São 3 da manhã. Cheguei, sentei, respirei, e depois de sair por aí acho que consegui processar um pouco mais.

Não foi um ano fácil, mas quanto maior é o esforço que faço para entender e aceitar o que me cerca, mais me bate uma tristeza.

Existia um tempo lá atrás, em que eu achava legal o César Maia, maluco, de jaqueta, que fez obra pela cidade toda… foi em uma outra vida. O tempo do Moreira Franco, aquele cara que voltou a fazer a obra do Metrô.

É amigo, a consciência demorou pra despertar por aqui. Eu lembro do Jornal Nacional e os gatilhos da inflação. Eu lembro da compra do mês e lembro de não entender porcaria nenhuma de dinheiro. Como tudo mudava de preço tão rápido. Eu me lembro de já ter tido uma simpatia pelo Fernando Henrique e o plano Real, apesar de ter ido à rua protestar pelo impeachment do Collor, me lembro claramente de como foi bom indexar o dinheiro pela URV e depois do cruzado novo, vir o Real e finalmente as coisas pararem um tempo com o mesmo preço.

Eu lembro de pagar 55 centavos na passagem de ônibus. Desculpa aí.

Sabe o que eu digo muito aqui em casa? Que pobre tá acostumado a pedir "com licença" e "desculpa qualquer coisa". Eu que sei quanto já fiz isso. Quem é pobre tá acostumado a achar que tá sempre errado.

Voltando um pouco no tempo, chego na minha infância. Pobre, mas privilegiada. Tive muita coisa. Meus avós, que foram figura presente em minha criação nunca me deixaram faltar nada. Exemplos de generosidade e planejamento. Cá lembro eu de quando éramos 7 num apartamentinho de 2 quartos e uns 45m2. Confesso que nunca fui infeliz por isso. Nunca quis muito mais do que tinha e nunca me senti frustrado por nada. Já dizia a minha vó: "A gente tem que ser feliz com o que a gente tem". Aquela senhora, cozinheira, mãe de 4 filhos que ainda foi lá e adotou mais um pra fechar a conta em 5.

Quantas vezes fui orientado a não aceitar nada na casa de ninguém, a dizer não, a pedir obrigado, a pedir "desculpa qualquer coisa", rs, hoje é engraçado, mas amigo, pobre é criado pra não se sentir bem do lado de rico.

Nossa cervejinha é na calçada, o futebol é no asfalto, quando o "bicho" passava armado na rua, todo mundo já sabia: PRA CASA AGORA!

Já vi vacilão tomar de pau. Já vi o "corre, agora" e VRRAUU, tiro nas costas. Já troquei garrafa de cerveja por dinheiro pra tomar um guaraná Taí. Já fiquei com cara de paisagem olhando pro metrô sem ter 1cm pra entrar no vagão. Já andei em ônibus que parece orgia de tão cheio e que você tem que pedir licença pra peidar, afinal, a gente tem que pedir licença, ser educado.

Sabe Cosme e Damião? Ganhar bola, carrinho, brinquedo de traficante? Aliás, traficante não, galera do movimento. Passar e baixar a cabeça, sim senhor, pra todo mundo. Bandido e policial. Sabe o significado da palavra "DURA" mermão? Te garanto que não é a pizza da pizzaria guanabara fria.

Dura é foda. É intimidação. De onde vem? Pra onde vai? Trabalha? Cadê o documento? Acho que eu já vi essa tua cara filho da puta. Fala, não fala, cala a boa. Tapa nas costas. Esculacho… a o esculacho. Se você já foi pobre aqui no subúrbio do Rio amigão, você já vivenciou ou já ouviu falar nisso.

Ser preto e pobre é pedir pra tomar uma dura.

Lembro da minha avó indo na Universal e me levando. Lembro como se fosse hoje. Lembro da galera recebendo o "capeta", lembro das obreiras, lembro de gente que dizia que falava a lingua dos anjos. Lembro como se fosse hoje e ninguém mais do que eu mesmo assistiu aquele show de horrores e como eles pediam… como pediam… pediam tudo… carro, cartão, salário… faz o sacrifício irmão, Deus vai te recompensar. Deus vai tocar a sua vida. Sei.

Minha avó, que descobriu estripulias do meu avô frequentou muito Universal. Corrente dos 70 pastores, fogueira santa de Israel. Até hoje não sei como virei pastor também. Meu avô resolveu as estripulias dele.

Passei pelo Colégio Pedro II e muito aprendi sobre diversidade por lá. 
Aprendi que filho de rico tem computador em casa, aprendi que a galera da Tijuca ia no Mc Donalds e no Terceiro Milênio. Terceiro Milênio? Que porra é essa? Só sabia pelos amigos mesmo. Nunca fui, nunca estive lá. TV a cabo? É de comer? Tênis Nauru ao invés do sapato preto do colégio? Um dia meu avô comprou um falsificado pra mim em Madureira, porque o da Redley? De jeito nenhum.

Me lembro de cada vez que meu avô dizia: Se eu comprar isso, como vamos comprar o pão, a manteiga e o leite pro café da manhã? Difícil, mas me deu uma perspectiva incrível da vida. Acho que por isso nunca fui infeliz.

Eu cresci acreditando que a gente pode compartilhar mais. Sabe porque? Porque quando você é pobre, você compartilha, sabe?
Quando tem um vizinho passando mal, as pessoas se solidarizam. Lembro que meu avô tinha um carro. Ele ensinou muita gente a dirigir. De graça. Lembro que ele era sempre chamado de madrugada quando tinha alguém passando mal, ou até criança ia nascer. Uber? Não tinha nessa época. Taxi? Isso é coisa de rico ou vida ou morte. Caro demais.

Sobrava pro seu Marinoel fazer isso.

Quantas vezes vi dona Neuza minha avó fazendo docinhos pra festa dos vizinhos? E bolos? Dobradinha? Galinha com Jiló? Dando aula de tricot que ela aprendeu sozinha. De crochê, de culinária. Tudo isso sem cobrar UM CENTAVO DE NINGUÉM.

Sabe por que? Porque quando a gente é pobre, a gente aprende a ser SOLIDÁRIO.

Vi muita coisa acontecer, e minha visão sobre o mundo foi se formando nessa coisa da pobreza e da transição para menos pobre. Consegui alugar um apartamento, vir morar perto do trabalho e quando menos vi, estava aqui inserido na Zona Sul.

Mas sabe o que acontece? Eu sinto vontade de pedir licença o tempo inteiro aqui. Quando me olho no espelho, não sinto pertencimento a isso aqui. Sinto que sou sempre uma peça estranha e que por muitas vezes me olham desse jeito também. Não teve um dia que fui ao shopping e não me senti assim.
São salvador? Baixo gávea? Shopping da Gávea, Shopping Leblon? Fashion Mall? Em todos esses lugares eu tenho uma ou duas historinhas pra contar.

Eu sei quantas vezes me olharam atravessado no meu condomínio achando que não era morador, ou até outras pequenas coisas, que servem pra te lembrar que você é pobre ainda e tá fora do seu lugar.

Cresci querendo uma sociedade mais solidária. 
Sempre sonhei em ajudar a todo mundo. Já dizia minha outra avó que eu prometia fogões e geladeiras iguais aos dela para a moça que trabalhava lá em sua casa. Eu sempre quis ver todas as pessoas com oportunidades iguais.

A gente vai crescendo e as coisas vão amadurecendo. Hoje quero igualdade de oportunidades para todos. Não queria que os pobres fossem os "de lá de trás". Não queria que o PSOL achasse que o ponto mais central do Rio fosse o centro da cidade. Alías, ele é o limite externo da Zona Sul carioca. Marca contagem de votos em Madureira PSOL. Marca!

Ser solidário, querer direitos iguais, defender direitos humanos, defender o estado de direito, exigir transparência, não querer o lucro custe o que custar é pedra fundamental para uma sociedade mais justa. Isso é ser de esquerda. É ter solidariedade e democratização das oportunidades.

Não quero jogar o pobre de volta pra favela. Não defendo bandido, muito menos mau policial. Defendo a dignidade do ser humano, não importa o que tenha acontecido.

Parece que virou moda não ser de esquerda;
Parece que virou moda xingar quem é de esquerda;
Parece que virou moda ser da família tradicional Brasileira.
E assim vamos entregando nossa democracia para os oportunistas de plantão que encontraram nas nossas próprias debilidades oportunidade para tomar tudo de assalto.

Eu quando olho o Crivella lá e quando vejo que teve gente que ainda fez campanha a favor da anulação, me dá um asco aqui dentro, uma coisa que não sei explicar, é uma tristeza.

Quando fui hoje conferir a apuração, percebi o quanto o PSOL amadureceu e avançou. Quanta gente se comprometeu com um cara Branco, da Zona Sul que estava ali tentando dar um recado, que dedicou uma vida inteira à causa dos direitos humanos. É tocante.
Mas ao mesmo tempo foi difícil notar a falta dos rostos mais comuns ali, aqueles rostos sofridos, aquelas mãos de quem trabalha duro todo dia e que daquelas pessoas que estão ali, mas tem que trabalhar amanhã . Realmente senti falta. Realmente acho que o diálogo do PSOL tem que ser mais abrangente, tem que ser ainda mais inclusivo, tem que falar pro pobre que acha o César Maia legal.

Tem que explicar por A+B, tem que ir lá e "sujar a mão na coisa" tem que explicar do lado, tem que ganhar mentes e corações, tem que trazer aquela lucidez que no seu discurso não está alcançável.

Quero dizer, por úlimo, que se você está promovendo uma "caça" aos "esquerdistas". Saiba você que você está tentando acabar com uma ideologia. Uma ideoligia que quer o melhor para todos. Inclusive para você.

Vai ter muita luta, vai ter oposição responsável, vamos esquentar o caldeirão. Mas vamos juntos. Vamos sair da Zona Sul. Vamos ocupar o subúrbio. Vamos ir lá e fazer concorrência. A igreja já está lá.

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