E se…

Em uma cidade sem nome havia uma garota sem nome. A garota era feliz. Apreciava a liberdade decorrente do seu aparente vazio e o quanto isso lhe permitia as mais variadas visões de diferentes realidades. Gostava do que lhe fazia bem e às vezes se deixava vivenciar o que julgava mal, de modo a compreender melhor a si e aos outros. Porém, em determinado dia, alguém lhe disse que ela era demasiado mansa. Que deveria se tornar agressiva caso quisesse conquistar tudo aquilo que lhe faria feliz e que ela deveria desejar. “Mas eu tenho tudo o que preciso pra ser feliz?” ela pensou, e todos os “e se” surgiram a partir daí. Promessas de mundos orgásmicos, de momentos de intensidade infinita e felicidade sem fim semearam todos os tipos de desejo em sua mente e a garota sem nome, da cidade sem nome resolveu ser alguém. Comprou roupas, maquiagem, perfume, mudou o cabelo, moldou a personalidade e se inseriu no mundo.

Rapidamente ela descobriu que o mundo era feito de jogos. Os jogos de poder eram a maior categoria, subdivididos em diversos outros exemplos. O engraçado desses jogos é que as pessoas passavam rapidamente a acreditar neles como absolutos e a atribuir a si o poder decorrente do jogo, não percebendo a ilusão que gerava todo o processo. Julgando-se capaz de enxergar o que os outros não viam, ela rapidamente foi vítima da própria arrogância e tornou-se imersa no mesmo oceano de sofrimento no qual todos os outros se encontravam.

Navergar pela dor não foi tarefa fácil, mas no caminho ela fez muitos amigos. Conhecer as histórias dos outros a ensinou o valor da compaixão e do perdão. No entanto, aos poucos o desejo de se fundir à alguém começou a atormentá-la. Disseram-lhe que esse desejo era legítimo: “essa é a cura para a dor”, ela ouviu diversas vezes, “a panaceia para a alma”. Tentar cumprir essa tarefa a feriu mais do que ajudou e a levou a ignorar quem estava bem à sua frente em favor de um ideal que ela passou a projetar em cada homem que conhecia. De vez em quando, uma espécie de sussurro parecia surgir em seus pensamentos: “cuidado com o que você acha que é o amor”. Ela balançava a mão nesses momentos, como se estivesse apagando algo escrito no ar e voltava à seu caminho.

Uma dia seus anseios reverberaram em um rapaz. Namoraram, casaram, tiveram filhos. Nesse momento ela tinha tudo o que seus sonhos implantados julgavam ser necessário: emprego, amor, filhos, um nome. Curiosamente, o que anteriormente deveria lhe trazer segurança, hoje parecia uma realidade quase etérea, facilmente desfeita ao menor sopro de qualquer eventual lobo mal. Tudo deveria estar certo, mas ao mesmo tempo uma enorme angústia, cuidadosamente alimentada por todos esses anos, tornou-se grande demais para o canto escuro ao qual foi relegada. Ao procurar auxílio, a mulher viu que todos estavam muito ocupados. “Tome esse remédio”, eles disseram, “é apenas uma doença”. O marido se foi: “você não me interessa mais, há alguém por aí que me trará mais brilho aos olhos”. Os filhos, crescidos, estavam saindo à caça de seus próprios epítetos. Ela estava novamente sozinha.

A angústia não previa, porém, que na agora “mulher nomeada” ainda restava um pouco da garota que fora outrora.

Ela sentou-se frente à janela e por um momento o oceano de dor no qual vivia transbordou em seus olhos na forma de lágrimas. “Eu desisto”, conjecturou, “não era isso que eu esperava encontrar… Tantos anos, tantas experiências e aqui estou eu de volta. Aqui estou eu de novo no vazio”. Lembrou-se então do que era antes de ser alguém. As toneladas que pressionavam os seus ombros foram retiradas por alguns segundos. “Eu não irei mudar de planeta. Estou presa aqui com todos e estamos todos sofrendo. Talvez não haja mesmo saída”. Um sorriso esboçou-se em seu lábios. “Mas eu tenho tudo o que preciso pra ser feliz” ela pensou, e todos os “e se” surgiram a partir daí.