O Sentir era Ela.

Ela tinha começo, meio e fim. Era prosa, às vezes poesia, mas nunca narração. Não era começo, meio e fim na ordem normal dos fatos. Um dia ela era fim, meio e começo. Às vezes meio, começo e fim. E por aí vai.

Sabia que não tinha graça ser o padrão, e esse “não ter graça” não era porque as pessoas achavam que ela não era “a” graça. É porque sendo o padrão ela não era feliz.

E, todo dia pensava por que não ser o padrão era tão absurdo. Às vezes se sentia um ponto e vírgula no meio de um texto: estranho, nunca usado, mas, talvez, especial. Não no sentido não humilde da palavra especial, sem engrandecer, por favor.

Era um especial sincero. Sensitivo.

Tudo ela sentia. Palavras nunca foram só palavras. Palavras eram símbolos que quando falados, entravam no ouvido dela e acertavam o coração. Como uma bomba atômica em território desconhecido e vazio, o impacto era imenso e refletia sobre tudo.

Sobre o que ela pensava e sobre o que ela era.

Tinha medo de ser, pelo o que o “ser” afetaria nas demais pessoas e o quanto essas pessoas retornariam em palavras e atitudes, e essas sim (não as pessoas) a amedrontavam.

Essa sim, era a maior dificuldade do ser. Sem filtros. Ser apenas o que quisesse ser, sem julgamentos, reações ou sensações negativas. A incrível capacidade dos seres humanos de julgar os outros a fazia mal.

Ela era como uma esponja - absorvia tudo.

Absorvia tudo que “saia” e era “expelido” dos seres humanos. Pensadas ou não pensadas, as palavras a afetavam e ela transformava esse impacto em emoção.

Por isso tão bipolar, talvez;

O tempo todo sentia o que os outros passavam para ela, e isso fazia ela, mais dela, formada pelos outros. Complexo, não?

Era isso.

Ela tinha a certeza que havia nascido para sentir. Independentemente do que esse sentir poderia representar, seja tristeza, angústia, ansiedade, medo, apreensão, felicidade, amor, ou o que for. Ela era sensação na forma mais pura da palavra.

E assim se aceitava, sendo algo diferente e sentindo sensações diferentes a cada dia que passava e a cada pessoa com que convivia. Era um retalho de todos, que não fazia dela mais ou menos que ninguém. Fazia dela, apenas, ela.