conto de ano novo

foto de bagadefente

I
chove.
quantos textos já começaram com “chove”?
quantos romances na chuva?
chove.

II
adoro olhar o mar, a linha reta do horizonte. adoro contrastes.
há quase duas horas, hipnotizado, olho o mar. adoro olhar o mar.
desde antes, desde quando cheguei, você já estava aqui, sentada, blusa branca, calada, contemplativa, perna dobrada. você também adora olhar o mar?, pensei lhe perguntar. mas não o fiz, apenas cogitei. percebo que faço isso muitas vezes: penso, mas não faço. faço, mas não faço: curioso, né? o português é uma coisa engraçada, uma língua engraçada. acho que todas as línguas são engraçadas. exceto aquela língua longe, que mesmo perto foge das nossas bocas. mas aqui, sentada, calada, contemplando a linha reta do horizonte, você não deve estar interessada nisso, né?

a água vem, a água vai, a água volta. meus pensamentos vem, vão, voltam. falando em vir, você vem sempre aqui? foi outra coisa que cogitei lhe perguntar, mas também não o fiz. melhor assim. não gostei do corte do teu cabelo, ressalta os traços grosseiros do teu rosto. será que você está hospedada numa dessas casas aqui atrás? também poderia te perguntar isso, mas você poderia pensar que sou um psicopata, se assustar, fugir, sei lá. estou de passagem e você? tirei uma folga pra caminhar na beira da praia, adoro olhar o mar. também gosta? e de sorvete, gosta? eu não. sim, todo mundo, mas eu não. sei lá. então, o papo poderia ter sido bom, mas preciso ir. tô com a sunga úmida, areia na bunda, vai que assa. tchau, seria legal ter te conhecido.

adoro contrastes, e você?

III
muita gente, movimento, dia de feira na rua.

alheios à confusão sonora ao nosso redor, contrariando a lógica das multidões, caminhamos em silêncio. assim como o cheiro de fritura no ar, nossa tristeza é palpável.

tocamos o interfone, o portão se abre. somos recepcionados e encaminhados para uma antessala. a cada passo a densidade do nosso existir aumenta exponencialmente. pedem que ela vista uma camisola cinza no banheiro, entramos juntos. uma, duas, mil: de lágrimas, cachoeira. olhos úmidos encaram olhos afogados: nos abraçamos, desistimos, vamos correr daqui. aos prantos, descompassados, pedimos desculpas. do outro lado da mesa, de branco, dissimulação, cinismo explícito. do nosso, certeza & alívio. com pressa, batemos o portão e voltamos a ser multidão.
aquele foi o melhor pastel que comi na minha vida.

ilustração de bagadefente & ravi chang

IV
dentro da noite luminosa eu percorria a sagacidade dos teus desejos mais remotos, removíveis, dinossauro. jamais quis saber a cor da tua geladeira, o nome de solteiro da tua mãe. o portão range com o cão, filmes trash as três da tarde. quantos dias até isso passar, até a gente se encontrar? não sei. nem sei se quero saber. a chama que aquece também é a chama que queima, teu silencio rasga meus tímpanos, me transforma num micróbio — mas só nas horas vagas, quanto teu aconchego me faz falta. recordo daquele planalto no qual, altos, mesmo sabendo que não aconteceria, fizemos planos prum futuro conjunto, planos que se transformaram em pó, poeira, poesia.

V
o primeiro jogo de cartas que aprendi a jogar, ainda bem criança, no colo do meu pai, foi poker. o jogo acontecia em casa semanalmente nas noites de quarta-feira, sempre tinha pizza em quadradinho; “pra aperitivo”, pediam ao telefone. não tenho memória deles bebendo, mas certamente devia rolar um whisky, cervejas, cigarros, anos 90. quando as pizzas, duas, chegavam, todos paravam para comer. na mão da volta, quando o pingo aumentava — não tinha (ao menos não me lembro) essas coisas de small, big, all win & afins in english, era aquele outro estilo, de sete a às, meu pai me deixava jogar uma rodada. com a barriga cheia de pizza & guaraná, aquilo era meu ápice. depois era dar tchau pros tios, um beijo de sorte e boa noite no meu pai, entrar para assistir tv com minha mãe até dormir.

hoje meu filho mais novo estava estava na mesa, pela primeira vez observando um jogo de poker. de frente para mim, na ponta oposta da mesa de madeira. apostando ou recebendo as cartas, ele vibrava a cada movimento que eu fazia. o mais sábio dos deuses me sorriu, soprou minhas cartas, ganhei uma bolada na primeira mão da mesa. meu filho comemorou, saiu da mesa e foi brincar.

é primeiro de janeiro, chove.

ilustração de lis garzeri, ravi chang & bagadefente

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