Um olhar sobre o Emmy através das comédias

Esse foi o ano que assisti pela primeira vez o Oscar tendo assistido todos os filmes indicados à melhor filme. O cinema nunca foi muito interessante pra mim, por vários motivos — dentre eles, a insuportável figura do “cinéfilo”, o alto número de filmes dublados, a necessidade de assistir 87 filmes antigos e chatos de mais de 2 horas cada, a difícil acessibilidade, já que o ingresso não é barato— mas um dos principais sempre foi o fato de não me interessar em investir 190 minutos do meu dia em um dramalhão febrosíssimo. Mesmo assim, quando me comprometi a assistir os filmes e manter uma meta de assistir pelo menos um filme por semana, confesso acabei me interessando mais pelo cinema.

O mundo das séries no entanto sempre foi mais atraente, pela forma de consumo mais rápido, adaptável à rotinas, fora dos holofotes — do jeito que eu sempre preferi — e o senso de continuidade de uma história, de desenvolvimento de personagens e de mudança constante de vários mundos muito mais interessantes à mim. E sinceramente, acho que as séries de comédia são melhores que os dramas. Não pelas piadas ou pela vibe, mas pela variedade, — não existe gênero melhor para experimentar novas fórmulas ou formatos— pela facilidade de abordar temas e porque eu consigo me importar muito mais com alguém que me faz rir, como se fosse um amigo.

E minha surpresa ao assistir alguns filmes, e ver que essas séries de 20min tem quase a mesma carga dramática de alguns filmes de drama me surpreendeu bastante. Claro que não dá pra comparar You’re The Worst com Manchester By The Sea, mas as comédias dessa nova década, com todo esse ar experimental e por vezes até dramático, conseguem me abalar muito mais ao ver Gretchen Cutler e seu caso seríssimo de depressão do que ver um Casey Affleck e um moleque irritante.

Emmys, you’re the worst

O que me indigna — e chegando ao tema do texto — é que as melhores comédias da atualidade não são reconhecidas porque a premiação que devia reconhecê-las parou no tempo e vive indicando as mesmas séries ano após ano. Se lá fora, existem artigos pedindo para que os votantes parem de eleger House Of Cards todo ano, nas séries de até meia hora o buraco é ainda mais embaixo. Vamos analisar as indicadas desse ano e de 2016.

2017: Atlanta, VEEP, MASTER OF NONE, SILICON VALLEY, BLACK-ISH, UNBREAKABLE KIMMY SCHMIDT E MODERN FAMILY;

2016: Transparent, VEEP, MASTER OF NONE, SILICON VALLEY, BLACK-ISH, UNBREAKABLE KIMMY SCHIMDT E MODERN FAMILY.

É PRATICAMENTE A MESMA COISA!

Claro que Veep é quase um patrimônio da TV atual, Master Of None é uma das melhores comédias do ano e Atlanta foi unanimidade entre os críticos. Mas sinceramete, Modern Family por exemplo, ainda é uma das melhores comédias da atualidade? Ou a pior temporada de Unbreakable Kimmy Schimdt é melhor que Dear White People?

E quando você olha pra alguns dos melhores materiais exibidos ultimamente, como a própria You’re The Worst, Casual, The Good Place ou Fleabag sendo completamente ignorados, é ainda mais triste. E não me venha falar que só eu que vejo essas sérires, já que ano passado foi um “breakout year” para The Americans, outra série que não tem um público de um Game Of Thrones. Além disso, as séries citadas acima, assim como a série do FX foi produzida por canais que têm um histórico excelente com seus materiais originais — são exibidas respectivamente no FXX, Hulu, NBC e Amazon Prime.

Phoebe Waller-Bridge, querida, eu também ficaria assim se minha série fosse ignorada e Black-Ish fosse indicada

Comparando rapidamente com minha outra paixão, o mundo dos esportes, quando um time constrói uma dinastia e ganha título atrás de título — algo parecido com o que o New England Patriots faz na NFL por exemplo — , sabemos que aquele time está entrando pra história com seus fatos. Mas, por exemplo, quando um campeonato é equilibrado e todo ano algum time diferente ganha, raramente lembraremos daquela época daqui a uns 20 anos. Dinastias marcam épocas e escrevem a história. É comum para os fãs do futebol brasileiro esquecerem quem foi campeão brasileiro entre 2009 e 2015 por exemplo.

E esse é o caso de Veep, que por mais que eu não seja o maior fã, está construindo a sua dinastia sendo liderada pela incrível Julia Louis-Dreyfus. E mesmo que eu não role de rir assistindo a série, eu acho justíssimo todos os prêmios conquistados pela série e digo que aos poucos, a comédia política vai se marcando cada vez mais entre os grandes nomes do gênero nos últimos anos.

No entanto, puxando novamente Modern Family — que vai se provando a House Of Cards com piadas — é justo dizer que essa é uma série melhor do que uma Insecure por exemplo? A série da HBO é protagonizada por duas mulheres negras, com quase todo o elenco negro e fala principalmente sobre a amizade das duas, além de traição, relacionamentos, falsas amizades, ambiente de trabalho, internet, e é claro, racismo.

É bem provável que Unbreakable Kimmy Schmidt seja indicada até o fim dos tempos e que Julia Louis-Dreyfus continue usando seus troféus como peso de papel. O que é triste, já que tem tanta coisa BOA que os votantes ignoram por causa dos lobbys e das campanhas das emissoras. O ideal seria que, assim como na Academia do Oscar, houvesse alguma reformulação ali entre o pessoal responsável por isso, pra quem sabe os resultados serem diferentes. Mas o que pode se esperar de uma premiação que deixou The Leftovers de fora né?

PS: Ninguém perguntou, mas meus indicados seriam Master Of None, Veep, Atlanta, Insecure, Fleabag, You’re The Worst e The Good Place.