Eu não vou me calar!

“Quem vai te olhar, sua BARANGA? Vê se te enxerga! Vai fazer academia pra ver se fica gostosa e alguém olha pra você na rua, pra ver se alguém vai querer te comer, pra tirar essas banhas, essas pelancas da barriga… TE ENXERGA!”.

Essas foram algumas das palavras que ouvi ontem (dia 21 de abril), às 13h40, depois de almoçar na padaria que eu frequento diariamente. Depois de pagar a conta e virar de costas para ir embora, vi que um dos funcionários do local conversava com dois homens na calçada do lugar, em frente à porta mais fácil para minha saída. Imediatamente, na minha cabeça, pensei: “melhor ir pela outra porta, esses caras vão mexer comigo…”. Mas outra voz disse: “você precisa ir, não pode desviar seu caminho por medo”. E eu fui, sem desvios, rumo ao carro. Foi aí que a palavra que eu mais escuto de estranhos — pelo menos uma vez por semana — foi repetida, bem alto, no meu ouvido:

- QUE DELÍCIA!

Normalmente, eu reajo com sarcasmo, devolvo a cantada e o cara fica constrangido. Mas eu não estava a fim, eu havia sido invadida e não precisava medir as palavras. Certo? Mesmo assim, fiz de “lesa” para questioná-lo:

- Oi, moço?! Falou comigo? Não entendi…

Se você é mulher conhece muito bem a reação “não fiz nada, cê tá louca?” [Eu conheço esse tipo de reação oriunda de diversos tipos de assédio: do carinha na rua, do colega de trabalho que ‘só tava brincando’, do cuncunhado que demorava demais com a mão na minha cintura quando ia me cumprimentar…]. Pois bem… obviamente ele fingiu que não tinha falado nada. Daí entrou o amigo e começou o ataque. Vou repetir as palavras dele porque elas estão martelando na minha cabeça até agora:

“Quem vai te olhar, sua BARANGA? Vê se te enxerga! Vai fazer academia pra ver se fica gostosa e alguém olha pra você na rua, pra ver se alguém vai querer te comer, pra tirar essas banhas, essas pelancas da barriga… TE ENXERGA!”.

Eu estou trabalhando diariamente o amor pelo meu corpo, luto contra o machismo e tenho a plena convicção de que ele falou tudo aquilo para me destruir. Afinal de contas, não me calei, não fiquei constrangida, não fui submissa. E digo para vocês: NUNCA vou me calar, nunca vou abaixar a cabeça para algo inaceitável. Meu corpo não é público. Ele é MEU. Não está disponível para apreciação.

Enquanto ele proferia cada ofensa, eu respondia. Mas o pior sentimento foi o de IMPOTÊNCIA. Rua lotada, padaria lotada, os caras me agredindo verbalmente e todos CALADOS… Como defender-me sozinha de um ataque de dois caras violentos? Nada que eu fizesse ou falasse iria parar aquilo, nenhuma palavra iria atingi-los. NADA!

Impotência. Impotência. Impotência. Impotência. Impotência. Impotência. Impotência.

Entrei no carro, acelerei e voltei para casa. Destruída, arrasada, sozinha, IM PO TEN TE. Controlei minha fúria e toda a bagagem e memórias que carrego desde criança [só a gente sabe o que viveu, não é?]. Chorei, chorei, chorei, chorei ininterruptamente por uma hora. Até que lembrei que uma grande amiga mora perto e pedi um colo. Era a única coisa que eu queria naquele momento: uma mulher que entendesse o que eu tinha acabado de viver e que não me dissesse aquele “TOMA CUIDADO, BABI!” como quem dissesse para eu parar de responder, de indagar, de questionar, de ser quem eu sou. E eu, meu amigos, já venci muitas batalhas nessa vida…

Em vez de represálias por exigir meu direito de andar na rua em paz, ganhei um abraço. Assim como ganhei um abraço virtual de outra amiga que estava longe. E assim como ganhei um abraço quando, mais tarde, ao fazer uma simples pergunta, outra amiga perguntar: está tudo bem com você? E de ouvir, de outra amiga: estou aqui com você, para o que você precisar.

Hoje, estou com medo de levar minha cachorra para passear porque descobri que os dois indivíduos são proprietários de um restaurante que fica exatamente em frente ao meu prédio. Ainda não descobri o nome deles porque o funcionário da padaria que conversava com eles no momento teve uma “falha de memória” e também não ouviu o que foi dito para mim porque “estava longe”. De qualquer forma, vou fazer um boletim de ocorrência para me resguardar. Só espero que isso não seja mais um episódio ruim na minha vida.

Não vou seguir o conselho da dona da padaria e deixar para lá. Nunca fui de calar-me. Não será agora que vou fazer isso. Por mim, pelas mulheres da minha família, pelas minhas amigas, pelas minhas enteadas, pelas mulheres que desejam transitar, flanar, passear, desfilar, andar livremente pelas ruas de qualquer lugar. Eu sei que não estou lutando sozinha. Aliás, isso só me deu mais vontade para LUTAR mais, ir pro front e tentar construir um mundo melhor com minhas próprias mãos, em vez de deixar esse trabalho para “nossos” filhos.

Não sou eu quem deve se calar. São ELES, esses caras que não sabem controlar a boca, a mente e o pênis. MERECEMOS RESPEITO e não queremos ser assediadas!

Portanto, não digam para mim ou outras mulheres como devemos reagir a um assédio na rua, no trabalho ou entre amigos. Diga para seus amigos, colegas e alunos que eles não podem invadir o espaço de uma mulher, seja lá onde for ou quem ela seja.

Todos os dias, mulheres são obrigadas a lidar com comentários de teor obsceno, olhares, intimidações, toques indesejados e importunações de teor sexual afins que se apresentam de várias formas e são entendidas pelo senso comum como elogios, brincadeiras ou características imutáveis da vida em sociedade (o famoso “é assim mesmo…”) quando, na verdade, nada disso é normal ou aceitável. (Think Olga — Campanha Chega de Fiu Fiu)

PS: É triste pensar que para ser um exemplo de mulher forte temos que ter passado por poucas e boas na vida. Mas é bom saber que tenho mulheres fortes na minha vida, com quem aprendi e posso contar. A essas mulheres, especialmente à minha mãe e à minha irmã, todo meu amor.