Vinte e cinco de janeiro

“Vinte e cinco de janeiro de dois mil e dezesseis, às 23h10min”.
Assim é registrado a data e hora de um óbito, esse especificamente do homem que fez eu estar aqui. Passou um mês e às vezes parece que foi ontem e outras vezes que não aconteceu. Por falta de tempo ou por opção de não ter tempo, eu ainda não digeri, mas espero ter começado.

No dia 25 recebi as primeiras ligações pelo final da manhã, não lembro bem, informando que ele iria para o hospital, pois estava muito mal. Achei que ia ficar tudo bem, a gente sempre acha, e me recusei a ver que era grave, achei que algumas horas mais tarde ele mesmo ligaria dizendo que estava tudo bem. Porém, as próximas ligações não confirmariam isso. Eu estava no trabalho e tentei me distrair, não pensar, para esperar ele ficar bem, assim como faria pelas próximas quatro semanas até aqui. Naquela tarde em alguns momentos pensei em abrir o site de compra de passagens e correr para lá, mas imaginei que se fizesse isso estaria assumindo para mim que estaria indo apenas para a despedida. Chegou o fim da tarde, fui para casa e as notícias não melhoravam. À noite desisti do otimismo e me rendi a compra da passagem, aquele momento foi crucial para mim, eu murchei, queria dormir e só acordar quando tivesse que viajar, pois para mim ele não partiria enquanto eu estivesse dormindo. Não aconteceu, com duas horas de diferença de fuso, me acordaram de madrugada e eu já soube só pela ausência de palavras.

Consegui viajar de manhã e aquela resistência anterior a compra de passagem foi substituída pela imagem da minha irmã caçula, da minha madrasta, dos meus primos, só conseguia pensar neles, ou só queria como forma de me anular. Não me permiti chorar no caminho e seria assim por um tempo, eu pensava “aguenta por esses dias, depois quando voltar para sua casa, para seu marido, para sua mãe, tudo vai passar”.

Mas eu chorei. Chorei no velório quando o vi no meio da casa que fez com tanta dedicação, com tanta cor, com tanta arte, meu pai era um amante dos talentos amazônicos, gostava da cultura, da comida, da tradição e sua casa é um museu de tudo isso, com ele aprendi a ter orgulho de minhas origens, da minha cor e da minha história. E chorei no enterro quando amigos, assentados, familiares, todos que ele tanto apoiava discursavam e em ato de homenagem pegavam a pá e o “enterravam”. Naquele momento começava toda a minha reflexão sobre quem ele era e o que representa para mim. Confesso que ainda é difícil conjugar quando falo sobre ele, não sei se falo no presente ou no passado.

Os dias seguintes ao falecimento dele foi de certo modo quando eu me afastei da imagem dele como meu pai e a revisitei para conseguir enxergar o homem que ele era para todas aquelas pessoas que estavam ali, e que em um primeiro momento, faziam eu me sentir meio invadida em uma coisa que era para ser tão da minha família, tão nossa. Não foram poucas as homenagens que eu ouvi, que eu li sobre ele, e às vezes só conseguia pensar que não me importava muito o que ele era para essas pessoas e sim o que era para mim, e ao mesmo tempo em contraordem me afastava das minhas lembranças. Eu fingi que estava vivendo a dor do luto quando falava do homem que ele tinha sido para outra pessoas. E demorei a me reconectar com a imagem do que ele tinha sido para mim, na verdade demorei a me reconectar com qualquer coisa.

Eu me privei nas últimas semanas a lembrar da infância ao lado dele, de como ele me fazia acordar cedo para ir para a feira, eu odiava e ele sempre me dava um pastel de queijo para compensar. E tive que deixar de escutar por um tempo a playlist com músicas que aprendi a ouvir com ele. Ele sempre dizia: “isso que é música”, e sim, ele estava certo o tempo todo. Tinha medo de ouvir especialmente a música tema do ‘Rei Leão’ que ele sempre me mandava por mensagem complementando com “filha, estou ouvindo a sua música”, quando ele me deu esse VHS eu não parava de assistir.

Mas mesmo me privando ele continuou aqui, pois mesmo voltando para minha casa, eu veria o adesivo que o meu esposo colocou com “Bárbara Sidharta Gautama Corinthiana Dácio Nonato”, como forma de brincar com o nome que meu pai gostaria de ter me dado. Pessoas me marcavam em vídeos, fotos, textos sobre ele e me cumprimentavam sobre o bom homem que ele era, “todos são bons, mas esse era meu pai”, resmungava eu na minha mente, não me importando com o que ele era para os outros e mas afastando do que ele era para mim. E eu ouviria “Casinha Branca” uma das músicas que mais ouvi na infância por conta dele.

Eu queria ter na vida simplesmente
Um lugar de mato verde
Pra plantar e pra colher
Ter uma casinha branca de varanda
Um quintal e uma janela
Para ver o sol nascer

Nem sei ao certo como consigo escrever sobre isso, costumo ser bem reservada sobre meus sentimentos, alguns diriam ‘muito’, mas para mim é o suficiente. Admito que não me permito sofrer muitas vezes, sempre justifico para mim e tento me convencer da existência de uma justiça que compense tudo entre tristezas e alegrias. Lembro bem que enquanto minha mãe me dizia que não podia chorar, meu pai fazia de tudo para que eu chorasse ouvindo a história de vida dele. Eu não gostava, pois eu o via chorando, um homem daquele tamanho soluçando, relembrando todos aqueles detalhes e eu criança ainda, achava que era sofrimento. Hoje entendo que na verdade ele gostava de me contar, mesmo eu implorando para não ouvir, pois ele tinha orgulho da trajetória. E por conta dele e de sua teimosia sou composta de várias formas de enfrentamento. Sim, eu sou com-pos-ta, sou uma soma de traços dele, da minha mãe, do mundo a minha volta, e das relações que mantenho e cultivo.

Hoje sei que muitas partes dele estão aqui, em meus irmãos, na minha madrasta, em meus primos, na minha tia, e em mim. Eu por este motivo, após todo esse processo, cheguei a conclusão de que um homem bom se foi, mas meu pai ficou aqui, pois grande parte do que eu sou compactua com a história de vida dele e com a forma que ele escolheu para viver.

Muitos tem pais que mesmo os amando muito não podem sentar em uma mesa e conversar sobre qualquer coisa, incluindo a tríplice fronteira dos assuntos polêmicos: “futebol-religião-política”. E nesse ponto agradeço muito por ter tido um pai que acreditava em justiça social, ajudava qualquer pessoa que lhe pedisse como se fosse seu único dever, que respeitava qualquer pessoa mesmo que diferente dele, que não só acreditava, mas lutava por direitos sociais, por inclusão, que não tinha qualquer tipo de preconceito, e que em sua casa sempre aberta a qualquer pessoa e conforme alguns dos discursos em sua homenagem: “tratava todos com igualdade e respeito”.

Tenho muitos amigos, inclusive meu esposo, sem algum dos pais e por mais que tentasse eu não conseguia imaginar a dor de perder um pai, uma mãe. Agora eu sei, e sei que é uma dor que mesmo quando a gente evita ela corre na nossa direção, que agarra e que se a gente não digere ele continua lá crescendo, pois na verdade apesar da sensação de ela vir de fora, ela está aqui desde sempre, pois aquelas lembranças boas se transformam em saudade e saudade não diminui, saudade se solidifica. Toda saudade é uma casinha que você tem que levantar, mas você pode construir ela de uma forma que fique mais confortável para você, ou então ela se levanta sozinha sem ordem, sem planejamento e toma conta de um espaço maior do que deveria.

Nesse último sábado vi minha afilhada sendo abraçada pelo meu cunhado e lembrei que eu costumava ser abraçada assim por ele. Chorei, e não queria que ninguém percebesse, mas meu esposo percebeu então, posso não saber como estou conseguindo escrever isso, mas sei o motivo. Queria me explicar, e até talvez pedir desculpas previamente por momentos onde eu só precise chorar sem que ninguém me pergunte “está tudo bem?”. Queria responder previamente que sim, eu estou, só não consigo falar e estar aqui às vezes, pois estou em minhas lembranças solidificando todas essas lembranças.

Eu só queria dizer aos que me perguntam que sim, eu estou bem, estou construindo a minha casinha branca.

Obrigada pai, por mesmo depois de partir me ajudar a entender que a forma com que tratamos o mundo importa para as pessoas que nos amam e também a quem amamos.

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