O sonho dourado vai chegando ao fim na montanha que sangra

O drone da Secretaria de Segurança constatou a presença de 2,5 mil garimpeiros ao sobrevoar a serra da Borda — mas não captou a esperança quase morta que paira no ar

Bruno Abbud
Aug 8, 2017 · 25 min read
Garimpeiro trabalha a 40 metros de profundidade na Serra da Borda, município de Pontes e Lacerda, em Mato Grosso (Foto: Ednilson Aguiar)

Reportagem publicada originalmente no site O Livre, em abril de 2017.

Eles chegam ao garimpo de carona. Antes de pegar a estrada de terra que leva à serra da Borda, a 40 quilômetros de Pontes e Lacerda e a 480 quilômetros de Cuiabá, saltam de algum ônibus velho com a camisa aberta até a barriga, o boné torto e barato inclinado sobre a testa, calça e sapatos surrados. Vêm do Pará, Maranhão, Rondônia, Amazonas, Goiás ou de algum outro rincão do estado. São quase todos pobres, embora alguns poucos tenham ficado muito ricos. Uns vão procurar ouro diariamente, depois voltam para dormir na cidade. Outros nunca deixam o lugar.

Eles moram em barracas de camping montadas sob tendas de plástico, dormem em redes embaixo de goteiras geladas que escorrem sobre a testa, molhados e hipotérmicos. Nas manhãs de sábado, costumam despertar ao lado de prostitutas seminuas deitadas em colchonetes estendidos sobre o chão da floresta. Eles se metem no meio do mato para caçar macacos e jabutis. Comem queixadas, pacas e o que mais cair na arapuca. Engolem as frutas da mata e serram as árvores para escorar o túnel quente e profundo do garimpo com a madeira desmatada — uma estratégia para que o peso da montanha não desabe em cima de suas cabeças.

Eles trabalham a 40 metros da superfície. Às vezes, 60. Respiram com a ajuda de ventiladores, suando a 35 graus centígrados. Quando estão embaixo da terra, a comunicação com o mundo exterior acontece por um cano oco e longo de borracha preta — o telefone dos garimpeiros. São dotados da coragem de quem não tem escolha. Cumprem expediente em turnos de 12 horas no coração da montanha, iluminados por lâmpadas improvisadas das 6h às 18h e vice-versa. “Lá embaixo, se você risca o isqueiro, o fogo sobe”, disse um deles, ao explicar a falta de oxigênio que vigora no escuro das profundezas. Alguns adquiriram doenças respiratórias por conta da longa exposição ao pó. Outros desenvolveram uma espécie de claustrofobia que os afastou dos trabalhos subterrâneos.

(Foto: Ednilson Aguiar)

Quando estão na superfície, carregam maços de dinheiro nos bolsos, baldes de pedra, sacos de terra e ferramentas pesadas sobre os ombros. São jovens e velhos, uma maioria de homens, que esperam um futuro melhor, fazem planos sem convicção e entornam latas de cerveja antes do café da manhã. Eles têm os dedos grossos e calejados, a pele curtida pelo sol e pela lama. Se nem sempre são largos e parrudos, são sempre fortes e desconfiados. Nunca querem ser filmados (embora não se importem de falar sobre o passado). São seres desprendidos e incansáveis que fumam cigarros curtos enrolados em folhas de caderno enquanto repetem a rotina de escavar a montanha à procura das fagulhas douradas pulverizadas entre as rochas — o primeiro sinal de que a massa de ouro está perto.

Às 6h21 do dia 18 de março, um sábado, eram quase 3.000 os garimpeiros que circulavam como formigas sobre (e sob) as terras que recentemente ganharam a alcunha de “Nova Serra Pelada”, numa referência ao maior garimpo a céu aberto do mundo, explorado nos anos 1980 em Curionópolis, no Leste do Pará. O de Pontes e Lacerda não chega a tanto, ao menos no tamanho.

Com uma área geográfica que se estende da planície ao cume de um dos morros que compõem a Serra da Borda — ou Serra do Caldeirão — , o garimpo preenche os fundos da fazenda de Sebastião Freitas de Azambuja, irmão do ex-deputado estadual Carlos Antonio de Azambuja. Um dos garimpos ilegais mais movimentados da atualidade, está dividido em duas partes. Há o “pasto”, uma área plana que precede a subida da serra e de onde os garimpeiros mais pobres retiram o chamado “reco”, sacos de terra que, depois de peneirada, pode render alguns gramas de ouro. E há o “buracão”, no alto do morro, onde só os mais poderosos, cheios de maquinários e geralmente bancados por financiadores externos, podem explorar. Os que nada encontram seguem cheios de fé e esperança, e os que acham muito ouro permanecem quietos e sérios — passam despercebidos. Os mais poderosos encomendam dinamites, geradores, britadeiras e detectores de metal. Fazem gambiarras elétricas e instalam bombas de sucção que sugam a água da chuva e diminuem o risco do desmoronamento.

Eles mantêm aceso o comércio da cidade, principalmente o de combustível e bebidas, porque os geradores são movidos a diesel, e o sonho muitas vezes se perpetua à base de álcool.

Tem sido difícil controlar a circulação de garimpeiros na fazenda de Azambuja. Desde setembro de 2015, houve quatro invasões — e por três vezes a área foi retomada a mando da Justiça Federal. No início, a foto de um gigantesco bloco de ouro que percorreu a internet levou mais de 7 mil pessoas a invadir a área. “Mas aquilo era notícia falsa”, avisa Sebastião Dantas, 57 anos, que pertence ao grupo dos mais pobres.

Desde que nasceu até completar 31 anos, Sebastião acordou diariamente às 2 horas da madrugada para ordenhar as vacas da família, cujo leite ia parar nas mãos do leiteiro às 6 horas, em Araguatins, no Tocantins. Talvez por isso não tenha sido difícil madrugar, por tantas vezes, na companhia de colegas garimpeiros que invadiam fazendas alheias durante a noite, carregando picaretas e marteletes, uma caminhada que se estendia por oito quilômetros mata adentro. No fim do dia, escondiam as ferramentas na floresta e se embrenhavam no cerrado para encontrar um caminho discreto de volta à cidade.

Colega de Sebastião peneira a terra em busca de ouro (Foto: Ednilson Aguiar)

Sebastião é um homem franzino, encurvado, que conversa em voz baixa e tem o rosto riscado pelas marcas do tempo. Ele conta que foi um dos primeiros garimpeiros a chegar à região. Começou a buscar ouro em março de 2014 nas terras do fazendeiro Celso Luiz Fante, vizinhas à fazenda de Azambuja. “Éramos oito no começo”, disse. “Depois, uns cinquenta”. Um ano depois, a movimentação começou a aumentar nas terras ao lado, e Sebastião migrou. Hoje, para sustentar a mulher e os dois filhos, ele acorda às 5 horas e espera uma carona para o garimpo em um posto de gasolina às margens da estrada de terra batida que leva à serra da Borda, com as roupas surradas, o boné torto e barato lhe caindo sobre a testa. Da areia que leva para peneirar em casa, consegue tirar o sustento da família. “Dá para fazer uns oitocentos real por mês (sic)”, diz.

Sebastião ainda não sabe, mas sua fonte de renda pode estar perto do fim. A Secretaria de Segurança Pública prepara uma quarta reintegração. “Estamos debatendo com a Polícia Federal e os ministérios públicos estadual e federal para saber se haverá uma nova reintegração de posse”, disse Jarbas, no fim de março. Segundo ele, integrantes da coordenadoria de inteligência do Ministério da Justiça e da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) também participam das reuniões. “Constatamos 2500 pessoas no garimpo”. A constatação, segundo o delegado regional de Pontes e Lacerda, Rafael Scatolon, de 33 anos, surgiu da análise de imagens aéreas feitas por drone. “Estamos fazendo o monitoramento do local e todas as informações que nos chegam estão sendo repassadas à diretoria de inteligência da Secretaria de Segurança Pública”, disse ele. “Nós fizemos um sobrevoo com drone esses dias, foram captadas algumas imagens para que pudesse ser comunicada à Secretaria de Segurança Pública essa nova ocupação dos garimpeiros”.

A partir das imagens aéreas, Jarbas decidiu, na semana passada, iniciar operações de controle de entrada e saída no local. “Nós estamos reforçando a atuação no entorno do garimpo porque há um risco muito grande de acidente”, afirmou ele, no último domingo, 23. No dia seguinte, policiais civis e militares iniciaram barreiras na estrada que leva ao garimpo. “Vimos que estava subindo muito maquinário, sem qualquer estrutura e sem qualquer capacidade técnica. As pessoas entram nesses túneis que não têm qualquer tipo de sustentação e podem ceder, ainda mais no período de chuvas”. Segundo o secretário, o risco de desmoronamento é grande e o desmatamento aumenta diariamente — mas ainda não há planos para a reintegração de posse. “Estamos fazendo um levantamento para verificar se vai ou não ocorrer a retomada da área”, informou. “Estamos analisando a viabilidade da intervenção imediata e quais medidas adotar para evitar que uma nova grande invasão ocorra, só preciso de um pouquinho mais de tempo”.

(Foto: Ednilson Aguiar)

No alto da Serra da Borda, enquanto o som das motosserras ecoa pela mata, o jovem Edenilson, de 18 anos, aguarda sentado o almoço que os colegas preparam em um fogão à lenha improvisado sob uma lona preta. “Em 2014, encontraram 80 quilos de ouro no filão (espécie de riacho que corre entre as fendas da montanha)”, conta, enquanto fuma um cigarro grosso e fedorento. Edenilson veio de Machadinho D´Oeste, em Rondônia, e está há dois anos no garimpo. Busca o ouro para quitar a faculdade de engenharia mecânica que sonha cursar em Cuiabá. “É um jeito de fazer dinheiro fácil e rápido”, diz, no que é reprimido por um colega mais experiente: “Mas é também um jeito de fazer dinheiro nenhum”, decreta Francisco das Chagas, 32 anos.

Francisco das Chagas, 32 anos, ex-operário na Usina Hidrelétrica de Santo Antônio, em Rondônia: há um ano sem encontrar ouro na Serra da Borda (Foto: Ednilson Aguiar)

Francisco está há um ano cavoucando a terra na serra da Borda. Em um ano, nada encontrou. Há cinco anos, perdeu o emprego de vibradorista na Usina Hidrelétrica Santo Antônio, em Rondônia, deixou em Porto Velho a mulher, a filha de dois anos e uma dívida de R$ 12 mil em contas atrasadas. Chegou ao garimpo à procura de renda. “Minha mulher me deixou porque eu não mandava dinheiro”, contou Francisco, que em um ano conseguiu tirar R$ 2 mil da terra. “Tinham 7.000 garimpeiros aqui, se 1.500 pegou ouro foi muito”.

Para tirar ouro mesmo, é preciso de no mínimo 40 homens para um buraco, conta Francisco. Bancado por um fazendeiro, ele hoje lidera uma equipe de 30 garimpeiros que trabalham diariamente. O financiador dá a eles comida, escovas de dente, remédios, panelas e ferramentas — e em troca pede 20% de todo o ouro que encontrarem, para pagar as despesas. O resto é dividido em partes iguais. O homem que contratou Francisco e seus 29 colegas de trabalho gastou cerca de R$ 100 mil em um ano e poucos meses. Até agora, o investimento não garantiu nem um grama de ouro. Mesmo assim, o número de caminhonetes Toyota Hilux é expressivo no garimpo. Na manhã daquele sábado, 18 de março, havia mais de 20, estacionadas em fila. Na maior parte, pertencem a fazendeiros da região que investem na caça ao ouro. Uma jornada cada vez mais infrutífera, conclui Francisco. Segundo ele, a maior parte do ouro foi retirada no começo, lá em 2015. Atualmente, a floresta se converteu numa imensa clareira de terra vermelha e lisa. Sem a absorção natural da mata, as águas da chuva escorrem pelos buracos como o sangue da serra perfurada, formando uma cachoeira que lava o morro do topo ao pasto. Às vezes, sobra algum ouro na corredeira. Na maioria das vezes, não aparece nenhum.

Os donos do ouro

Como um pedreiro tímido e um diarista inconsequente inauguraram o mais movimentado garimpo ilegal da atualidade

(Foto: Ednilson Aguiar)

No fim de 2014, enquanto Sebastião Dantas e seus colegas garimpeiros passavam o dia perfurando as terras do fazendeiro Celso Luiz Fante, o morro vizinho, que integra a Serra da Borda, ainda era um manto de floresta que repousava quieto sobre toneladas de ouro. Até então, ninguém sabia disso. O barulho das máquinas só começou depois que um pedreiro tímido de Pontes e Lacerda saiu para trabalhar num local próximo e acabou descobrindo a notícia. Voltou para a cidade determinado a encomendar um detector de metais de Cuiabá. Três dias depois, encontrou o almejado metal precioso. Em menos de um mês, 500 garimpeiros exploravam o local.

Situada nos fundos da fazenda da família Azambuja, a área que chegou a comportar 7 mil homens agora é cortada por uma estrada de terra vermelha que dá acesso ao cume, onde fica o “buracão” — a parte nobre do garimpo. É por ela que Sebastião, três anos de labuta naquelas paragens, vai caminhando a passos curtos na manhã do último 18 de março, um sábado, logo depois de agradecer a carona e deixar o carro apressadamente. Em poucos minutos, lá está ele, aos 57 anos, escalando um amontoado de pedras e água. Alcança seu pedaço, cumprimenta um companheiro, apanha uma enxada e começa a escavar o chão. “Tem um povo que não gosta que filme aqui, não”, diz. “Ontem mesmo tomaram a câmera de um fotógrafo”.

Alguns metros acima, olhares de estranhamento. “Melhor vocês falarem com o chefe”, sugere outro garimpeiro. “O homem que manda é o Manéu”, confidencia. “Segue reto, você vai ver a única tenda que tem televisão. É a dele”.

Barracas improvisadas tomam parte da Serra da Borda (Foto: Ednilson Aguiar)

Mais adiante, dezenas de barracas de madeira e lona enfileiram-se dentro, fora e ao redor de uma cratera de cinquenta metros de diâmetro. Um rombo marrom na selva verde. Alguns homens comem sentados, outros sobem e descem carregando alviões e barrotes, dirigem caminhonetes, pilotam britadeiras, puxam baldes de terra de túneis verticais escuros. Nada de televisão. Ninguém conhece Manéu.

A poucos metros de distância, entretanto, alguém se manifesta. “Quem quer saber?”, pergunta um homem negro, de estatura baixa, com um chapéu largo de palha sobre a cabeça e uma lata de cerveja na mão. “Manoel, Manéu, Manelzinho, tem vários aqui. Tem um monte. Eu sou Manoel. Ele é Manoel. Aquele ali é Manoel. Que Manoel você quer?”, completou, impaciente, apontando pessoas aleatórias.

Ele bebe desde a noite passada, porque a noite passada foi noite de sexta-feira. Conversa com dois amigos em frente a uma espécie de mercearia que serve ao mesmo tempo de bar e banco. No bar, a geladeira desligada, deitada na horizontal e repleta de gelo, serve de freezer e mesa. No banco, a caixa de ovos manuseada por um homem cego de um olho que troca ouro por dinheiro — ou por comida — serve de caixa registradora. Manoel quer saber quem somos, de onde viemos, se somos da Polícia e pede para ver nosso crachá. Quase duas horas de negociação depois, aceita conversar e mostrar o garimpo.

A prostituição e o garimpo (Foto: Ednilson Aguiar)

Manoel, 33 anos, não revela o sobrenome, mas confessa ser conhecido como “Neguinho do ouro”. “Recebi o apelido das pessoas que ganharam dinheiro através de mim”, conta. “Dava sacos de terra que, na hora de peneirar, rendiam mil, quinze mil. Teve gente que conseguiu dezoito mil reais. Como o único neguinho que estava dando saco de terra era eu, ficou Neguinho do ouro. Quem deu ouro? Neguinho. Que neguinho? O Neguinho do ouro”.

Na Serra da Borda desde o primeiro semestre de 2015, Manoel conta que foi convidado pelo homem que descobriu o garimpo, um sujeito cujo nome era Johnny. “Nós chegamos aqui por meio de amigos”, diz. A voz esganiçada conta mais detalhes da história: “Todo mundo tinha vontade de ficar rico e a gente também. Então viemos buscar essa ilusão”. Não era ilusão.

Manoel diz ter feito fortuna com garimpo: “Comprei caminhonete, viagem, cachaçada, rapariga” (Foto: Ednilson Aguiar)

Nascido em Várzea Grande, “filho de um comedor de peixe com maxixe”, como gosta de se definir, Manoel aprendeu a garimpar aos 15 anos com o pai, ex-garimpeiro. Aos 18, encontrou ouro pela primeira vez. “Achei uma pepita de doze quilos”, diz. “Deu três quilos e meio para cada. Pergunta para o pessoal do nosso grupo, ninguém gosta de falar”, continua. “Uns acham que é mentira, mas não. Um era leiteiro, outro pescador, outro roçador, carpinteiro, o único garimpeiro era eu”. Manoel está bêbado, as palavras vão jorrando da garganta. Dois anos mais tarde, em 2004, ele jura ter descoberto mais ouro, desta vez na Serra Dourada, em Goiás. “Fiz R$ 7 milhões lá. Comprei caminhonete, viagem, cachaçada, rapariga. Tinha duas Hilux na garagem. Falava: ‘Vamos para a praia? Vamos’. Se falasse: ‘Ah, não tenho dinheiro, eu dizia: ‘Você vai comigo, toma, cinquenta mil aqui, ó. Vamos embora”.

Manoel credita a boa sorte a uma superstição que parece valer para todos os garimpeiros: a de que a ostentação de hoje garante o ouro de amanhã. “Quanto mais o garimpeiro ganha, mais ele gasta, e quanto mais você gasta o que ganhou, mais ouro vem no futuro”, resume. “Quando estava acabando o meu dinheiro, eu achava mais ouro. Acabou o dinheiro, achava 500 mil. Acabou o dinheiro, 350 mil. Acabou o dinheiro, mais R$ 800 mil”.

“Quanto mais o garimpeiro ganha, mais ele gasta, e quanto mais você gasta o que ganhou, mais ouro vem no futuro”

Ele continua a seguir sua crença. “Garimpeiro não vive de ilusão, vive do ouro”, afirma. “Gastei tudo o que tinha. Aí fui lá e peguei mais, o dobro. Falei ‘Jesus, não mereço isso tudo, não’. Fui lá, trepei no ouro de novo. Falei ‘meu Deus, isso não é justo comigo não, meu pai’. Fui lá e… ouro de novo”.

Na Serra da Borda, ao que tudo indica, não foi diferente. “Não fui o cara que pegou mais ouro aqui”, conta. “Mas fui um dos caras que pegou um pouco de ouro”. Segundo Manoel, as primeiras pepitas começaram a surgir ainda em 2015, em um túnel de 40 metros no alto do morro, onde o solo é composto de rocha — o que significa que, manualmente, só é possível escavar meio metro por dia. O dinheiro da venda do ouro foi repartido entre a equipe, formada por cerca de 30 garimpeiros. Manoel comprou outra caminhonete Hilux — e ficou famoso no garimpo por ter batido o carro em seguida. Perda total. “Teve uns que compraram fazenda, outros casa, eu comprei uma Hilux, bati a Hilux, mas nem por isso deixei de ganhar dinheiro de novo”, garante. “Conquistei casa, glamour, luxo, ostentação, mulherada, muitas e muitas mulheres”. Na opinião dele, contudo, se engana quem fala em dinheiro fácil no garimpo.

Vida subterrânea: garimpeiros que integram time de Johnny procuram ouro no coração da montanha (Foto: Ednilson Aguiar)

Há vários jeitos de escavar a terra. O mais seguro é começar na diagonal e seguir quase horizontalmente por um longo trajeto que acaba no interior da montanha. O mais frequente é também o mais perigoso: o buraco vertical. “Pensam que é fácil fazer dinheiro no garimpo”, observa Manoel com uma nova lata de cerveja na mão. “Mas ninguém viu o que ele passou a 60 metros de fundura, uma falta de ar, um desmaio por falta de oxigênio, um amigo que desce para socorrer. Isso ninguém vê. Por que? Porque ninguém posta”, diz. “Só posta luxúria, corrente de ouro, pulseira de ouro, cordão de ouro, um quilo de ouro para vender. Só ostentação”.

Manoel percorre o garimpo como se estivesse na própria casa. Cumprimenta um a cada dois metros. Interrompe o trajeto na frente de um pequeno comércio. Lá de dentro, um homem lhe passa um maço grosso de notas de R$ 50 e R$ 100. Manoel é respeitado. Não fosse Johnny, no entanto, nada disso estaria acontecendo. “O Johnny me chamou, através dele vim para cá”, conta. “Ele foi o cara que descobriu o garimpo”.

Movimentação no alto da Serra da Borda: passagens foram abertas por policiais corruptos que exploravam o garimpo (Foto: Ednilson Aguiar)

Johnny é um pedreiro tímido e acuado de quarenta e poucos anos, cabelos longos e lisos, olhos de índio e a pele esbranquiçada pelo pó de rocha. “O Johnny fez muito ouro, muito ouro mesmo”, conta Francisco das Chagas, um dos 2,5 mil garimpeiros que ainda vivem na Serra da Borda. “Quem chegou primeiro fez muito ouro aqui”.

Cinco anos atrás, Johnny resolveu abandonar o trabalho nas construções para se dedicar à busca pelo ouro. Casou-se com Vanuza, uma mulher loira de meia idade que “mexe com garimpo” há 27 anos. Juntos, percorreram vários rincões do Brasil cavando buracos na terra. “Mas o ouro que a gente estava explorando estava meio fraco”, conta Johnny, no alto da Serra da Borda, com um cigarro de tabaco escuro entre os dedos enrolado numa folha de caderno com listras azuis, a dois passos de um túnel de 40 metros de profundidade. “Então parei de mexer com garimpo e vim fazer um serviço aqui na fazenda vizinha”. Era a propriedade de Sebastião Freitas de Azambuja, a 40 quilômetros de Pontes e Lacerda.

Johnny e sua equipe trabalham no “buracão” (Foto: Ednilson Aguiar)

Numa conversa com os funcionários do lugar, soube que um peão diarista havia encontrado uma pepita de dez gramas no meio do pasto. “Fiquei curioso”, diz Johnny. “Pedi para minha esposa ligar para um amigo meu em Cuiabá e mandar um detector de metais para mim”. Três dias depois, encontrou ouro pela primeira vez. “Mas não eram dez gramas”, conta. “Era uma fagulha de três décimos”. Ele então conseguiu autorização do dono da fazenda para explorar a área. Só havia um problema: Johnny é claustrofóbico. Mas isso foi rapidamente resolvido por Vanuza, que acionou seus contatos e logo montou uma equipe para cavoucar a área. “Poucos dias depois, começamos a subir a serra. Aí o ouro apareceu”.

Embora a riqueza parecesse estar próxima, a inconsequência do diarista que havia descoberto a primeira pepita no pasto acabou atrapalhando os planos da turma de Johnny. Certo dia, o peão se embebedou na cidade e deu com a língua nos dentes. “O menino tinha bebido umas cachaças”, conta o garimpeiro. “E começou a espalhar que tinha achado ouro”. Quando o fazendeiro Azambuja soube, mandou parar com a garimpagem. Não queria uma multidão nas suas terras. De nada adiantou. Em menos de um mês, mais de 500 garimpeiros ocupavam o morro.

(Foto: Ednilson Aguiar)

Johnny também não arredou os pés da montanha. Em pouco tempo, conseguiu arrancar da terra cerca de 130 quilos de ouro — o equivalente a R$ 16,5 milhões, levando em consideração o preço final de R$ 127 por grama. O lucro foi dividido entre os 35 garimpeiros da equipe. “Não imaginava que ia dar ouro dessa forma”, diz.

Se a abundância prevalecia em 2015, hoje a situação é bem diferente. “Foi muito bom aqui no começo”, diz o pioneiro. “Agora está difícil. Ouro tem, só que está fundo”. Johnny gastou os últimos dias puxando a corda da roldana, um balde amarrado na ponta, recheado de pedras que os colegas extraem a 40 metros da superfície. Ele investiu em pequenos explosivos que os homens instalam no interior da montanha. “Até terça-feira a gente chega no ouro”, diz em voz baixa, como se estivesse tentando convencer a si mesmo. “De novo”.

O buraco é mais embaixo

Alguns acreditam que os garimpeiros dão trabalho para a polícia, quando, na maioria das vezes, costumam trabalhar para policiais

Policiais tiraram 2000 quilos de ouro da Serra da Borda, segundo garimpeiros (Foto: Ednilson Aguiar)

A mensagem chega por WhatsApp: “Por enquanto, muita água”, diz. “Ninguém consegue pegar ouro aqui. Ninguém fez nada ainda, ninguém consegue pagar aluguel na rua, não tem dinheiro nem para comer. Agora que as chuvas estão parando talvez alguém faça algum ouro”. Enviada em seguida, a resposta inclui a notícia de que a Secretaria de Estado de Segurança Pública está cercando a área. A retomada do garimpo é iminente. “Ah, não, aí não” — diz o garimpeiro, resignado. Ele pediu para não ser identificado. “Sabe o que vai acontecer? Vai levar um monte de gente para a rua”, afirma. “Como esse povo vai sobreviver na rua? Muita gente não tem nem o que comer”, repete. “Aqui no mato ainda encontra alguém que dê comida para trabalhar e tentar ganhar alguma coisa”. O tom de revolta se eleva. “Vai ficar perigoso, não vai ficar barato, não. Têm dois mil garimpeiros que não tem o que comer na rua. Não tem emprego para quem é sem estudo como nós. Na construção civil, não tem nada. O que vai acontecer?”, ele questiona, emendando uma solução para a pergunta: “Muitos vão virar bandido, muitos vão roubar, e a cidade vai virar o terror”. Em seguida, conclui: “Não é o que ninguém quer. Nós só queremos trabalhar”.

Sentado atrás da mesa bem organizada do seu gabinete, que fica a cerca de 45 quilômetros da Serra da Borda, o promotor de Justiça Frederico César Batista Ribeiro, do Ministério Público de Pontes e Lacerda, não acha que os garimpeiros venham a se tornar bandidos. Na visão dele, muitos já se tornaram. Percebeu isso ao notar um incremento no número de presos no município. “Nós vínhamos com uma média histórica de 150, 170 presos”, disse ao LIVRE. “Após o garimpo temos uma média de 250, até 290 presos”. Segundo ele, o tráfico de armas e entorpecentes e o fluxo de carros roubados para a Bolívia, a cerca de 300 quilômetros do município, contribuem para que garimpeiros que não encontraram ouro migrem para o crime. “Algumas pessoas que vieram de fora acabaram se envolvendo com o garimpo e também com outras modalidades criminosas”, diz Frederico, um promotor jovem de cabelos úmidos e terno escuro. “Isso elevou o problema da segurança pública”.

Mas não só. Segundo ele, a multidão de todos os cantos do Brasil que desembarcou na Serra da Borda à caça do metal amarelo também provocou reflexos em outras áreas. “São vários aspectos de sobrecarga dos serviços públicos”, diz Frederico. “Saturou-se por exemplo a assistência social do município”, prossegue. “Outras pessoas vieram de outros Estados com a ilusão de ficarem ricas, não conseguiram ganhar nada e isso acabou se tornando um problema social para o município, sobrecarregando inclusive a saúde”.

Frederico César, promotor de Justiça: “Depois do garimpo, número de presos aumentou” (Foto: Ednilson Aguiar)

Atualmente, de acordo com o Departamento Nacional de Produção Mineral (DPNM), ao menos duas mineradoras possuem autorização federal para pesquisar uma área de 7.385 hectares entre Pontes e Lacerda e Vila Bela da Santíssima Trindade. São elas: Mineração Santa Elina Indústria e Comércio e Taraucá Indústria e Comércio S/A. Por trás de ambas, como acionista, está o grupo canadense Yamana Gold, sediado no 22º andar de um luxuoso edifício em uma larga avenida de Toronto, no Canadá. Para 2017, eles preveem a produção de 26 toneladas de ouro — boa parte vem de Mato Grosso e Goiás. Nada tiram da serra da Borda, contudo. Não por enquanto. Hoje o ouro que sai de lá acaba quase sempre nas mãos de atravessadores que pagam cerca de R$ 80 no grama.

Segundo um relatório produzido em abril do ano passado pela organização não-governamental (ONG) americana Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (The Global Initiative against Transnational Organized Crime), existem mais de 75 mil garimpeiros ilegais só na região Norte, Nordeste e Centro-Oeste do Brasil. De todo o ouro que retiram do subsolo, boa parte vai parar na Bolívia e no Peru, de onde saem para os Estados Unidos e a Suiça, principalmente. Ainda de acordo com o documento, muitos deles são explorados por narcotraficantes e grupos armados. Na Colômbia, por exemplo, o governo estima que as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) obtêm 20% de sua renda por meio da extração ilegal de ouro e da extorsão de garimpeiros. No Brasil, ao que tudo indica, criminosos estão fazendo o mesmo.

No início, segundo Frederico, a invasão da Serra da Borda era basicamente promovida por gente que “queria arriscar a sorte”. “Com o tempo, isso evoluiu para uma ocupação armada, com pessoas mais perigosas”, diz. “Há presença de organizações criminosas no garimpo, até por ser uma região de tráfico de entorpecentes. Isso é de conhecimento do Ministério Público”, continua. “Mas, ressalto, o secretário Rogers [Jarbas, de Segurança Pública], a pedido da promotoria, reforçou a segurança local e até tem mandado com muita frequência unidades especializadas no tráfico”.

Em janeiro, o secretário Rogers Jarbas, em entrevista ao programa O Livre, apresentado pelo jornalista Augusto Nunes na Band Mato Grosso, declarou que uma “milícia armada” havia rendido seguranças de mineradoras e trocado tiros com a Polícia Militar (PM) durante a terceira invasão no local, no fim de 2016. À época, o LIVRE noticiou que a nova ocupação, em 30 de dezembro, havia sido coordenada por um grupo armado de Rondônia que ao menos uma vez prestou serviços de escolta de cargas de drogas para o Primeiro Comando da Capital, o PCC.

“Essa história, vou falar a verdade para você”, conta outro garimpeiro que preferiu não se identificar. “Tem muita coisa envolvida nisso aí e, realmente, a gente falar assim, afirmar o que aconteceu mesmo, a gente não sabe”, prossegue, cauteloso. “Se tem política no meio…”. Outro homem que vive na montanha é mais categórico: “Eram doze os caras das armas”, disse ele. “Vieram três vezes”. Quem eram? “Rapaz, garimpeiro não é”.

No alto da Serra da Borda, diante de uma paisagem que se estende por um pasto plano até a linha do horizonte, um terceiro sujeito que passa o dia cavoucando a terra topa dar um depoimento, igualmente sob a condição de anonimato. “O garimpo tem muita gente boa, mas tem muita gente errada também, com passado sujo”, diz. Peço para contar o que se passou no dia do tiroteio. Enigmático, ele responde: “Essa é a história de um lugar de homens bons, porém pobres, e homens maus muito ricos”. E não diz mais nada.

Quase 26 gramas de ouro: o equivalente a R$ 3300 (Foto: Ednilson Aguiar)

Alguns acreditam que os garimpeiros dão trabalho para a Polícia, quando, na maioria das vezes, costumavam trabalhar para a Polícia. Se houve um boom no número de presos da cidade, conforme relatou o promotor Frederico, isso talvez esteja relacionado com o fato, narrado por garimpeiros, de que um grupo de policiais corruptos, em 2015, dedicava-se exclusivamente a prender garimpeiros.

Desencadeada em 6 de novembro de 2015, uma sexta-feira, a operação Corrida do Ouro, da Polícia Federal (PF), desvendou uma quadrilha composta por ao menos quatro policiais civis, um tenente-coronel da Polícia Militar e um vereador. A notícia foi amplamente divulgada à época. Mas pouca gente ficou sabendo em detalhes como era o modus operandi da turma.

Em um parecer de 17 de novembro de 2016, no qual se posiciona a partir de um Habeas Corpus impetrado pela defesa dos policiais Vitor Hugo Pedroso e Everaldo Duarte Rodrigues, a sub-procuradora geral da República, Cláudia Sampaio Marques, revela os meandros da exploração promovida por policiais na Serra da Borda. Segundo ela, um dos líderes era Vitor Hugo, conhecido pela alcunha de “Vitão”. “Nota-se, pelas investigações, que ‘Vitão’ atua cobrando a entrada de outros garimpeiros no local, exercendo segurança particular da área através da empresa Lopes Segurança, que não possui autorização para atuar no ramo de segurança privada”, diz um trecho do documento.

Segundo consta, Vitor, que aparece no Portal da Transparência do governo como investigador lotado em Pontes e Lacerda desde fevereiro de 1985, com um salário bruto de R$ 14 mil, detinha “a posse de buracos no local, terceirizando a extração ilegal de ouro e cobrando um valor fixo diário ou percentual sobre a produção, estabelecendo regras sobre utilização de celulares, aparelhos de filmagem no garimpo, e sobre vendedores ambulantes”.

“Caso houvesse discordância por parte de algum garimpeiro acerca do repasse de valores, Vitor providenciava a sua expulsão inclusive com a utilização de violência e grave ameaça”, escreveu a sub-procuradora. “Eles utilizam de sua condição de policiais para atemorizar os demais garimpeiros para extração ilegal de matéria-prima pertencente à União”. Ainda segundo o parecer, garimpeiros presos nas operações realizadas pela PF relataram que os ‘buracos da polícia’ costumavam ser os mais lucrativos do garimpo. “As informações policiais, interrogatórios e demais documentos evidenciam uma alta lucratividade por parte dos policiais que participavam do grupo criminoso”, diz outro trecho. “Foi especificado também nas informações policiais a dificuldade em se identificar a atuação dos agentes públicos, já que foi instaurada uma verdadeira ‘lei do silêncio’ na região do garimpo, já que os garimpeiros temem por sua vida caso revelem alguma participação dos policiais”.

A partir das denúncias, agentes do Grupo de Investigações Sensíveis da Polícia Federal (GISE) disfarçaram-se de garimpeiros e conseguiram fotografar o investigador Vitor na Serra da Borda. Na sede da Polícia Federal (PF) em Pontes e Lacerda, uma casa sem qualquer identificação — exceto pelas câmeras de última geração instaladas no poste da frente — e que fica atrás do prédio do Corpo de Bombeiros, no entanto, o agente que atendeu a reportagem por meio do interfone não quis revelar detalhes da investigação, embora tenha confirmado que estavam sendo conduzidas por uma equipe de Cáceres. O delegado federal Ronald da Silva de Miranda, que liderou a operação, informou que não pode comentar o caso, que, segundo ele, está sob sigilo.

Garimpeiro descansa antes de iniciar o expediente no interior da montanha (Foto: Ednilson Aguiar)

Os garimpeiros, contudo, não se importam em falar. Conquanto que não tenham que dizer seus nomes. “Fizeram muita coisa ruim com garimpeiro aqui”, diz um deles. “Chute, coronhada, tiro no ouvido”. Nas árvores que não eram arrancadas da montanha, segundo disseram, os investigadores instalaram câmeras. A estrada por onde hoje escorre a água da chuva que, como uma cachoeira, vaza dos buracos do chão, foi aberta por retroescavadeiras levadas até lá pelos homens da lei. “Eles tiravam caminhões de terra”, conta o garimpeiro. “Levaram mais de 2000 quilos de ouro daqui”. Outro acrescenta: “Cobravam 10% para trabalhar no buracão. Eram uns quarenta. Não era gente do bem, não”.

Com medo, muitos temiam voltar para a cidade por meio da estrada principal. Embrenhavam-se na floresta por longas horas de caminhada durante a madrugada, uma maneira de evitar os corruptos. “Se achassem uma picareta nas suas coisas, você ia preso”, diz um deles. O pânico havia sido instalado entre os mais pobres. Certa vez, policiais encapuzados pisaram nas cabeças de 100 garimpeiros no posto Rondon, perto das margens do Guaporé. “Eles iam no hotel onde estavam os garimpeiros só para prender todo mundo”, conta. “Por que só aqui em Mato Grosso o garimpeiro é perseguido como bandido? Por que no Pará, em Rondônia, e outros cantos do Estado não é como aqui? Aqui é o único lugar onde o garimpeiro é tirado como bandido, é jogado na cadeia, raspam sua cabeça e te deixam lá mofando. A polícia aqui deixava bandido solto na rua e só perseguia os garimpeiros”. Alguns garimpeiros pobres, flagrados com ferramentas de escavação, permanecem presos porque não têm como arcar com a fiança de R$ 12 mil.

De acordo com os depoimentos de quem gasta os dias na Serra da Borda, a retomada do garimpo depois do tiroteio que ganhou as páginas dos jornais no fim do ano passado contou com a participação dos investigadores corruptos. Na ocasião, um garimpeiro foi atingido por duas balas de borracha à queima-roupa na cabeça. Passou duas semanas na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de Cáceres.

No mesmo dia, enquanto algumas testemunhas do garimpo se reuniam com os federais do GISE no pasto que precede a subida da serra, um rapaz levou um tiro no peito. “Botamos ele numa rede e chamamos os bombeiros”, conta. “Os três federais correram pensando que era o povo das armas”. Na Santa Casa de Pontes e Lacerda, posteriormente, um policial apareceu de supetão no quarto da vítima: “’Você estava passando na fazenda e tomou uma bala perdida, está ouvindo? Senão te mato’. Foi o que disseram”, narra um dos garimpeiros que socorreu o rapaz. “A PF mandou duas escoltas para o guri”.

Depois das investigações federais, os corruptos foram presos, outros transferidos, e a rotina no garimpo ficou mais pacata. “Nós proibimos armas aqui porque queremos trabalhar em paz”, disse uma testemunha da PF. “Proibimos maquinário pesado, mandamos tirar uma retroescavadeira. Só pode gerador, martelete e bomba-sapo. Não tem azougue. É proibido arma, proibido crianças e proibido briga”. Ele vai recitando as novas regras do garimpo, até que entristece o semblante, mira os olhos no chão e conclui: “Meu sonho é fazer um curso técnico, mas a gente perde a esperança de o Brasil mudar”. O tempo está nublado na Serra da Borda. O rangido dos geradores não para. “A gente só queria trabalhar em cooperativas, pagar impostos”, continua. “E que uma Caixa Econômica fosse instalada aqui na frente para comprar o nosso ouro”.

Bruno Abbud

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Jornalista. Publicou reportagens em Época, O Globo, Veja, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Piauí. Escreve não-ficção para RT Features e Cia das Letras.

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