A Chuva Que Cai
Não havia ninguém na rua quando o céu escureceu
E, de repente, não havia mais nada a se fazer
O barulho ensurdecedor do vento correndo pelas janelas das casas
-abertas, arreganhadas, desprotegidas-
Foi o que lhe restou
E, sem qualquer aprestamento ou amanho,
Eu me tornei a chuva que cai
A chuva que cai
A chuva que cai
Os dez minutos se arrastaram
Pelo que pareceram horas e mais horas a fio
Ouvidos tapados, resfolegando o desmerecido oxigênio
Eu me arrastei pelos prédios e construções
Me embrenhei, tímida mas furiosa, entre galhos de árvores
Espojei a terra mole e matei pequenos animais
Eu me tornei a chuva que cai
A chuva que cai
A chuva que cai
Permito que outras gotas caiam sobre mim
Formando poças, me derruindo
Alimentando plantas e raízes
Nutrindo quaisquer sonhos da atmosfera poluída
Deixando para trás sonhos, sais e minerais
Pois eu sei que logo abraçarei a plenitude de ser o que sempre quis ser
De me tornar a chuva que cai
A chuva que cai
A chuva que cai