M.I.A. e a música de um mundo que ainda está por vir

Mathangi Arulpragasam, conhecida como Maya, é a cantora de um projeto de mundo que em 2017 parece ter fracassado

Quando o mundo estava cheio de uma esperança global de integração dos povos, havia espaço para raiva? Quando a globalização parece ruir diante dos nossos olhos, há espaço para esperança? M.I.A. é o afirmativo dessas duas perguntas.

M.I.A. é o nome artístico de Mathangi Arulpragasam (conhecida como Maya), cantora nascida na Inglaterra em 1975. Aos seis meses de idade, M.I.A. foi com a família para o Sri Lanka e lá o pai, de origem tâmil, envolveu-se com ativismo político. O Sri Lanka, que durante a dominação inglesa era chamado de Ceilão, passou décadas em guerra civil por conta de conflitos envolvendo os grupos tâmil e cingaleses. Uma semana antes de completar 11 anos, M.I.A. voltou com a família para Londres, sob a condição de refugiados. O pai, cujo pseudônimo era Arular, permaneceu na ilha.

No começo dos anos 2000, M.I.A. começou a desenvolver seus primeiros projetos artísticos. Sua intenção era enveredar por caminhos do audiovisual, mas em entrevistas ela fala como a música surgiu como uma possibilidade mais barata para se expressar. Passou a adotar o nome M.I.A. para se apresentar, como abreviação de “Desaparecido em Acton”, por conta de um primo seu que havia sumido em Acton, no subúrbio de Londres. Em 2005, M.I.A. lançou seu primeiro álbum com o nome de Arular. Não se tratava apenas de uma homenagem ao pai. Àquela altura, sabia que ele faria buscas na internet por seu nome e, dessa forma, chegaria à obra da filha.

M.I.A. na época da divulgação de Arular

Assim, não dá pra pensar a carreira de M.I.A. dissociada de uma série de fatores: a ascensão e expansão da internet, sua origem étnica, seus deslocamentos no mundo, os lugares e os não-lugares que frequentou. Doze anos atrás, quando Arular veio a público eram as junções do dancehall jamaicano e do funk carioca com a voz de M.I.A. por trás fazendo suas rimas em geral sobre situações violentas que causavam grande frisson. Naquela época, seu principal parceiro musical era o DJ Diplo, que hoje está em diversos tablóides e análises musicais por produções com artistas como Justin Bieber, Beyoncé e Snoop Dogg. Foi com Diplo que M.I.A. deu seus primeiros passos como pirata, lançando mixtape na internet chamada Pirataria financia o terrorismo. Anos mais tarde, mais precisamente dez anos depois, em 2015, com o lançamento do vídeo “Borders”, a palavra “Pirata” foi a principal causa de celeuma entre a cantora e o time de futebol Paris Saint-Germain, uma vez que ela usava uma camiseta semelhante à da equipe esportiva só que com os dizeres “Fly Pirates” (“Voe Pirata”) no lugar da frase “Fly Emirates”.

M.I.A. e a camiseta “Fly Pirates”

Acontece que o mundo mudou muito em 12 anos. Quando M.I.A. dava seus primeiros passos na música, suas canções pareciam ter uma raiva que servia como denúncia. O mundo globalizado não enxergava o que não conhecia. Os subúrbios ingleses onde viviam imigrantes, o conflito numa ilha no Oceano Índico, as batidas rítmicas que podiam criar laços entre povos com experiências históricas tão diversas… Nesse período, as tensões estiveram presentes o tempo todo. Convidada para se apresentar com Madonna no intervalo do Super Bowl, M.I.A. mostrou o dedo do meio e causou mal-estar não só na audiência mas entre os organizadores do evento. Ao olhar para o seu entorno, M.I.A. percebia que seus fenótipos eram bastante particulares no hall dos astros globais, mesmo sua ascendência sendo oriunda do continente mais populoso do mundo. Ali, no topo dos rankings, poucos são os artistas asiáticos e, quando lançou a música “Freedun” com Zayn Malik, fez piada sobre ter uma canção com o único outro artista pop de pele marrom.

Nesses doze anos, a própria internet passou por mudanças significativas e que talvez deixe os piratas de antigamente um bocado chateados. Mesmo para vazar seu próprio material e permitir acesso livre à sua produção, M.I.A. precisa enfrentar gravadora e políticas de streaming. Só que quando o mundo parecia nos levar a um caminho de desilusão com a humanidade e profunda desesperança, AIM foi lançado. O álbum de 17 músicas procura criar mais do que desestabilizar laços. Foi na expectativa de ver se ela tinha lançado (ou vazado) AIM que entrei no site da cantora e me deparei com um texto tão bonito de Sinthujan Varatharajah que acabei arriscando fazer uma tradução livre para o português:

“Sobreviventes de guerra, conflito e genocídio mantêm-se como deslocados internos e refugiados, dispersos por suas terras natais e pelo globo. Eles incorporam a violência que os desvia pelo desconhecido, pelo incerto e por campos e conjuntos habitacionais. Sobreviventes cruzaram incontáveis continentes, países e fronteiras, deixando para trás seus lares, suas vidas e seus mortos: apenas para serem introduzidos como invisíveis, silenciosos e esquecidos no exílio; apenas para dizerem que seus corpos podem ter viajado mas suas histórias não. Suas narrativas são interpretadas como cambiáveis, mutáveis e incômodas enquanto seus corpos são considerados danos colaterais. Sobreviventes são tratados como pessoas excedentes cuja própria presença desestabiliza o status quo, cujas vozes perturbam o conhecido.
Como cruzadores de fronteiras, nômades dos dias modernos, governos ao redor do mundo tentam reprimir seus movimentos criminalizando-os e trancando-os em campos e na pobreza. A desmobilização de sobreviventes levou à criação de novos estados para os apátridas, separados e legalmente distinto do território onde se asilaram. Eles são postos na periferia do poder, entre ambiguidade, invisibilidade e nostalgia. Lugares onde sobrevivência é a primeira estratégia adaptativa, onde o trauma continua a trilhar caminho para o amanhã, onde respirar é um luxo que você procura em qualquer outro lugar. ESPAÇOS DE FRONTEIRA. Espaços de fronteira são lugares condenados como desesperançosos, sem vida e sem futuro, onde alegria nunca pode ser seguida, onde sonhos não podem ser tecidos, onde o dia-a-dia é entendido como ausente. São imaginados como locais de pesadelos feitos cativos pelo trauma do deslocamento, sob um estado de emergência sem fim. É um estado maior do que a Inglaterra, isolado de seus arredores. Nascido no tempo presente para ser apenas atado no tempo passado. Espaços de fronteira alojam pessoas de todos os caminhos de vida que são abarrotadas em abrigos indignos rodeados de arame farpado. Na ausência de privacidade e direitos básicos, seus habitantes são forçados a constantemente renegociar limites e criar novas leis. É um lugar onde novas ordem globais são criadas, onde novos encontros acontecem, onde novas culturas são formadas, onde novas pessoas nascem: REFUGIADOS.”
Cena do clipe de “Borders”

A M.I.A. de 2005 é a cantora de um projeto de mundo que em 2017 parece ter fracassado. Mas a M.I.A. de 2017 é a cantora da fronteira (das visíveis e invisíveis) que nos lembra da importância dos encontros, das junções e da necessidade de não desistir diante do absurdo. E nos lembra disso justamente porque se trata de uma mesma pessoa passando por esses doze anos que separam Arular de AIM, com as especificidades de Kala, /\/\/\Y/\ e Matangi entre eles.