Quando a boca cala, o corpo fala

azurA
azurA
Aug 8, 2017 · 3 min read

“Tão estranho carregar uma vida inteira no corpo, e ninguém suspeitar dos traumas, das quedas, dos medos, dos choros.” (Caio Fernando Abreu)

Muitos de nós estamos acostumados a guardar nossas emoções e não externalizá-las. Nos foi ensinado que é errado nos expormos, que as pessoas não gostam de indivíduos fracos (perpetuando o conceito errôneo de fraqueza) e que os outros não têm disponibilidade para ouvir. Com tempo perdemos a habilidade de falar o que pensamos e por isso paramos de refletir sobre o que sentimos. Deixar para lá seria realmente a melhor opção?

Ao longo dos anos atendendo, desde a época de estágio, me deparo com pacientes que possuem extrema dificuldade ao entrarem em contato consigo mesmos e simplesmente não conseguem identificar questões básicas a respeito do próprio funcionamento, gerando extrema aflição. O processo de cura pela fala pode até ser mais demorado (e doloroso) do que apenas ingerir medicação, no entanto os efeitos se perpetuam na vida do sujeito proporcionando maior clareza e bem estar.

Quem nunca sentiu manifestações físicas quando está triste, estressado e precisando desabafar que atire a primeira pedra. A somatização atinge até os mais bem resolvidos e o trabalho de autoconhecimento é essencial para o desenvolvimento de uma vida com mais qualidade. Converse mais, se abra mais e não tenha medo de revelar o seu verdadeiro eu. Todos estamos enfrentando batalhas sobre a qual você não sabe nada a respeito e justamente por isso cada um coleciona uma série de cicatrizes que faz parte da nossa história e nos torna únicos. Não tenha vergonha das suas.

Na era do Facebook e Instagram, onde todos são aparentemente felizes e bem sucedidos, evitamos expor nossas fraquezas enquanto nos afundamos tentando atingir um patamar de plenitude que não é real o que é deveras sofrido. Tire alguns minutos para pensar em todas as coisas não ditas que você engoliu. Aposto que a sensação que veio nesse momento não é boa. Escondemos os incômodos e entramos no jogo de fingir que está tudo bem, quando na verdade está tudo bem não estar bem. E está tudo bem que os outros saibam. É o que nos torna humanos.

Não é sobre contar para todos a respeito dos seus problemas, mas sim se permitir sentir, aceitar suas limitações e buscar refletir as questões que machucam. A mudança só é possível quando entendemos o processo pelo qual estamos passando. E se precisar, fale. Guardar as frustrações não contribui para a evolução de ninguém: nem na sua e nem de quem precisa ouvir. Seu medo de se mostrar não pode ser maior que a vontade de evoluir. Quando a boca cala, o corpo fala, mas quando a boca fala, a alma sara.

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