Hiato
Dia 01
Abro um documento em branco, que me serve perfeitamente como álibi para escapar do trabalho. São dezessete horas no décimo nono andar de um edifício comercial na cidade de São Paulo. São muitos os pensamentos que me passam a cabeça, e muito extenso é o tempo que perco escrevendo e lendo coisas completamente inúteis, floreadas com belas fotos e outras imagens que me geram nada além de ansiedade.
Todos trabalham mais ou menos intensamente, há um clima de eficiência no ar. Estou de ressaca, já estou isenta da produtividade e por isso não me sinto culpada por usar esse espaço disfarçando minha total ausência de espírito no escritório.
Tenho pensado recorrentemente sobre como chegar ao meu objetivo final: contar histórias.
Eu quero dirigir e escrever meus filmes, eu quero escrever histórias que possam significar coisas, que descrevam de forma bonita o que vivemos, como vivemos, nossas lutas cotidianas e nossas idiossincrasias. Quero escrever sobre o exercício da resistência e a fluidez do amor.
Vi num filme baseado na obra do Marçal Aquino a frase “o amor é uma invenção da literatura burguesa” e isso nunca mais saiu da minha cabeça. Considero um fato sobre o ser humano, somos inventados. Desde que criamos os nossos próprios registros — escritos, ou visuais — considero que nenhum ser humano tem autonomia completa em sua formação subjetiva. Somos todas invenções da literatura burguesa, do cinema, da cultura pop, da nossa idolatria e das nossas referências. Somos os livros que lemos e os filmes que vimos.
Eu queria ler todos os livros existentes no mundo e ver todos os filmes que já foram feitos na face da terra. Eu queria poder dizer que conheço todos os autores teóricos acadêmicos, eu queria ser a rainha da epistemologia. Mas não serei nunca porque me perco entre a preguiça e o desinteresse, o excesso de informação circulando e o meu desejo de viver com as pessoas. Troco qualquer sessão de cinema por meia dúzia de cervejas com pessoas mais ou menos interessantes. Tem sido assim desde que me mudei pro Rio de Janeiro, há 11 anos atrás. Sempre preferi a rua, sempre preferi o barulho da multidão, sempre preferi bagunça. Nunca consegui foco para ver tudo que gostaria, para estudar nada muito a fundo, me sinto uma fraude, com ensino superior incompleto e uma coleção de livros não lidos invejável.
Há 6 meses em São Paulo, percebo que a cidade me obriga a lidar muito mais com a solidão. Não só por ser esse imenso conglomerado de pessoas que vieram do interior — de outros países ou daqui mesmo — mas também por ter chegado a uma cidade nova com quase 30 anos. Tenho muito desejo de juventude, mas não é assim que o mundo exterior a mim enxerga. E não há problema nisso. Está tudo bem. Estou me adaptando a essas visões e a paz que ela pode trazer. Tem sido bom. Tenho sentido cada vez menos desconforto.
Mas também há também aquela angústia absoluta de não ser nada do que eu imaginava ser, apesar de saber exatamente quem sou. Sei exatamente o que quero realizar e sinto que só há uma saída: ou pelo menos tento realizar aquilo que quero, ou procuro terapia para que eu possa aceitar a não realização daquilo que desejo fazer. No momento estou na fila de espera do atendimento terapêutico.
Tenho cada vez mais tomado consciência das dificuldades que a minha história de vida me trouxe. Num movimento mais resiliente que rebelde, sinto que as pessoas em minha volta não tem esse mesmo entendimento. Elenco algumas dificuldades materiais e outras socialmente construídas. Basicamente sou pobre e mulher. Mas não somente.
Tenho uma memória muito vívida da professora de Língua Portuguesa elogiando muito minha redação ao final do ano, disse-me que eu deveria ser jornalista ou escritora, mas que não deixasse descrever. Aquilo me causou um pânico absoluto. Ser “bom” em algo significa comprometer-se aquilo. Significa amar, aprimorar-se, estudar, buscar, lidar com críticas. E no caso da escrita significa principalmente se expor. Ser dona das duas ideias e jogá-las ao mundo. Eu nunca me senti nem dona das minhas ideias nem capaz de fazer com que elas circulassem, pois sempre considerei tudo que faço e fiz muito ruim.
Nesse processo perdi 11 anos de escrita. Entre um blog de poesia e alguns rascunhos de cenas soltos, dois roteiros e alguns trabalhos acadêmicos bem mal ajambrados, foram 11 anos de hiato na minha escrita.
Por isso retomo agora, como prática e teoria. Como escudo, como terapia, como ferramenta de empoderamento. Preciso urgentemente de uma maneira de antecipar minhas frustrações de nunca ter tentado. Posso viver com o não, mas não posso morrer com as dúvidas.
É preciso começar agora, antes tardo do que mais tarde ainda.
27 de Julho de 2017
Ao som de Heitor Villa Lobos — Bachianas brasileiras.
