do limão, uma limonada
cedo na vida somos apresentados àquela figura que depois se torna uma constante: a tal da opinião dos outros.
o que os outros vão pensar se você ficar brincando na rua até muito tarde. o que os outros vão pensar se você for pra escola com roupa suja, com roupa amassada, com roupa surrada. o que os outros vão pensar se você começar a namorar muito cedo — ou muito tarde. o que os outros vão pensar se você não fizer uma faculdade. o que os outros vão pensar se descobrirem que você foi demitido. o que os outros vão pensar da gente, afinal.
muita galera acaba sucumbindo a esse coletivo abstrato de pessoas e segue por toda uma vida tomando decisões guiadas pela opinião social.
há também quem esteja pouco se floodendo para o que qualquer pessoa de fora vai achar ou pensar da sua vida, e opta por levar aquela que quiser, do jeito que bem entender. heróis.
não se pode negar, no entanto, que até mesmo quem não dá a mínima para o que os outros vão pensar acaba sendo, ainda que indiretamente, influenciado pela opinião deles de alguma forma. seja para o mal, seja para o bem.
fazia mais de ano que eu precisava pegar umas férias do Facebook. estava sendo tóxico, estava sendo limitante, e eu estava me sentindo engessada: presa na versão virtual que eu mesma criei de mim.
foram várias tentativas infrutíferas de fazer a coisa funcionar; uma pequena coleção de fracassos compartilhada somente comigo mesma. eu, exclusivamente, sabia que havia fracassado uma, duas, dez vezes nas minhas tentativas. e pelo jeito seguiria fracassando.
foi então que decidi tomar uma atitude mais drástica e apelar para eles, aqueles de quem passei uma vida toda fugindo. aqueles para quem passei uma vida toda cantando lálálá mental a cada possível tentativa de intervenção no meu caminho. eu apelei aos outros. dividi com eles a minha decisão. assim, voluntariamente, me entreguei ao policiamento da opinião alheia e de repente passei a ter uma pequena multidão invisível para quem dar satisfação em caso de fracasso. e foi assim que encarei de uma forma mais incisiva, finalmente, minha decisão.
seja numa situação patética como essa de vício em rede social, seja numa decisão grandiosa do tipo mudar de emprego, de profissão, de cidade, de país: compartilhar um plano com as pessoas, por si só, tem o condão de dar vida a esse plano, e de nos “forçar” a lutar por ele. muitas vezes parece, inclusive, que as coisas não são reais até não contarmos para alguém, como acontece com pessoas que descobrem uma doença grave ou terminam um longo relacionamento, por exemplo. até que ninguém saiba, não será real.
de outra ponta, é claro, há que se ter um cuidado sobre o que compartilhar com esses outros, sabendo que essa massa crítica de pessoas nem sempre guarda em si os melhores sentimentos e as melhores energias, e da mesma forma que tem o poder de impulsionar o nosso eu inerte a tomar atitudes e tirar planos do papel, igualmente tem o poder sobrenatural de zicar a porra toda.
assim, por mais cruel e intimidadora que a opinião dos outros possa ser, quando usada com um pouco de malandragem é muito capaz de nos mover em favor de nós mesmos.