Silval por uma fresta

A vida atrás das grades do primeiro governador a ser — e permanecer — preso no Brasil

Reportagem publicada originalmente no site O Livre, de Cuiabá, em fevereiro de 2017.
Fresta localizada no muro que separa o pátio do presídio da rua (Bruno Abbud)

O Centro de Custódia da Capital, conhecido como CCC, fica no fim de uma rua de terra e cascalho que leva aos fundos do Centro de Ressocialização de Cuiabá, um presídio que aloja mais de 1500 detentos no bairro Carumbé. Construído para abrigar presos do regime semi-aberto, o CCC foi reformado em outubro de 2014 justamente pela gestão de Silval da Cunha Barbosa. Preso em 17 de setembro de 2015, uma quinta-feira, dois dias depois de deflagrada a primeira fase da Operação Sodoma, Silval está há um ano, quatro meses e 28 dias na cadeia. A temporada atrás das grades começou no Corpo de Bombeiros, onde ele ficou 18 dias no dormitório destinado aos plantonistas, com duas camas, ar condicionado, frigobar, banheiro e televisão. Os militares, entretanto, que por causa da presença do ilustre criminoso tiveram de ajeitar colchonetes no chão da sala do comandante, pediram à Justiça que ele fosse transferido. Onze meses depois de reformar o CCC, Silval retornou ao centro, agora como o primeiro governador a ser — e permanecer — preso na história recente do Brasil.

Na manhã desta terça-feira, 14, o ex-governador deixou a prisão para depor na Delegacia Especializada em Crimes Fazendários e Contra a Administração Pública (Defaz), a três quilômetros de distância. O depoimento faz parte da quinta fase da Operação Sodoma, que, além de Silval, decretou a prisão de mais quatro investigados e cumpriu nove mandados de condução coercitiva e nove de busca e apreensão em Mato Grosso, Santa Catarina e no Distrito Federal. Segundo a decisão da juíza Selma Rosane Arruda, da 7ª Vara Criminal de Cuiabá, a investigação do Ministério Público confirma o modus operandi que — comenta-se nos bastidores — era utilizado indiscriminadamente pelo antigo governo: Silval mandava atrasar os pagamentos a empresários que tinham negócios com o poder público. Quando apareciam para cobrar a dívida, eram informados por secretários e altos funcionários de que só receberiam depois de pagar propina.

No fim da rua de terra, antes da esquina que leva ao portão alaranjado do CCC, há dois pequenos buracos no muro, de onde é possível enxergar o pátio que circunda as 14 celas ocupadas por 29 detentos — entre os quais ao menos quatro integravam o governo de Silval. “Aqui não tem droga igual em Carumbé”, disse o agente penitenciário, um senhor de bochechas enrugadas e cabelos brancos, por trás da portinhola de metal acinzentado. Ele faz referência ao presídio vizinho. Segundo disse, nem os aparelhos de ar condicionado, reivindicados em maio de 2016 por Silval e outros colegas de cárcere em um abaixo assinado, nem os exaustores exigidos pelo juiz da Vara de Execuções Penais foram instalados. “Lá dentro a vida é dura, já houve dois infartos e alguns problemas de pressão arterial”, disse um advogado criminalista, que preferiu não se identificar. Para matar o tédio, os prisioneiros gastam as horas construindo móveis, carpindo o terreno e cuidando da horta. “Aqui só tem nível superior, aqui é tranquilo”, completou o carcereiro, segundo o qual as celas do CCC abrigam no máximo três pessoas.

Percebe-se o tamanho da tranquilidade na falta de solidez dos muros que separam o pátio da cadeia da liberdade. Além de guaritas que permanecem vazias durante grande parte do dia, o CCC apresenta um rasgo descomunal que ameaça colocar abaixo, a qualquer momento, parte do paredão que o isola da rua.

Muro do CCC (Bruno Abbud)

Os dias de visita no CCC acontecem às quartas-feiras e aos domingos, das 8h30 às 11h30, no período da manhã, e das 13h30 às 16 horas, à tarde. Só é permitida a entrada com carteirinha. Mas na terça-feira, 22 de novembro de 2016, o filho de Silval, o médico Rodrigo da Cunha Barbosa, apareceu a bordo de uma caminhonete Toyota Hilux branca, placa NTY-0015, cumprimentou um carcereiro calorosamente — preso em abril de 2016 durante a segunda fase da Sodoma, Rodrigo passou pouco mais de um mês no CCC — e entrou para visitar o pai. Saiu de lá quarenta minutos depois, jurando ter passado apenas para apanhar algumas roupas para lavar. “Agora é o momento de ficar o mais quieto possível”, disse à reportagem do LIVRE. “Mas me liga, vamos conversar”, continuou, antes de entregar um cartão no qual aparece escrito “Rádio Continental”. A família Barbosa é proprietária de um conglomerado de comunicação que abrange todo o Estado. A reportagem tentou contato com Rodrigo mais de dez vezes, mas ele nunca atendeu.

Na manhã de quinta-feira, 24 de novembro, por volta das 9 horas, um advogado pressionou a campainha do CCC. Queria ver seu cliente, mas foi avisado de que visitas estavam proibidas por causa da greve dos agentes penitenciários deflagrada naquela semana. “Mas eu sou advogado”, insistiu. Não teve conversa. Assim que foi embora, um grito do lado de dentro do portão de ferro chamou: “Vilma!”. O carcereiro foi rapidamente reprimido por uma voz feminina: “Vai acordar o Silval, ô”. Um curto diálogo então se passou entre os agentes em greve:

- Vai assar carne?
- Disseram para pôr na grelha.
- Pede para o Silval fazer o café (risos)

Minutos mais tarde, mesmo fora do dia de visita, o ruído dos pneus no cascalho denunciou a chegada da caminhonete branca de Rodrigo Barbosa. Depois de passar reto pela reportagem, o carro deu uma volta no quarteirão e retornou em seguida. O filho de Silval desceu do carro com o estetoscópio em mãos: “Vim examinar meu pai”, justificou. Às 9h10, cumprimentou sorrindo, com dois tapas no peito e um forte abraço, o carcereiro que fazia a guarda do portão — a quem chamou de “Tiger” –, e entrou no CCC sem mostrar carteirinha nem passar pelo detector de metais. Saiu às 10h05.

A equipe de carcereiros do CCC: “Tiger” é o sexto da direita para a esquerda (Bruno Abbud)

Na decisão da Justiça que autorizou a deflagração nesta terça-feira da quinta fase da Operação Sodoma, a juíza Selma Arruda lembrou uma interceptação telefônica feita em agosto de 2015 pelo Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco) de Mato Grosso, depois da Operação Ouro de Tolo, que prendeu Roseli de Fátima Meira Barbosa, mulher de Silval. O telefonema era para Nara de Deus Vieira, chefe de gabinete do então vice-presidente Michel Temer. “O indiciado utilizou-se de sua influência política para soltar a esposa”, afirmou Selma. “Para tanto, não hesitou em ingressar em segundo grau, com o pedido de revogação da prisão preventiva, não sem antes, telefonar insistentemente para a assessoria do chefe de gabinete do vice-presidente da República Michel Temer. No dia seguinte a esta conversa, o ministro Reynaldo Soares da Fonseca, em liminar, concedeu Habeas Corpus e determinou a soltura de Roseli Barbosa”. Silval foi preso um mês depois.

Semanalmente, Roseli sai do apartamento em que morava com o marido, no 18º andar do luxuoso edifício Riviera D’America, localizado em frente ao shopping 3 Américas, para visitá-lo na cadeia. Pelo menos uma vez, esteve no bar perto do presídio para comprar comida para Silval. Gastou R$ 90 com marmitas e, segundo o proprietário do estabelecimento, só fez uma exigência: “ela queria tudo separadinho”, contou. “Uma embalagem só com arroz, outra só com feijão, as carnes em uma outra e a salada. Não queria nada misturado, senão fica feio, né?”

Outro lado

A Secretaria de Justiça e Direitos Humanos (Sejudh), responsável pela manutenção dos presídios no Estado, informou que está com “processo em andamento de compra dos materiais para reforma do muro da unidade” e que “as guaritas são utilizadas durante fiscalização de rotina”. Apesar dos pedidos da reportagem, a pasta não quis informar os nomes dos presos com quem o ex-governador divide a cela nem autorizou a visita às dependências internas do CCC: “Por questão de segurança e para resguardar a custódia dos presos, não é permitida a entrada da imprensa em unidades prisionais”.

Neste mês, o filho de Silval enviou um recado à redação do LIVRE dizendo que o diretor do presídio, Márcio Rossi, havia autorizado sua ida ao CCC fora do horário normal de visitas. “Quando você não entra na cela, não é obrigado a passar pelo detector de metais”, justificou Rodrigo. “Todos os meus registros estão lá no presídio, é só pedir para a direção. Eu estava lá como médico”.

(Bruno Abbud)
One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.