A última carta

“Never change, never stop/And now it’s gone/It doesn’t matter what for/But when you build your house, then call me home.”

São Paulo, 12 de junho de 1897.

Querida,

Andei pensando esses dias em nós e no mundo. Descobri que a feliz redenção de buscar perdão e esquartejar seu próprio ego por isso pertence somente aos mortos que, apenas por azar fatal, como eu, ainda respiram sob um leito de lençóis brancos. Só, e somente só agora, eu quero te pedir desculpas, em nome de mim e daqueles que te levaram para longe.

O meu fim não podia ser em outro lugar que não aqui, num lugar próximo do que me espera no Purgatório: o fedor do vômito e do catarro espalhado pelo chão, a umidade da parede amarela e rachada que um dia fora branca e a luz que falha em iluminar e o olhar vazio e desesperado de outras mulheres que lutavam contra seus próprios demônios e doenças, enquanto meia dúzia de irmãs molhavam o rosto delas e rezavam… não sei, um Pai Nosso ou algo do gênero, não me lembro mais. Também, depois daquele dia em que eu te deixei, nunca mais pude pousar meus pés em uma igreja sequer.

Agora, como toda pessoa que está prestes a ser guilhotinada ou que ainda possui alguns momentos de vida graças ao poderes da medicina, dou-me o direito de dizer minhas últimas palavras. Quero te contar por quê fui lhe proteger dos julgamentos divinos da Vida, da frieza da alma humana desta cidade, depois de décadas a refletir e me martirizar. Em todos aqueles meus 17 anos de vida, creio que nunca havia amado ninguém tanto quanto te amei. Mas você queria crescer — e aparecer — dentro de mim, e isso eu não podia permitir. Há quem diga que isso seja falácia minha, mas nunca se creu no mito da Virgem Maria, santíssima mulher que deu a luz ao Salvador; pensa-se na mulher-Medusa, criatura iludida por luxúria e marcada pelos pecados de Eva. Apedrejada, maldita, explorada e grávida. Fugir nos levaria a morrer de fome e frio, pois a Família tinha uma reputação a manter; ficar nos levaria ao casamento forçado — e confie em mim, você odiaria conhecer seu monstro criador — e te deixar em outro lugar qualquer, bem… a ideia era tão remota e a minha devoção por você tão grande, que Céus! nunca me passou pela cabeça.

Todas as noites que procederam aquele dia foram, ao mesmo tempo, meu refúgio e minha tortura. Sonho só você, junto comigo, num exuberante casarão todo pintado de branco e ornado de flores azuis no jardim… Ah! que anjo você é, correndo por entre os quartos e gritando meu nome pela casa inteira, como se estivesse, aos quatro cantos do mundo, dizendo que a felicidade era o único sentimento que reinava em nosso peito. A sua feição ainda me é estranha: de vez em quando, um bebê loiro, uma menina ruiva, uma mulher morena; de vez em quando, eu mesma. Dói, e choro em dizer isso, mas fora de nossas divagações esse amor seria insustentável. Até lá nós já teríamos nos transformado em animais selvagens que, em busca de um mísero prato de comida e alguns trapos, venderíamos a única propriedade que é nossa por excelência. É dito que Deus é o único que tem o poder do Destino; eu tomei o lugar d’Ele e tracei o seu, e pequei. Ele pode até ser o Senhor dos Senhores, mas mãe só eu. E eu decretei que sonharás pela eternidade, e eu sonharei por você, e agora com você.

Não tenho mais esperanças de que a Humanidade vá avançar além da ciência daqueles que ousam nos submeter à crueldade santa de ser mulher. Numa outra realidade, num outro sonho eterno, espero te reecontrar. Tudo o que eu sempre quis foi te afastar das amarguras dos homens que caminham pelas ruas e entram nos Templos Sagrados, mas tudo o que causei foi morte. Mesmo te protegendo e te salvando desta podridão, foi morte.

Nos mataram. Eu te matei. Você me mata lentamente e eu me mato também. Peço perdão, mas também peço que me leve e me tire desta mesma cama em que eu te tirei de mim.

Espero e quero lhe ver logo, no nosso casarão, somente nós duas.

Eternamente,

sua mãe.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.