Identidade negra como comunidade e a identidade negra essencialista

Me perguntaram uma vez se eu lembrava de algum episódio em que sofri racismo, eu disse que não, nunca tinha pensado nisso… afinal, porque eu sofreria racismo se nem sou tão preto assim?

A identidade negra surge a partir da necessidade de combate as práticas de discriminação negativa contra grupos de pessoas que apresentam diferenças físicas e culturais, ainda que imaginadas, que se destacam de outros grupos. Marcadamente no Brasil a identidade negra está relacionada a exclusão dos negros, escravos e foros, e de seus descendentes dos locais de poder e depois de 1888 a vinculação das populações negras a valores terceiro-mundistas como a preguiça, a violência e a embriaguez através de práticas mais ou menos científicas.

É assim que vemos durante os séculos de escravidão no Brasil as lutas dos coletivos negros relacionadas diretamente as lutas contra a escravização em que os recorrentes levantes da metade do século XIX até a abolição e a criação de quilombos e malocas (?) são exemplos e em que a união se dava a partir da percepção de um sentimento comum de opressão. Mesmo as lutas individuais dos foros e mestiços livres por trabalho eram lutas que neste momento ainda que não verbalizadas precisavam lidar com essa identidade de grupo que na época ainda se confundia muito com a posição social já que ser escravo e negro eram duas coisas diretamente ligadas.

No caso das pessoas com traços mestiços diferenciáveis o que se tinha era uma ascensão pontual de indivíduos com seu devido certificado de brancura e a exclusão como fator majoritário dos grupos de cor, mesmo em sociedades muito mescladas como a Bahia oitocentista.

Mais a frente no decorrer do século XX a medida que a sociedade brasileira adentra no modelo moderno de produção e circulação de mercadorias a percepção de grupo como um agregado de pessoas de mesma raça torna-se predominante. Na virada do século até a década de 30 se consolida uma forma de encarar o negro a partir de suas características fisíco-morais e isso leva até hoje ao que consideramos como o “negro”. No campo das lutas sociais isso influencia muito a forma de pensar e os primeiros movimentos no Brasil começam a fazer suas próprias lutas a partir dessa noção de grupo enquanto raça que ao ser apropriada por estes grupos permite unir sob uma história comum de opressões vários sujeitos. Como demonstraram futuramente as pesquisas pós 1950 as características que mais influenciam a discriminação são, em primeiro lugar, a cor da pele e, em seguida, a textura do cabelo com o restante das características variando mais conforme a interpretação.

Neste momento é travada no âmbito internacional reflexões e lutas muito importantes no contexto da independência das nações africanas e no combate as formas de discriminação internas principalmente nos EUA e na África do Sul. No Brasil, ao contrário de outros lugares a discriminação não vinha necessariamente acompanhada de uma consciência acerca da negritude, mas em diversos lugares do país os negros e seus descendentes tem nomes diferentes e em muitas vezes estes nomes vão servir para distinguir os habitantes de um local para outro, como é o caso do termo caboclo e do preto. Isso não invalida a associação entre marcas (fenótipo) da pessoa e sua origem ancestral, pelo contrário, a reforça e serve neste momento para a estigmatização dos grupos afrodescendentes, as pessoas, negras ou não, se utilizando destas diferenças para se situar dentro da sociedade.

No âmbito internacional ao longo dos anos a noção de raça cai por terra e a visibilidade do racismo como uma problemática global torna claro que a raça negra é na verdade uma construção histórica que depende de como os afrodescendentes foram enxergados e tratados em cada lugar do globo. Muitos textos tentam descrever este estranhamento de estrangeiros que quando chegam a determinados países em que as relações raciais são diferentes de seu país de origem são tratados de formas que lhe causam surpresa. Tem-se ai o aprendizado de que a identidade negra não é algo estático, uma “essência” como prediziam os cientistas sociais do começo do século, mas uma noção abstrata que dependente da história de como um determinado grupo é visto e porquê ele é visto.

Parece que atualmente carecemos deste “porquê”. Há muita disputa, se é que podemos dizer assim, do final do século XX para cá de quais são os critérios que levam uma pessoa a definir a outra enquanto negra e mesmo que haja um certo consenso de que fatores como a cor de pele são predominante na hora da discriminação ainda há muita confusão e definições estereotipadas que seguem o modelo racialista.

A despeito da história demonstrar que são as relações entre os grupos mediado aí por suas características físicas e de aparência que definem na prática quem será o alvo da discriminação, há ainda um certo essencialismo que leva a definição do negro exclusivamente como uma pessoa de pele preta, nariz largo e cabelo crespo. De certo se seguirmos tal definição nem mesmo os próprios negros africanos hoje em sua grande diversidade étnico-racial poderiam se encaixar.

Quando identificamos a nós mesmos como negros devemos estar estabelecendo uma ligação com um histórico comum de discriminação sentidas em nossas vidas em que as características físicas são intermediárias e não fins. E estas relações raciais que nos definem como negros estão ai localizadas em um local e tempo que só o entendimento em conjunto pode nos dizer se somos ou não alvos da discriminação.

O quanto uma sociedade que já exigiu certificados de brancura pode produzir na cabeça de um afrodescendente para que ele ou ela naturalize os episódios de opressão que sofre e se afirme como branco? Porque deveríamos menosprezar o sentido local das relações raciais mesmo em contextos em que a predominância dos grupos brancos nos espaços de poder tornam qualquer sinal de negritude um alvo da discriminação? Precisamos pensar como mesmo as pessoas que hoje não se identificam como negras podem tornar visíveis os episódios de discriminação sofrem e como outros podem enxergar nestas experiências um local seguro para se afirmar, independente dos apegos que temos a modelos.

Para isso é importante nos questionar mais sobre quem é o grupo que nos diferenciamos e a que ponto nossas diferenças percebidas são utilizadas para nos identificar como um grupo alvo da discriminação. Hoje vivemos em um cotidiano em que os signos da negritude estão cada vez mais presentes e isso produz no inconsciente dos jovens negros um chamado a autoafirmação e possibilita que se juntem a outros que assim como ele passam por questões parecidas em suas vidas. Precisamos estar atentos e responder a estes anseios para produzir comunidades negras potentes e que contemplem toda a nossa diversidade.