Você, traiçoeira.

Aparenta ser tão leve e fina, com uma ingenuidade e uma beleza de nascença … A infância a chama de algodão doce. Está sempre ali, em grupo ou sozinha, e levada constantemente pelo vento de um lugar ao outro.

Por isso -talvez- leve.

O vento arrasta o leve com uma facilidade descomunal.

Como um grão de areia que é levado pelas ondas do mar, de um oceano ao outro, por quilômetros de uma imensidão azul, você é grão de areia no ar. Diferentemente dele, que se assume pesado e denso, ficando na superfície da Terra, você não.

Se assume leve, e paira pelo céu. Ou melhor pelos céus. Não apenas o meu, mas o seu, o dele, o dela e o de mais milhões deles.

Eles, que estavam ali. Que viveram ali, e que sofreram ali.

O mesmo céu que ele viu, você… vendo.

Não era como um dia qualquer. Ele não estava em um lugar qualquer.

Tinha anos de distância do ocorrido, como se lembrasse com nostalgia de tudo aquilo - não com saudades - mas com a tristeza nostálgica que a palavra carrega. Olhava para aquilo como se tivesse vivido junto a dor.

Era como se analisasse cada centímetro do lugar, imaginando cenas, que gostaria de poder nunca imaginar.

Ele era ali, furacão.

Sentia tudo tão forte, como se todos aqueles sentimentos girassem dentro dele, se repetindo, constantemente, com violência.

Na sua própria órbita, ele sentia, tudo.

Quando eu era pequena, achava que o centro do furacão era o mais seguro de se estar. Tudo estaria girando e destruindo, e eu, estaria ali, à salvo. Me imaginava correndo para dentro dele, com uma vontade incessante de sentir que a minha teoria estava certa. Mas eu ainda não sabia que estar ali, me faria sentir toda aquela turbulência.

E foi assim que eu o vi.

No meio de toda aquela turbulência interna, ele olhava para aquele lugar, como se aquilo o pertencesse. Como se não só milhões de vidas tivessem sido dilaceradas, mas um pedaço dele, também.

Por um segundo, precisou barrar todos aqueles pensamentos para respirar.

Fugindo de tudo aquilo, ele olhou para o céu e viu.

Como uma criança que olha para o horizonte, e entende que o mundo é redondo, vendo um pequeno barquinho de pesca se distanciar dos limites terrestres. Ele viu, você vendo.

E sabia que estava ali desde o princípio, que poderia ter falado, avisado, gritado! Ao menos hoje, a imaginação dentro daquele lugar seria menor ou pelo menos não tão…como era.

Foi tomado pela raiva de ter percebido aquilo. O quão impotente aquela omissão tinha o feito. Como se pudesse, sem mesmo estar vivo, ter feito alguma coisa.

Mas ele não podia.

Um dia ouviu de um desconhecido que muitas vezes as pessoas tentam entender coisas que, simplesmente, não precisam ser entendidas. Mas como aquilo podia se aplicar a vida? Como aquilo podia explicar o que aconteceu ali?

Ele queria entender se você tinha ao menos tentado avisar.

Em formatos, talvez?

Será que tudo aquilo que vemos nos seus formatos, são tentativas de nos avisar algo?

Será que as cores? A densidade?

E quando vai chover? Os raios são indícios de uma tentativa de nos alertar algo?

Não. Não era possível, alguém teria visto.

Concluiu que talvez aquele desconhecido tivesse razão. Existem coisas na vida que não precisam ser entendidas, e um tanto cruel, não tinha como fugir disso.

De que adiantaria culpar você? Culpá-la não salvaria aquelas vidas. Não voltaria no tempo. Não faria do sofrimento, menos sofrimento. Simplesmente, não faria…

Foi ali, então, naquela pausa do tempo e do mundo, olhando para o céu que ele culpou e desculpou. Que ele entendeu que a mudança tinha que ser interna.

E transformou todo aquele sentimento em amor. Amor na sua forma mais pura, um amor para si. Se esforçando para tornar-se cada dia mais humano.

Se foi aquela sensação de raiva, de impotência, para ficar apenas a personificação de uma nuvem traiçoeira: você, que nunca mais será vista com a pureza e a doçura de um algodão doce.

Hoje, para ele, você é, apenas, nebulosidade.