MATO, ÁCIDO E TRANCE, a sinestesia na cultura musical eletrônica

Bruna Lie
Bruna Lie
Jun 28, 2016 · 7 min read

Bruna Lie, Heloir Schwaickardt, Lucas Daniel e Nasser Pena

*Escute as músicas enquanto lê cada secção da reportagem

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A humanidade, desde os seus primórdios, manifesta os mais diversos tipos de espiritualidade. Em grande parte das vezes, essa relação está fortemente envolvida com elementos da natureza e da cultura. Na década de 60, o movimento americano hippie, de contracultura, foi um marco para as artes de modo geral. A partir de uma perspectiva contra hegemônica da cultura, os hippies se permitiram experimentar novas maneiras de vivenciar a arte e a espiritualidade. Junto a isso, o mundo da música se revolucionava cada vez mais com os instrumentos eletrônicos. Os sintetizadores já eram personagens conhecidos em muitas festas e os samples, fragmentos de músicas ou de sons gravados, já funcionavam como base para a experimentação musical. Também, foi no movimento de contracultura hippie, que as drogas alucinógenas ganharam o mundo.

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Esse era o contexto ideal para o surgimento de uma nova cultura musical. E foi o que aconteceu. Mas, outro personagem foi fundamental nessa história, o oriente. Foi somente a partir do contato do ocidente com o oriente que a cultura da música eletrônica se fundamentou. Foi por meio da fusão das tecnologias de mixagem musical com a cultura espiritual e mística oriental, principalmente a indiana, que surgiu uma nova filosofia de vida e, junto com ela, elementos que a estruturam, como gêneros musicais e festivais. Música eletrônica, ambiência espiritual e drogas alucinógenas, uma combinação que transpassa o conceito de sinestesia, que eleva a experiência sensorial a novos patamares. É essa a jornada que começaremos aqui e que não sabemos onde chegará. Experimente!

A ONDA

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Boca seca, euforia, suor frio, agitação, visão turva, distorção das imagens, alucinações. Esses podem parecer sintomas de alguma doença. Não, são efeitos do uso de drogas alucinógenas. LSD, doce, papel, ou, cientificamente, dietilamida do ácido lisérgico, é provavelmente a droga mais consumida nos festivais de música eletrônica.

Isso não acontece por acaso. O LSD é uma droga que tem efeito variado, ou melhor, seus efeitos dependem de algumas variáveis, em especial, o corpo e o ambiente. “No caso do LSD, uma sensação de bem estar, as vezes algumas visões distorcidas e o ecstasy, uma sensação de amor e euforia.”, essa foi a resposta do estudante Gabriel Froede, quando questionado sobre os efeitos das drogas que já fez uso.

Outro usuário, Lucas Manfrim, , disse que sua motivação para o uso desse tipo de droga se dá pela busca de “energia para conseguir passar várias horas dançando sem sentir o cansaço, e o aumento das sensações”. Ele ainda complementa, “a música, sem o efeito das drogas, já provoca sensações maravilhosas no organismo. E a utilização dos psicoativos, especialmente do LSD, aumenta radicalmente a percepção dessas sensações”.

No entanto, ter “o barato” não é garantido ao fazer uso dessas drogas. Diversos estudiosos afirmam que elas possuem a capacidade de modificar o sistema nervoso central de diversas maneiras. Segundo o pesquisador MacRae, desde os primórdios da idade média, distintas substâncias são utilizadas para diferentes finalidades, tais como: êxtase místico, prazeroso, lúdico e até curativo. É com esse pensamento que as pessoas buscam fazer uso dessas substâncias nos festivais de músicas eletrônicas.

O DJ Kim Peace, da cidade de Uberlândia, afirma que pessoas buscam nas drogas um plus para curtir a música. “Existem sim pessoas que usam essas drogas, tipo o LSD que mexe mais com a onda visual da pessoa, a onda mais espiritual. O ecstasy, mexe mais com a aceleração e o ‘beck’, que é a maconha, dá aquela onda mais de relaxamento”. No entanto, para o DJ, a relação das drogas com os festivais musicais não é de complementariedade, “a gente não pode generalizar que a droga mexe 100% com o sentimento e as sensações da pessoa com a música. A pessoa que geralmente vai para um festival não vai com o foco na droga, vai com o foco na música”.

A VIBE

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Um aspecto fundamental para a cultura da música eletrônica é a ambiência dos festivais. Esses eventos não chamam a atenção de um público apenas pela música. Cores, ornamentação, natureza, cheiros, são fortes elementos para a composição visual de um festival ou uma festa rave. Cada detalhe é pensado para que a experiência com a música transborde a audição e possa alcançar outros sentidos, como a visão, o olfato e o tato.

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De acordo com o DJ Kim Peace, “a composição ambiental é pensada sempre um ano antes do festival ou da rave, e é sempre próximo a natureza. Existe um preparo para a estrutura do evento complementar a sensação da música. Cada festival é preparado de uma forma diferente, os organizadores pesquisam muito tipos de decoração fora do país, buscam coisas diferentes para colocar dentro do festival, se é uma coisa mais psicodélica ou se é uma coisa mais natureza. Chegando a usar a própria natureza como ferramenta de decoração”.

O clima bucólico desses eventos é propositalmente pensado. Cachoeiras, rios, lagos, praias, fazendas, são todos cenários onde ocorrem os mais importantes festivais do segmento eletrônico. Mas, além dos ornamentos, os próprios participante são responsáveis por tornar o ambiente dos festivais mais agradável, como afirma Eloísa Misturini, coordenadora de comunicação do festival de renome nacional Psicodália : “O ambiente é construído pelas pessoas que frequentam o festival, e essas são bem abertas a conhecerem novas culturas, novas bandas, novas pessoas, e essa é uma característica bem interessante que acompanha o festival ao longo de todos esses anos. O festival já ocorreu em vários lugares diferentes e sempre teve uma energia muito legal.”

A batida

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Tum. Tum tum. Tum tum tum. Não é um tique, muito menos um cacoete. Essa é uma representação da estrutura básica das músicas eletrônicas, a batida, ou BPM (batidas por minuto). No caso do trance, um dos principais gêneros da música eletrônica, o tempo dessa batida está entre 130 e 190 bpm, somado a isso, arranjos melódicos sintetizados e um desenvolvimento progressivo da música. Voilá, a receita básica para um bom trance.

Como diria o cantor brasileiro Marcelo D2, a busca da batida perfeita, no caso eletrônica, perpassa vários gêneros e subgêneros. Graças a uma inciativa de um grupo canadense denominado Ishkur, existe um guia temporal (em inglês) do surgimentos desses gêneros e subgêneros da música eletrônica. Acesse.

Para o DJ Kim Peace, um importante fator na hora criar um set musical é conseguir passar sentimentos por meio das músicas, “eu coloco músicas que tem a ver mais com o meu sentimento, músicas que sei q as pessoas vão sentir a mesma coisa que eu senti quando escutei”. É muito fácil conseguir levar os ouvintes do trance a outras dimensões. A estrutura musical desse gênero junto ao ritmo progressivo podem causar até mesmo um estado de transe. O foco dessas música não está na estrutura semântica, pois, os vocais são escassos. No entanto, o ponto alto está na relação sensorial, no estabelecimento de conexões entre a sonoridade e a diversidade de sentimentos e sensações que permeiam a ambiência física e psicológica dos festivais.

O Universo

A onda, a vibe e a batida. A droga, o ambiente e a música. Sinônimos à parte, esses três elemento contribuem para a formação de um modo de viver, sentir e se comunicar, uma diferente cultura, a da música eletrônica. Um universo inteiro de possibilidades dentro do corpo humano. Sinestesia, essa é a palavra que melhor define esse universo. Audição, olfato, tato e visão se misturam, se confundem, mas não se anulam, pelo contrário, se complementam.

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Perscrutar esse universo é se despir de preconceitos e demagogias. É permitir-se experimentar, sentir, viajar (por que não, na maionese?), interagir. Fronteiras espirituais e barreiras mentais são quebradas, ao passo que laços de amizade e fraternidade são construídos. É nessa toada que o DJ Kim Peace finalizou sua entrevista: “Todas as pessoas que saem da sua casa, que saem do seu conforto e vão para um festival, vão por causa da ligação que têm com a música. Por isso a gente fala que hoje no trance existe a ‘família trance’. Então, o que importa é que o trance é uma família que veio pra unir as pessoas”.

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