Feminino? Masculino? Unissex? Agênero?

Quem acompanha as notícias do mundo da moda já vem percebendo uma nova tendência em ascensão — e parece que, dessa vez, é bem mais que uma modice.

A moda agênera, ou seja, sem gênero definido, é vista por muitos como o futuro da moda. Não tem mais essa de que vestido é pra mulheres e terno é pra homens.

Várias marcas vanguardistas já carregam essa pegada genderless no DNA, como a Comme des Garçons, da japonesa Rei Kawakubo. A estética marcante da label, inclusive, foi tema do MET Gala desse ano.

Comme des Garçons

A grande surpresa, no entanto, é a chegada desse conceito nas grandes marcas de massa. Entre críticas e elogios, nomes como C&A e Zara lançaram, no último ano, coleções sem gênero, reforçando que a tendência já chega ao grande público.

Coleção genderless da Zara

Mas de onde tudo isso surgiu? E porque é tão importante assim?

No começo do arco-íris

A moda genderless está intimamente ligada ao movimento LGBT. Não, não necessariamente as peças agêneras são feitas com propósitos políticos, mas o próprio questionamento do conceito de gênero tem estado em voga e foi impulsionado, em grande parte, pela comunidade homo e transsexual.

Judith Butler, uma das maiores estudiosas de gênero da atualidade e autora da Teoria Queer

Ao contrário de algumas décadas atrás, hoje fala-se mais abertamente sobre questões de sexualidade e identidade de gênero — que, apesar de terem alguns pontos relacionados, são conceitos diferentes.

Enquanto a orientação sexual tem a ver com quem uma pessoa se relaciona e sente atração, a identidade de gênero diz sobre quem esse indivíduo é, como se sente e como pretende se apresentar ao mundo. Ou seja, tudo que a moda promete oferecer, certo?

Mais que roupas, as pessoas querem se expressar

Se vermos a moda com um olhar poético e otimista, certamente pensaremos nela como uma forma de expressão, de arte, de mostrar sua real identidade.

Mas com padrões tão acirrados, será que é possível se expressar tão livremente assim?

Homens não são só as calças que usam, assim como mulheres não são só as saias. Pequenas (grandes) trangressões acontecem todos os dias na moda: quando você, mulher, usa um blazer masculino porque se sente lindíssima assim. Ou quando o homem compra uma bolsa que estava na sessão feminina porque é exatamente o que ele precisava pro dia a dia.

A moda agênera surge, então, com uma proposta simples e poderosa: roupas não tem gênero. Quem usa é que deve lhes atribuir significado, personalidade, identidade, e não o contrário.

Feminino? Masculino? Unissex? Andrógino?

Em meio a um discurso tão bonito, surgem dúvidas práticas. Moda agênera é a mesma coisa que unissex? Sim e não. Por um lado, de fato são peças pensadas para vestir homens e mulheres. Por outro, a tendência genderless vem carregada de algo além da praticidade: uma revisão de valores. Uma verdadeira revolução fashion.

Ah, e é válido lembrar que roupas sem gênero não necessariamente são andróginas. Andrógino é aquilo que apresenta características do feminino e do masculino. O genderless, agênero, sem gênero pode ir muito além: não é um terceiro gênero que mistura um pouco dos outros dois. Pode trazer mais elementos de um que do outro, pode ter traços andróginos ou, ainda, trazer criações inovadoras que não estão ainda no nosso repertório visual.

Andrógino é aquilo que apresenta características do feminino e do masculino. O genderless, agênero, sem gênero pode ir muito além: não é um terceiro gênero que mistura um pouco dos outros dois.

É claro que muitas marcas continuam criando coleções voltadas para públicos feminino e masculino. E isso é ótimo. É a diversidade e possibilidade de escolha que movem o mundo da moda pra que ele seja o que sempre se propôs a ser: uma grande tela em branco onde cada um pinta seu próprio quadro.