Maria, Kleper e as pérolas

Um final de tarde de quinta-feira e tudo se ajeitou. Tinha meses que eu tinha uma dívida com minha amiga Maria, que divide comigo angústias que vão além do mestrado. Só saímos uma única vez pra ir no Porto da Barra, fruto de agendas com horários desajustados e da minha dificuldade em conciliar trabalho, vida acadêmica e o luxo que é ter vida social. Vimos um pôr do sol lindo e tiramos uma foto no celular da amiga dela que depois deletou aquele registro que pra mim tinha sido tão especial. A memória bonita não foi apagada.

A promessa era uma cerveja mas acabei propondo irmos para uma exposição. A data “certa” era no dia anterior mas foi desmarcado por outros compromissos. Respira, fazer o que é possível. Quinta-feira, pós-orientação, “passo aí pra te buscar quando eu sair”. Daquelas sortes que o universo todo conspira, o artista tava lá no dia! Tivemos o privilégio de ouvir dele todas as minúncias do processo criativo. Entre elas, as pequenas e notáveis pérolas. Tudo o que permeia a criação e a trajetória desse artista são processos de cura. Kleper nos contou: a ostra não tem como botar pra fora o que machuca, aí ela vai excretando madrepérola até encapsular aquilo que incomoda. Que lindo. Olhei ao meu redor, eu estava rodeada por um monte de pessoas queridas, especiais e generosas. Lembrei de minha prima falando que eu fico um saco quando vou em exposições porque presto atenção em cada detalhe. Ri sozinha por dentro.

De um lado eu tinha Maria que faz pérolas com poemas, de outro lado Gabriela que faz pérolas com a voz. Na minha frente, o Kleper que fez pérolas com suas dores. Que sorte a minha… ter perto gente que sabe ver beleza mesmo na dor e por ter amizades que entendem que nossas dores também são muito preciosas. Façamos pérolas.