a Justiça está desacreditada.

Mais do que soberba, ao se vangloriar com o cargo de Ministro de Justiça no governo de extrema-direita do truculento Jair Bolsonaro, ex-juiz demonstra traços de maquiavelismo. Ao herói, tudo pode, mesmo que a credibilidade da Justiça seja colocada em xeque por sua ambição.

A obsessão de Moro pelo poder está corrompendo a Lava-jato. O chefe a quem ele serve, um homem que defende a tortura, celebra a ditadura e presta homenagem às milícias, não tem histórico de defender a democracia. Ao contrário: Bolsonaro sempre aplaudiu a violência e o arbítrio.

Mas é preciso ficar claro que a obsessão de Sérgio Moro pelo poder tem um custo: o absoluto descrédito do poder judiciário. Quem confia em um sistema que admite uma anormalidade de forma tão aberta? Ou melhor, que diz que é normal um conluio tão explícito?

O combate à corrupção é uma unanimidade nacional. Qual caminho será traçado: o sacrifício do herói para salvar a Justiça, ou o sacrifício da Justiça para salvar o herói? Qual crença vai vencer: a crença no herói ou a crença na Justiça? A ver.

Andre Azevedo da Fonseca

Written by

Professor e pesquisador no Centro de Educação Comunicação e Artes (CECA) da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

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