UMA SALA VERDE MEIO NEON

Cabeça de Balde não queria estar naquela sala, pra começo de conversa.

Mas se Cabeça de Balde não tivesse sido descoberta, depois de anos de fugas muito bem orquestradas na calada da noite, justo naquela específica noite tão usual como tantas outras de sua vida, Cabeça de Balde provavelmente não saberia tão cedo dos prazeres envolvidos em desfrutar daquela deliciosa bebida quente engenhosamente preparada numa cheia de curvas Nescafé Dolce Gusto Melody — umas das mais que desejáveis e invejáveis invenções tecnológicas da humanidade. — Aliás, Cabeça de Balde quiçá teria descoberto este incrível advento, quiçá adicionaria o tal como item indispensável na sua listinha imaginária de “itens indispensáveis para uma vida posterior”. Aquilo já contava como vantagem naquele começo de tarde.

Entretanto, a tarde de reflexão dentro duma carcaça metálica no meio da estrada, guiada pela trilha sonora pouco competente reproduzida pelos embaraçados fones de ouvido de Cabeça de Balde, nada tinham a ver com a bebida quente que competentemente queimavam o céu de sua boca. A tarde de reflexão, na verdade, tudo tinha a ver com as muito-bem-orquestradas-fugas-na-calada-na-noite, citadas anteriormente, mas que numa específica noite tão usual como muitas outras tinham sido… expostas. Expostas, por sua vez, de maneira bastante previsível para Cabeça de Balde, que tinha consciência de como um dia seria pega. Daquele jeito, afinal. Mas, sendo muito ágil em dar um fim nas provas do crime, preferiu se iludir e acreditar cegamente no seu plano que tinha tudo pra ser perfeito. Só que ela é que não era perfeita. E inexplicavelmente, nos últimos dias, nem sempre orquestrava muito bem suas muito-bem-orquestradas-fugas-na-calada-na-noite.

Vezes por preguiça, vezes por sentimentos inexplicáveis de “dane-se”. Vontade de ser descoberta, talvez?

E foi.

Cabeça de Balde era tão boa de esconder, que às vezes acabava escondendo de si mesma seus problemas a ponto de acreditar que eles não existiam. E assim conviveu com eles, cresceu com eles, ignorou eles… Até que chegou num momento em que foi descoberta, teve de criar coragem para desenterrar eles, olhar pra eles e lidar com eles. Por fim, decidiu escrever sobre eles. — Tudo porque o cara que conversava com ela sobre as coisas que eram escondidas debaixo do balde disse que seria eficiente se fossem expostas as raízes do problema.

Isso sim seria um problema. Afinal, odiava exposição.

Então Cabeça de Balde pensou, resistiu, mas no final das contas percebeu como lá no fundo existiam coisas que Cabeça de Balde realmente gostaria que algumas pessoas específicas soubessem a respeito das coisas debaixo do balde.

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