O verbete mamãe na entrada do dicionário

Mãe é uma coisa que dói na gente. Que cria menina sozinha (a mãe, e, às vezes, as meninas — digo, também são sozinhas, porque aprendem das mães). Mãe é uma coisa que não estranha: você pede sorvete de menta e ela segue com a vida, acariciando a sua orelha como se não houvera uma meleca verde-bolha sobre a casquinha e você lambendo a meleca. Mãe é uma avó. Que é mãe duas vezes, às vezes dezesseis. Mãe é uma coisa que todo mundo tem e todo mundo diz que ama, mas mãe na verdade é um segredo e não um amor: é um algo ainda sem nome. 
Mãe faz crescer na barriga, por dentro, uma coisa que não fala, mas esta coisa possui grandes olhos assustados, que hoje em dia já nascem abertos, antigamente era diferente. Mas desde os tempos mais antigos, até hoje, é por causa das mães que todo mundo porta aquilo a que se convencionou chamar “umbigo” ou “imbiguinho”. Depois, este ser que não falava mas existia no mundo, com seu imbiguinho à mostra, se torna uma coisa muito perguntadeira, uma coisa muito perguntadeira que se move pelo jardim com uma cabeça cheia de solidões curiosíssimas e a mãe então é quem responde todas as perguntas da coisa perguntadeira, mas algumas perguntas não têm resposta: “Ô mãe, de que são feitas as estrelas, é tipo assim fosse um vaga-lume ou o pisca-pisca de Natal e onde é que liga no céu tem tomada ou é só tudo estrela mas onde é que liga então?”.
Mãe até dói, mas às vezes dói é muito na gente, fere o coração feito uma adaga desamolada. O que ninguém fala é que nem sempre mãe gosta de fazer o que nos desenhos animados chamam de “chocolate quente”, ou sabe passar Merthiolate na gente, ou falar “download” (elas falam “daulon”). Mas mãe é sempre uma coisa muito maravilhosa, mesmo se for só para pensar sobre, porque é um segredo: não dá para dizer de que é feito o segredo, a menos que se tenha uma mãe, e mesmo quando se tem uma mãe, muitas vezes você só consegue descobrir que elas amam produtos Dove porque têm 1/4 de creme hidratante, sabem costurar botões e constroem prédios sobre a água. Muitos sacrifícios.
Às vezes elas constroem prédios mas às vezes trabalham como cabeleireiras ganhando muito pouco e ainda assim fazendo de tudo para você ir às festas de aniversário dos amiguinhos com a melhor roupa que ela poderia comprar. Às vezes mãe não tem dinheiro para comprar a melhor roupa que ela poderia comprar para você, no Natal, e você fica triste, mas ela é quem vai ficar mais triste ainda, e você nem imagina o tanto. Mãe às vezes usa sandália de borracha que chama Ipanema Gisele Bündchen e diz que vai bater em você e depois chora muito.
Mãe é mãe de menina e menino, mas só menina pode ser mãe, o que claramente demonstra uma certa superioridade do duplo cromossomo X. Mas mãe também pode ser uma coisa que nunca abrigou na barriga qualquer criança e ainda assim foi mãe. Mãe é uma coisa muito linda que usa batom cobre e isto lhe cai bem, o que é estranho. E mãe às vezes carrega na barriga por nove meses um bebê que ao nascer talvez vá morrer e ela sabe disso e escolhe ir em frente para poder pelo menos por alguns minutos conhecer seu rostinho e o seu cheiro.
Finalmente, todo mundo diz que mãe é a melhor coisa do mundo, mas a ordem está trocada: mãe é um mundo, e a melhor coisa é tê-la, mesmo que ela não saiba de que são feitas as estrelas ou não saiba pregar botão. E por enquanto as mães estão sendo formadas da mesma matéria das estrelas, um segredo escuro que faz a gente dormir com saudades siderais e sentindo o cheiro dela na fronha, e, aos trinta anos, quando se sai com os amigos na noite, no meio de tudo se pensa: queria tanto voltar para casa. E voltar para casa é voltar para a mãe. Que na maioria das vezes tem cheiro de sol ou de sorvete de menta e se move como uma massa macia que abraça e chora bastante e ensinou as estrelas a cantarem e a sorrirem. 
As estrelas brilham muito, de fato, porque estão sempre conversando com as mães em todas as partes do mundo. É uma ciência misteriosa, como se pôde perceber, mas também muito simples: como todo bom segredo, muito simples, doendo na gente feito o mistério das estrelas.

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