Mais um daqueles dias
— Tenta só mais uma vez, tudo bem?
— Mas eu vou acabar caindo.
— E daí? Levanta e tenta de novo.
— E daí que eu vou me machucar, e vai doer.
— Se você conseguir eu prometo que encho uma porção de balões e prendo eles na sua bicicleta. Quem sabe ela até saia voando.
— Quem sabe tenha um cachorro falante lá em cima também.
— É, quem sabe.
— Para de falar idiotice e me ajuda aqui.
— Escuta, por que não vai empurrando a bicicleta até chegarmos em um lugar mais plano?
— Pode ser. Quer ir mesmo por esse caminho?
— Quero sim. Talvez eu veja algum rosto familiar.
— Acho que a única coisa familiar aqui é o cheiro de maconha.
— Esse cheiro ‘tá espalhado pela cidade, é impossível não se familiarizar.
— Você acha um cheiro bom ou ruim?
— Não sei se posso opinar. Você quer saber sobre o cheiro da cidade, ou…?
— Independente de qual seja o cheiro da cidade, talvez ele sempre seja um cheiro bom. É o cheiro da sua cidade.
— Quem sabe seja um cheiro neutro.
— É outra forma de se ver.
— Mudando de assunto, eu sonhei com uma garota hoje. Acho que foi você.
— Sério? E como foi?
— Sinceramente, não lembro muito bem. Não me lembro nem o nome dela.
— Mas você disse que era eu.
— Disse que achava mas, na verdade, não sei bem quem é.
— Que estranho.
— Foi só um sonho, melhor não pensar muito sobre isso.
— Acho que esse é mais um daqueles dias onde tudo parece meio estranho.
— Talvez seja.
— Por que não paramos um pouco aqui? Não quero mais andar de bicicleta.
— Você nem chegou a subir nela.
— Para de ser idiota e senta aqui de uma vez.
— Eu queria muito ir em um carrossel, mas nunca me deixam subir nele.
— Pela altura?
— Pela altura.
— E qual a graça de um carrossel?
— É uma boa analogia à nossa vida. Sobre como nós giramos e giramos e nunca saímos do mesmo lugar.
— Carrossel me dá enjoo.
— Ficar correndo atrás das mesmas coisas é enjoativo mesmo.
— Do que estamos falando mesmo?
— Acho que de nada.
— Você anda tão singular hoje.
— Talvez por eu ser uma única pessoa apenas.
— Dá pra você passar um segundo sem ser completamente idiota?
— Parece que não.
— É, parece.
— Hoje eu encontrei aquele cara que riu do meu nome na aula de Química.
— Sério, e aí?
— Ele ‘tava chorando. Chorando muito. Achei estranho e curioso.
— Por que?
— Eu chorei quando ele tirou sarro do meu nome. Queria saber porquê ele ‘tava chorando agora.
— Quem sabe? Talvez sejamos todos iguais?
— Acha que alguém tirou sarro do nome dele?
— Não foi isso que eu quis dizer.
— O que quis dizer então?
— Que todos temos sentimentos.
— Acho que você tem um ponto.
— Claro que eu tenho.
— Ah! Sobre o sonho, eu lembrei de uma coisa.
— O quê?
— Aquela garota beijou meu rosto, bem na bochecha. Bem de leve.
— Que carinhosa.
— Agora eu ‘tô com a sensação de que foi real mesmo.
— Talvez ela tenha, realmente, te visitado no seu sonho.
— Para de dar risada, vai.
— Pois é, esse dia ‘tá realmente estranho.
— Eu só sei que, se ela aparecesse, eu carregaria ela por aí nos meus ombros.
— Como se você conseguisse.
— Oras, eu sou bem forte! Olha só os meus músculos.
— Aham, aham.
— Eu a carregaria nas costas colina acima e desceríamos rolando até lá embaixo. Nos sentiríamos como crianças pra sempre.
— Que romântico.
— Mas acho que, agora, eu só posso me sentir só. Sinto meus braços tão… Vazios.
— Suas palavras têm um tom tão apaixonado.
— Acho que sim… Fico imaginando o corpo dela enroscado ao meu, e meus dedos enroscados no seu cabelo. É uma pena eu não lembrar nada sobre ela. Nada além de sua aparência ser incrivelmente parecida com a sua.
— Isso já não é meio caminho andado?
— Pode parecer fácil, mas eu acho que estou com medo demais…
— Medo de que?
— Eu vi essa garota nos meus sonhos, mas eu acho que ela não me ama.