Quizás
ou
O Curioso (a)Caso do Caos na Arte

original art by bagadefente

ao longo da existência humana, diversas perguntas jamais foram respondidas com aceitação absoluta & inquestionável, e muitas delas provavelmente não serão — que bom! uma delas, talvez a que mais me fascina — a mim & a tantos outros — é a eterna questão O que é Arte?

“Arte é a expressão do belo.”
“é a atividade humana ligada às manifestações de ordem estéticas.”
“a materialização dos sentimentos.”

basta um google rápido e estas, e dezenas, centenas de outras respostas surgirão. Mas… qual delas é a correta?

Todas.

Sim, todas. & Nenhuma:
Arte, especialmente a Contemporânea — teoria & prática, conceito & obra — é algo, acima de tudo, subjetivo.

subjetivo, demasiado subjetivo.

&, aprofundando ainda mais a subjetividade propiciada, arrisco aqui também minha resposta: Arte é processo.

Tanto que utilizamos o termo obra de arte para designar o resultado destes processos. A princípio, literatura, pintura, música, cinema, dança, teatro e fotografia são as primeiras formas de arte que nos surgem quando pensamos no assunto. Mas esta concepção pode — e a meu ver, deve — ser expandida, incorporando outras áreas como gastronomia, moda e demais atividades realizadas em estado de presença, de transe, naquele mágico & eterno momento que ocorre quando unimos cérebro & coração, corpo & espírito, mente & alma. Assim sendo, a Vida pode — ou, novamente, deve(ria) — ser uma forma de Arte.

Até porque ambas são feitas de Acasos — um dos conceitos-chave deste modesto ensaio. Sem me prolongar por demais nestas linhas tortas, quero pensar a relação simbiótica & (dis)funcional do tríptico Arte, Caos & Acaso.

A primeira já está “definida” (ao menos para sua compreensão nestas estrofes mal-resolvidas). A segunda, Caos: a primeira divindade, desordem & confusão — criador primordial da realidade, o mais sábio dos deuses — “é necessário ter o caos cá dentro para gerar uma estrela”. Finalmente, o Acaso: latim, a casu — sem causa, aquilo que acontece (aparentemente) sem qualquer determinação, “um deus e um diabo ao mesmo tempo”.

Ao longo das últimas décadas, quanta coisa não aprontaram (aprontam e aprontarão) estes três… Casos historicamente famosos, como o Exquisite Corpse dos surrealistas franceses — brincadeira que consistia na junção aleatória de imagens ou palavras por um grupo de pessoas, cada um colaborando tendo visto apenas o final do anterior. Ainda deles, a escrita automática, diferente porém próxima do fluxo de consciência do beatniks, propagado principalmente pelos poemas de Allen Ginsberg e o romance On The Road, de Jack Kerouac. Ou ainda na música, com os Rolling Stones utilizando frases soltas anotadas em tiras de papel para compor letras para as horas & horas de material gravado no sul da França durante os seis meses que habitaram o porão de Keith Richards, que viriam a se tornar o clássico álbum duplo Exile on Main St. (na minha modesta opinião, o melhor deles).

Mas não só na história da arte e nos nomes famosos essa tríade se manifesta. Dois anos atrás, fotos de um bem apessoado chinês de aproximadamente 35 anos causou furor na blogosfera fashion. Não, não era um novo modelo descoberto por Vivienne Westwood, mas sim um morador de rua que — sempre de cigarro entre os dedos — perambulava pelas ruas de Ningbo vestindo sobreposições ousadas e charmosas, que incluíam vestidos e outras peças primordialmente femininas, as quais, apesar de todas as questões de gênero levantadas por tal detalhe — verdade seja dita — lhe caiam muito bem, rapidamente elevando-o à categoria de ícone fashion.

Marc Jacobs, John Galliano e a própria Vivienne já tentaram trazer este look “tô nem aí” para as passarelas, mas não colou. Como não poderia deixar de ser, soava fake, deveras premeditado, milimetricamente pensado. O acaso não passa pelo crivo da razão, contorna-a e se manifesta pelo lado direito do cérebro. O acaso — filho do Caos? — é lúdico & espontâneo, e não há plano ou projeto que o aprisione ou mimetize.


texto originalmente escrito para a edição #3 da revista Yacamin, publicada pela marca homônima no inverno de 2012. se você gostou, compartilhe e/ou recomende. gracias!